O calendário de duas aves migratórias no RS

Artigo | Lívia Abib, graduada em Ciências Biológicas, relata achados sobre o ciclo anual do guaracavuçu e do enferrujado que auxiliam no monitoramento de impactos climáticos

*Ilustração: Giordana Lorandi Pinto/Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

A América do Sul, especialmente o Brasil, acolhe uma grande diversidade de aves, com diferentes características, preferências de habitat, hábitos de vida, estratégias de reprodução e sistemas migratórios. Isso é refletido no elevado grau de riqueza e de endemismo observados na Mata Atlântica, bioma extremamente degradado que engloba o maior número de espécies de aves ameaçadas do país. Em seu limite sul, em uma transição com o Pampa (outro bioma cujo estado de conservação atual é grave), situa-se o Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos, RVSBP, em Viamão/RS.

Dentro da comunidade de aves do sub-bosque das matas dessa Unidade de Conservação (UC), encontram-se o enferrujado (Lathrotriccus euleri) e o guaracavuçu (Cnemotriccus fuscatus), sendo o último classificado como “Vulnerável” no âmbito estadual devido à severa fragmentação de seu habitat. Esses dois pássaros migratórios e insetívoros são considerados morfológica e filogeneticamente muito próximos e, assim como com outros Passeriformes sul-americanos, pouco se conhece sobre a periodicidade de seus ciclos anuais e outras peculiaridades intraespecíficas.

O enferrujado (Lathrotriccus euleri) é uma das espécies que pode ser encontrada no Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos, em Viamão (Foto: Lívia Abib/Arquivo pessoal)
O Cnemotriccus fuscatus, ou guaracavuçu, é classificado como vulnerável, devido à degradação do seu habitat (Foto: Lívia Abib/Arquivo pessoal)

Para preencher essa lacuna, são necessários monitoramentos contínuos em campo, um esforço que demanda tempo e dedicação. É nesse contexto que se insere a atuação do Laboratório de Ornitologia da UFRGS, buscando aprofundar o conhecimento sobre a avifauna local a partir da investigação de padrões e processos que regem a vida das espécies em seus ambientes naturais. Além disso, o entendimento dos padrões cíclicos das aves frente às mudanças sazonais anuais – campo de estudo conhecido como fenologia – é uma base indispensável para monitorar os impactos das alterações ambientais.

Portanto, além de procurar conhecer as características das espécies L. euleri e C. fuscatus, investigamos a sazonalidade de seus eventos anuais na UC: quando chegam na área de estudo, em que momento se reproduzem, como e quando ocorrem suas trocas de penas, quando migram.

Antes de expor os resultados, é interessante apresentar brevemente o processo de coleta de dados, que durou pouco mais de três anos, totalizando 34 campanhas mensais e 125 capturas das espécies-alvo. As aves eram capturadas em redes de neblina – estruturas de malha muito fina, pouco perceptíveis, com “bolsas” em que os indivíduos se chocam e ficam retidos – instaladas nas matas de restinga da área de estudo. Cada ave recebia uma anilha metálica com código único, permitindo sua identificação posterior em caso de recaptura. Antes da soltura, coletávamos uma série de parâmetros biológicos e morfométricos dos indivíduos para avaliar seu estado reprodutivo, reserva energética, sexo e idade.

Junto de pesquisas na literatura e em plataformas de ciência cidadã, nossos resultados revelam que tanto L. euleri como C. fuscatus são migrantes totais no Rio Grande do Sul, com ausência de registros em parte dos meses de outono e no inverno. Seus intervalos de permanência no RVSBP são similares, porém o guaracavuçu exibe uma janela mais encurtada para a cronologia de seus eventos. Enquanto o enferrujado imigra para a área de estudo em setembro e apresenta um ciclo reprodutivo mais longo, que se estende até janeiro, o guaracavuçu chega em outubro e concentra sua reprodução nos meses de novembro e dezembro.

Essa sazonalidade não é coincidência, uma vez que o período de atividade reprodutiva corresponde ao aumento do fotoperíodo (dias mais longos), servindo de gatilho para que esse evento energeticamente custoso – que envolve proteção do ninho contra presas e cuidado dos filhotes – ocorra no momento de maior oferta de alimentos e temperaturas favoráveis. 

Síntese dos resultados comparando a sazonalidade das duas espécies (Imagem: Lívia Abib)

Com o declínio da atividade reprodutiva, se inicia outra fase de alto custo energético: a troca (ou muda) de penas. Ocorrendo nos meses mais quentes do ano, esse processo é essencial para renovar a plumagem desgastada e garantir uma boa eficiência de voo. Por fim, a permanência de ambas as espécies no refúgio se encerra em março, com emigração dos indivíduos para as suas áreas de invernagem – cujas rotas de voo e localizações ainda são desconhecidas.

Com base em registros de plataformas online e em movimentos conhecidos de outros migrantes austrais, acredita-se que as espécies estudadas se dispersem para a Amazônia e/ou norte da Mata Atlântica, em busca de condições mais favoráveis para o seu descanso reprodutivo durante o inverno do sul do Brasil. Contudo, somente com acesso a equipamentos de geolocalização é possível traçar suas rotas e destinos com precisão.

Outra importante descoberta veio dos dados de recaptura. Ao longo do período de amostragem, diversos indivíduos de ambas as espécies foram capturados novamente na área de estudo. Esse registro de fidelidade ao sítio reprodutivo já havia sido documentado para o enferrujado em outra localidade do Rio Grande do Sul, bem como para distintas espécies de sua família (Tyrannidae), porém é um registro inédito para o guaracavuçu.

A título de exemplo, registramos um enferrujado que foi capturado em quatro temporadas consecutivas, com um intervalo de mais de três anos entre a primeira e a última captura, e um guaracavuçu em três temporadas seguidas, com uma diferença de dois anos.

Além desse comportamento, no qual o indivíduo retorna anualmente ao mesmo local para se reproduzir, o monitoramento contínuo de um grupo de aves possibilita investigar o impacto das mudanças climáticas a partir de alterações nas dinâmicas cíclicas da comunidade. Por exemplo, eventos climáticos extremos, como as recorrentes enchentes que vêm afligindo o estado do Rio Grande do Sul, podem causar uma dessincronização entre a chegada das aves e a disponibilidade de recursos no sítio reprodutivo, o que influenciaria negativamente o sucesso reprodutivo e a sobrevivência dos indivíduos. O conhecimento detalhado da fenologia das espécies cria, portanto, uma base para futuras pesquisas que envolvam as variações climáticas – o que mostra, também, a importância da conservação delas e de seu habitat. 


Lívia Abib é graduada em Ciências Biológicas e atua como voluntária no Laboratório de Ornitologia da UFRGS.

O trabalho de conclusão de curso que deu origem a este artigo foi orientado pelo professor Ismael Franz.


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