Notas, métricas e exclusão: o ciclo vicioso da avaliação

Artigo | Rafael dos Santos e Russel da Rosa relatam pesquisa sobre como docentes interpretam e realizam práticas avaliativas na educação básica

*Ilustração: Luísa Sirangelo/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Avaliar faz parte do nosso cotidiano. Seja para escolher um caminho, um restaurante ou um filme, estamos constantemente avaliando opções. Esse ato, no ambiente escolar, frequentemente gera ansiedade entre estudantes e é o foco de tensões entre docentes e gestores. Isso ocorre porque a avaliação carrega valores e ideologias. Na educação, avaliar não se limita a mensurar aprendizagens; também pode servir para incluir, orientar e apoiar, ou, ao contrário, hierarquizar, punir e excluir. Os seus resultados podem levar a investimentos e melhorias escolares ou serem usados para legitimar a transferência de recursos públicos para fundações e grupos privados.

No Brasil, a avaliação da aprendizagem ocupa lugar central nos debates sobre qualidade da educação. É um tema que mobiliza professores, estudantes, famílias e movimentos empresariais, como o “Todos pela Educação”, em disputa pelos seus significados e implicações em políticas públicas. As condições de trabalho, sobretudo na Educação Básica, tornam as práticas avaliativas, em geral, distantes do que propõe a Lei n.º 9.394 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996), que defende abordagens processuais e formativas. Persistem modelos classificatórios e reprovações, que penalizam especialmente estudantes pertencentes a famílias com pouca escolarização, cujas vivências culturais são distantes da lógica escolar.

Foi nesse contexto que, nos últimos dois anos, realizamos uma pesquisa com quatro professores de Ciências e Biologia, egressos da mesma universidade, que atuam em escolas de diferentes municípios do Rio Grande do Sul. O objetivo foi investigar sociologicamente como esses docentes interpretam e realizam a avaliação – e, sobretudo, por que a avaliação formativa segue sendo tão difícil de implementar no cotidiano escolar.

Entre os principais achados, destaca-se o peso das experiências formativas dos próprios docentes. Vivemos processos de avaliação, na Educação Básica e Superior, moldados por uma lógica meritocrática que pouco considera as diversidades culturais e sociais dos estudantes. Essas vivências, muitas vezes reproduzidas de forma inconsciente, reforçam práticas avaliativas que distanciam a escola de seu papel emancipador, ao desvalorizar saberes populares e formas alternativas de expressão.

A avaliação pode se tornar ferramenta de controle não apenas da aprendizagem, mas também dos comportamentos. Resultados insatisfatórios, em vez de servirem como base para intervenções pedagógicas, acabam sendo utilizados como justificativas para reprovações. Relatos de atividades de recuperação propositalmente difíceis, destinadas a restringir o avanço dos estudantes, exemplificam como a escola pode legitimar fracassos vinculados às desigualdades estruturais.

A crença nas provas como instrumento fidedigno e neutro, por submeter a todos aos mesmos níveis de dificuldade e critérios de avaliação, é constituída ao longo dos processos de socialização escolar, acadêmica e profissional. No entanto, essa homogeneização ignora as diferenças culturais, sociais e materiais que moldam as trajetórias dos estudantes.

Alguns professores acreditam que provas difíceis podem estimular o esforço, a disciplina e o compromisso. Essa crença não surge do desejo de punir, mas da intenção de provocar maior dedicação aos estudos. Contudo, ao não considerar as diferentes realidades dos estudantes, tal prática reforça uma lógica excludente.

As intenções docentes não podem ser analisadas isoladamente de seus contextos. Muitas escolas carecem de recursos humanos e materiais para oferecer suporte adequado, especialmente aos estudantes que mais precisam. Nesse cenário, a meritocracia se impõe, mascarando os impactos das desigualdades no processo de aprendizagem.

Além disso, a precarização das condições de trabalho docente agrava esse quadro. Entre 2006 e 2022, foram fechadas 227 escolas públicas no Rio Grande do Sul, sendo 146 em áreas rurais. Em 2023, mais da metade dos professores da rede estadual atuava com contratos temporários, o que fragiliza os vínculos com os estudantes. Dados recentes do Censo Escolar de 2024 evidenciam as consequências desse modelo: após um breve aumento das taxas de aprovação durante a pandemia, os índices de reprovação e abandono escolar voltaram a crescer, especialmente no Ensino Médio.

Apesar desse cenário desafiador, a pesquisa também revela brechas. Os professores entrevistados realizam práticas pedagógicas alternativas. Um deles utiliza temas como o terraplanismo para desenvolver o pensamento científico e crítico dos estudantes, relacionando os conteúdos escolares com a análise de fake news. Outros investem em aulas práticas no laboratório, atividades de campo em diferentes espaços de educação ambiental e estratégias que aproximam os saberes escolares das realidades dos estudantes, inovando mesmo em ambientes de forte pressão por resultados padronizados.

As experiências relatadas indicam a importância da formação docente na criatividade e capacidade de adaptação frente às limitações de recursos nas instituições escolares, recorrendo a materiais e estratégias improvisadas para garantir uma aprendizagem contextualizada. Tais vivências possibilitam que a avaliação seja ressignificada como um processo contínuo, orientado à promoção da aprendizagem e ao reconhecimento das diversidades presentes no ambiente escolar.

Os dados apontam que a superação de modelos excludentes requer investimento consistente na formação docente, fortalecimento da autonomia pedagógica e criação de espaços institucionais voltados à escuta e à reflexão crítica. Refletir sobre a avaliação, portanto, implica refletir sobre o próprio papel social da escola.

Não é possível conceber uma avaliação justa que desconsidere os contextos sociais dos sujeitos envolvidos, da mesma forma que não se pode falar em uma educação verdadeiramente democrática enquanto práticas excludentes forem naturalizadas sob a justificativa da eficiência.

Transformar a avaliação em um instrumento de promoção da aprendizagem constitui um passo essencial para a construção de uma escola mais inclusiva. Mais do que mensurar resultados, é preciso acolher e compreender os processos. Mais do que punir, é necessário apoiar. Afinal, a escola deve ser, antes de tudo, um espaço de pertencimento – e a avaliação, uma ferramenta comprometida com esse princípio.


Rafael Barboza dos Santos é licenciado em Ciências Biológicas pela UFRGS, doutorando e mestre em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação (PPGEdu-UFRGS). Membro do Grupo de Pesquisa em Socialização, Estratificação e Trajetórias Juvenis e Educacionais (GESET).
Russel Teresinha Dutra da Rosa é professora do Departamento de Ensino e Currículo e do Programa de Pós-graduação em Educação da UFRGS.


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