Pinacoteca | Em Azul Profundo, Nelton Pellenz propõe uma nova maneira de observar o desconhecido por meio do vídeo
*Imagem: NELTON PELLENZ (São Paulo das Missões/RS, 1967), Azul Profundo, 2011.
Vídeo, 05’30”. Pinacoteca Barão de Santo Ângelo – Acervo Artístico
Não sabemos conviver com a incerteza. Habituados a constantemente organizar e sistematizar o nosso entorno, tendemos a ignorar tudo aquilo que escapa à norma da objetividade. Seja em âmbito acadêmico, laboral ou mesmo emocional, a segurança, a clareza e o equilíbrio são sempre finalidades desejadas. Na busca por organizar o desordenado, o cotidiano acabou se tornando um jogo constante de ação e reação – quando quebrado, conserta-se; quando instável, estabiliza-se.
A partir desse hábito, nosso olhar sobre o mundo reconfigurou-se, de maneira que desenvolvemos um olhar mais indexador do que propriamente observador – uma visão intrinsecamente ligada à palavra. Em lugar de ver o mundo, tornamos a buscar apenas o que reafirma aquilo que já conhecemos. Disso, tudo o que se encontra fora da certeza acaba sendo ignorado. Como explica Michel Foucault na introdução de seu seminal ensaio As Palavras e as Coisas: “por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas aquele que as sucessões da sintaxe definem”.

Há quem diga que tal atitude é instintiva, orgânica – o que é a seleção natural se não a necessidade de responder instintivamente a um estímulo externo? Ou quem sabe é uma questão ideológica – será esse um reflexo do racionalismo da ideologia burguesa? Independentemente da origem desse hábito, a estabilidade acaba sendo almejada nas mais diferentes esferas da vida de um indivíduo. Ainda assim, o caminho até a clareza e o equilíbrio é muitas vezes longo, sinuoso e incerto. Desse contexto, nasce Azul Profundo, vídeo pertencente ao acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo.
Realizado por Nelton Pellenz, cineasta e artista visual porto-alegrense, o curta-metragem de 2011 explora as incertezas que cercam nossa percepção do mundo. Através de elementos próprios do vídeo, como o zoom, a textura pixelada e baixa resolução, Pellenz modifica uma paisagem marítima ao ponto de descaracterizá-la. Perdido na instabilidade do mar agitado, o espectador não tem onde se ancorar – nada ali é objetivo, útil, claro.
Em Azul Profundo, não há espaço para o equilíbrio; na inconstância caótica do oceano, só boia a dúvida.
Em meio às ondas revoltosas, o tempo corre devagar. Por meio do slow motion, o tempo do filme se distorce – nas águas pixeladas, a temporalidade explicita a lógica incerta que rege aquele mundo. Tal qual o mar em um dia de vento, Pellenz busca apenas o movimento. Sem narrativa ou qualquer direção concreta, o fluxo do oceano é o que dita a filmagem. Como o próprio artista escreve a respeito da obra: “o mar, de tão intenso, absorveu os incautos surfistas. O que antes era certeza, agora é uma melancolia azul-profundo que aos poucos me envolve”.

Se distanciando da comunicação com o espectador, da narratividade e dos meios tradicionais da linguagem cinematográfica, Azul Profundo propõe uma forma diferente de entendermos a visão. Consciente de que a percepção sensível é a ponte que conecta um indivíduo ao mundo, Pellenz altera visualmente seu entorno. Mais do que filmar um oceano, o artista quer filmar suas cores, seu movimento, suas conversas com a câmera e com o olho do espectador. Contrapondo-se a uma visão que sistematiza, organiza e reage, Pellenz propõe um olhar que vê como um fim em si mesmo. Assim como Stan Brakhage em seu belíssimo texto Metáforas da Visão, Nelton Pellenz busca imaginar um mundo antes de “no princípio era o verbo”.
Convidando o espectador a reavaliar sua própria percepção sensível do mundo, o artista reconhece a necessidade de olhar e confrontar-se com a incerteza. Como num passeio de barco em águas inquietas, somos levados a seguir o curso que o mundo nos pede. Mais do que o mar, suas correntezas; mais do que as ondas, sua força disruptiva.
Contrariando a tradição mimética e realista do cinema, Pellenz produz uma obra que só existe na dúvida. Ciente do poder da visão, Azul Profundo apresenta um mundo no qual o olhar fala mais alto que o racional. Não é sobre entregar-se ao desconhecido, mas sobre abraçar o processo. Pouco importa o resultado, pouco importa a clareza da água e as consequências do entregar-se ao mar; no fim, a instabilidade é a única certeza, então nada mais justo do que seguir o fluxo.

*A qualidade das imagens aqui utilizadas são próprias da exibição da obra
João Vitor Lizardo dos Santos é graduando em História da Arte pela UFRGS, bolsista de Iniciação Científica junto ao projeto Arte e deslocamento: transversalidades no espaço e no tempo e membro do Cineclube Luz Vermelha.
Quinzenalmente, pesquisadores e estudantes apresentam obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo a partir de diferentes aspectos. A seção tem curadoria de Camila Monteiro Schenkel e Gabriela Motta.





