O herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade

Publicado há quase um século, em 1928, “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, de Mário de Andrade, até hoje desafia quem se arrisca em suas páginas. Com um enredo simples mas uma escrita complexa, a obra busca refletir sobre a identidade brasileira, marcada pela miscigenação cultural.

Antônio Sanseverino, professor de Literatura Brasileira da UFRGS, elucida que já no início Mário de Andrade coloca algumas contradições que vão se seguir ao longo de todo o livro. Macunaíma era um herói, mas não tinha caráter; ele era indígena, porém era preto retinto; filho do medo da noite, Macunaíma era feio; ele não era um herói que se vê em outras histórias. Enquanto os heróis tradicionais, como os do Romantismo em obras como Iracema e O Guarani, são descritos como figuras acima dos homens comuns, Macunaíma não se encaixa nesse padrão.

“A questão dos heróis é que eles sintetizam valores, qualidades, potencialidades, que estão ligadas a um grupo social, um povo. No caso do Macunaíma, tem algo em negativo. Porque ele não tem caráter formado. Ele tem sempre um quê paródico, um quê cômico. Então ele não é um herói a sério.”

– Antônio Sanseverino

A mistura entre europeus, indígenas e africanos também é alegorizada na obra quando os três irmãos se banham na poça mágica de Sumé, formando a imagem dos irmãos lado a lado: um loiro, um vermelho e outro negro. Como destaca Sanseverino, tentar fundir matrizes culturais tão diversas é como acomodar coisas desconformes, o que deixa sempre alguma aresta quebrada, conflito que justifica as profundas contradições do Brasil e a própria impossibilidade de o país forjar um herói de caráter único que represente a todos.

“Provavelmente, marcando exatamente esse vazio, não tem uma figura que sintetize qualidades brasileiras, porque a diversidade é tão grande, a disparidade é tão grande que não consegue forjar um herói que nos represente a todos. É uma impossibilidade.”

– Antônio Sanseverino
A devoração de outras culturas

O movimento antropofágico, essencial para a compreensão dessa obra, nasceu da busca por uma identidade cultural brasileira própria e desvinculada da cultura europeia. Mais do que uma simples rejeição do que vinha de fora, a corrente literária baseava-se no conceito de “devoração ritual”, muito ligado ao escritor Oswald de Andrade. A proposta central era “devorar” a tradição do outro, especialmente a europeia, para incorporá-la, transformá-la e reconfigurá-la no Brasil, criando assim uma arte autenticamente brasileira.

Esse conceito central do Modernismo não surgiu do vazio, ele resgata e ressignifica uma prática originária. Ana Paula Freitas dos Santos, professora de literatura brasileira no Colégio Estadual Júlio de Castilhos e doutoranda da UFRGS, explica que a inspiração do movimento vem do ritual do povo Tupinambá, registrado ainda no período colonial pelos primeiros viajantes europeus. Ela alerta, porém, visões distorcidas sobre a prática. “A antropofagia não é canibalismo”, aponta. “É um ritual de guerra, de celebração da alteridade, onde o inimigo capturado, eleito pela sua bravura e coragem, é devorado para que se absorvam essas qualidades”. Na literatura e na arte da época, essa devoração física se tornou simbólica: a ideia de que o povo brasileiro consumiu as culturas europeia, indígena e africana para regurgitar uma identidade nacional nova, múltipla e própria.

A visão dos povos indígenas – ou a ausência dela

Para a história, Mário de Andrade se inspirou nas pesquisas etnográficas do viajante alemão Theodor Koch-Grünberg. A obra Do Roraima ao Orinoco, que continha lendas e mitos dos povos indígenas Taulipang e Arekuná, forneceu a base para a narrativa de Makunaíma, um herói e trapaceiro amazônico.

No entanto, ao adaptar a lenda para o romance, Mário de Andrade exerceu a liberdade artística defendida por sua geração, mas realizou uma apropriação cultural que ofuscou a autoria coletiva de povos originários, como os Macuxi, Pemón, Taurepang e Wapichana. Ana Paula ressalta que o protagonista modernista foi desvirtuado de suas raízes. Na tradição originária, as peripécias do personagem fazem parte de uma visão de mundo sagrada e integrada à natureza, formando uma figura muito diferente do anti-herói malicioso que acaba sendo engolido e corrompido pela cidade de São Paulo.

“O Macunaíma original é um brincalhão. Ele é um kurumim, é uma criança, então faz coisas de criança. A voz indígena não foi contemplada. E essa é uma crítica que os escritores indígenas fazem.”

– Ana Paula Freitas dos Santos

Ao transpor esse mito para a urbanidade, o autor subverte seu papel original e cria um protagonista guiado por desejos momentâneos. Como analisa Antônio Sanseverino, a clássica imagem de Macunaíma possuir um corpo de homem feito, mas manter a cabeça pequena, ganha um forte valor simbólico na narrativa. “Ele segue buscando a satisfação dos impulsos de modo imediato. Não tem a formação completa de um adulto com os limites que são postos pela moral”, explica o professor, justificando o vazio ético e a irresponsabilidade que marcam as atitudes do personagem.

Hoje, as tensões deixadas por esse apagamento histórico estimulam novos e urgentes debates nas artes. Ana dos Santos destaca o movimento contemporâneo da “reantropofagia”, liderado por intelectuais e artistas indígenas que buscam preencher as lacunas deixadas pelo Modernismo. Um marco fundamental dessa retomada foi a peça teatral “Makunaimã: O mito através do tempo”, concebida pelo artista macuxi Jaider Esbell em conjunto com parentes e lideranças do seu povo, promovendo uma releitura crítica do romance. Trata-se de uma resposta histórica que devolve a narrativa ao seu lugar de direito: “O Brasil contado pelos povos indígenas com a visão dos povos indígenas”, celebra a professora.

Hans Steiner (Graz, Áustria, 1910 – Gorizia, Itália, 1974). Idílio Karajá, 1959,
gravura em metal (ponta seca, buril, água tinta e verniz mole), 63 x 45 cm
Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Instituto de Artes da UFRGS

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