O Antônio do bar

Perfil | Prestes a completar 55 anos à frente da icônica lancheria do Câmpus Centro, Antônio Pereira dos Santos é uma das figuras mais conhecidas da Universidade

*Foto: Flávio Dutra/JU

“Fala, minha jornalista!”, é assim que Antônio me recebe em uma das mesas do fundo do Antônio Lanches. Está tomando um café e me oferece outro. Logo avisa: “Se nós formos falar sobre a história do Antônio, é uma história muito longa e que metade da Universidade não sabe”. 

Difícil saber quando Antônio fala de si e quando fala do bar. São dois organismos imbricados, a história de um se confundindo com a do outro. A de Antônio começa em 27 de janeiro de 1947. Batizado Antônio Pereira dos Santos — Pereira da mãe, Palmira, e Santos do pai, Emilio —, nasceu em Lisboa, Portugal. Aos cinco anos, veio com a família para o Brasil. O pai pretendia ganhar aqui 60 mil escudos (moeda portuguesa da época) e retornar à terra lusa depois de cinco anos. Acabaram por retornar só depois de nove, mas, pouco tempo depois, fizeram o caminho de volta para o Brasil. 

Em Porto Alegre, residiam no bairro Passo D’Areia, zona norte da capital, no número 59 da avenida João Wallig. O pai tinha um bar no Mercado Público, o Bar do Emilio, no qual Antônio começou a trabalhar aos 13 anos. Com 14, já era comerciante em tempo integral. Ao completar 20, ganhou 1.500 cruzeiros do pai e foi “ajeitar sua vida”, como conta. Foi então que conheceu o espaço que ocuparia pelos 55 anos seguintes. “Alguém disse pra mim: ‘Antônio, lá na Faculdade de Filosofia tem um cara que quer vender o bar. Vai lá’. E aí eu vim aqui. O barzinho tinha quatro mesas, um balcãozinho de madeira, daquela porta pra cá.” 

Tratava-se do Bar da Filô, pertencente ao Centro Acadêmico Franklin Delano Roosevelt (CAFDR), da Faculdade de Filosofia, que à época ocupava o atual Anexo III da reitoria, no Câmpus Centro. O CAFDR cedia o bar a Seu Júlio, um dos porteiros do Câmpus, em troca de café e algumas cervejas. Antônio comprou o bar em agosto de 1967. Assumiu às dez da manhã de um sábado; à noite, o espaço lotaria de estudantes devido a uma reunião dançante — a primeira de muitas que Antônio presenciaria. 

No mesmo ano, Antônio começou a namorar Loure Elkik. A família da jovem, de origem libanesa, comandava um atacado de maçãs ao lado do bar do pai de Antônio. Da amizade nasceu um casamento que se mantém até hoje, 51 anos depois. Ao longo do caminho, vieram os dois filhos, Alexandre e Vanessa, que Antônio fez questão de ver formados pela UFRGS. “Meu sonho era dar a eles aquilo que eu não tive: os estudos”, diz. 

Nascido sob o salazarismo português, Antônio conheceu a repressão da ditadura brasileira logo no seu segundo ano de UFRGS. Ele foi intimado a comparecer ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) depois que, a pedido do então presidente do CAFDR, José Loguercio, servira lanches aos estudantes que protestavam por mais vagas na Universidade. “Eles [os estudantes] passaram a noite aqui dentro, e os policiais lá fora esperando eles. Foi a vez que me levaram para o DOPS, porque eu servi café pra eles. Essa foto aqui é eu servindo café”, diz, apontando para uma das fotografias da parede atrás de si.

Ao longo dos anos, o bar foi personagem de um sem-número de debates políticos e presenciou, inclusive, a criação de partidos, com a presença de figuras emblemáticas da política nacional. “O bar mais político dessa Universidade era aqui. Porque era o único bar da Universidade que ficava fora dos prédios das aulas”, fala Antônio, que ressalva: “Eu tenho relações pessoais, não políticas. Minhas ideias chamam-se futebolísticas. Ideologias partidárias eu não tenho. Meu partido é o Grêmio e a minha família”.

No Grêmio, inclusive, chegou a trabalhar. Em 1973, convidado pelo meio-campista João Carlos Severiano, começou a treinar a Escola de Futebol do clube, onde permaneceu por 16 anos em diferentes cargos. Até que o diploma de Educação Física começou a ser exigido, e Antônio foi completar o ensino básico aos 42 anos. Em um colégio estadual do bairro Higienópolis, estudava até as 11 e meia da noite; às cinco, já estava de pé. Pretendia fazer o vestibular do Centro Universitário Metodista (IPA), mas concluiu que conciliar o comércio com os estudos seria inviável. 

Da prática do futebol, então, conservou as boas memórias, como a do Canarinho Futebol Clube, time que montou aos 17 anos na Vila do IAPI, zona norte da capital. “Eu montei um time porque aí eu sabia que poderia jogar. Eu não tinha futebol para jogar, eu tinha vontade, mas não tinha molejo no corpo”, confessa, fazendo sorrir seu generoso bigode português. 

“Eu tenho que aguentar a tempestade”

Em 1977, Antônio foi desbravar o recém-inaugurado Câmpus do Vale. Abriu um bar no subsolo do Prédio do Instituto de Letras, onde permaneceu por 42 anos. Saiu em 2019, ao perder a licitação de concorrência para outra empresa. “Eu não tenho mágoa por ter saído do Câmpus. Tenho mágoa pela maneira como eu saí do Câmpus.”

Mas, como que inspirado pelo tortuoso mar português de que falava Fernando Pessoa, conclui: “Eu tenho que aguentar a tempestade”. A mais terrível delas foi o incêndio que acometeu o bar do Câmpus Centro em 1992. As chamas carcomeram a maior parte do estabelecimento, que demorou quase um ano para ser reconstruído. Na época, uma perícia chegou a ser feita, mas ninguém foi responsabilizado. 

Outra tempestade, essa proposital e muito bem-vinda, foi o Caminho de Santiago. Melhor chamá-la de desafio: “Minha vida é feita deles”. Em 2001, folheando um jornal no Câmpus do Vale, vazio em razão de uma greve de professores e servidores, parou os olhos em um relato sobre o Caminho de Santiago, peregrinação feita desde a era medieval até Santiago de Compostela, cidade ao noroeste da Espanha. “Cheguei em casa, falei com a minha esposa. [Ela disse] ‘tu enlouqueceu, tu nunca botou uma mochila nas costas e vai fazer o Caminho, 900 quilômetros a pé’. Eu digo: ‘Vou fazer’.” E fez, logo no ano seguinte, junto com seu primo de mesmo nome. Do desafio nasceu um livro, “Dois Antônios no Caminho de Santiago”, publicado em 2013.

Com tanta história, Antônio é uma das figuras mais emblemáticas da Universidade. E ele sabe disso. “Como dizem as pessoas, o Antônio é uma lenda dessa Universidade. Não estou me envaidecendo de uma coisa que não dizem.” E garante: “Desde quando entrou aqui, o Antônio sempre foi o mesmo. O Antônio nunca mudou, e nunca vai mudar. Esse é o Antônio, sempre foi o Antônio e sempre será o Antônio, senão não seria o Antônio”.

Foto: Flávio Dutra/JU