O que sustenta a hanseníase no século XXI?

Artigo | Mestre em Recursos Hídricos e Saneamento, Thomas Kappaun lembra que o Brasil é o segundo país com mais casos no mundo e explora indícios de que a dinâmica da doença esteja ligada ao déficit em saneamento básico

*Ilustração: Gabriel Ferreira/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Quando pensamos em hanseníase, a imagem que nos vem à mente é quase sempre a mesma: o estigma milenar e o isolamento forçado. Conhecida historicamente como lepra, a doença teve sua nomenclatura oficial alterada no Brasil em 1995 para homenagear o médico norueguês Gerhard Hansen, que identificou o bacilo causador em 1873, mas, sobretudo, para combater o peso pejorativo e a profunda rejeição social que o termo antigo sempre carregou. 

No Velho Testamento, o Livro de Levítico 13:46 ordenava que o doente fosse considerado imundo e habitasse “fora do acampamento”. No entanto, a história da medicina esconde contradições fascinantes. No Império Bizantino, os leprosários, conhecidos como Zotikos, ou leprosários de São Basílio, eram locais luxuosos que ofereciam moradia, alimentação e cuidados médicos gratuitos. Séculos depois, a doença deixou de ser um passaporte para o cuidado estatal e tornou-se um espelho da negligência estrutural e da miséria.

O medo do contágio gerou políticas de segregação drásticas. No século XIX, o governo havaiano criou um dos maiores leprosários do mundo na remota península de Kalaupapa, aprisionando os doentes em uma faixa de terra inóspita cercada por rochas vulcânicas cortantes e um penhasco quase vertical de dois mil pés de altura. Essa política representou o mais longo e letal caso de segregação médica da história americana. A taxa de mortalidade entre os pacientes nos primeiros cinco anos de exílio chegou a impressionantes 46%, ou cerca de 8.000 mortes.

Antiga colônia de Kalaupapa, no Havaí, onde milhares de pacientes foram submetidos ao isolamento compulsório a partir do século XIX (Crédito: KGPA Ltd / Alamy – Reprodução)

Esse cenário de exclusão também deixou marcas arquitetônicas e sociais em escala regional. No Estado do Rio Grande do Sul, o Hospital Colônia Itapuã foi inaugurado em 1940 no município de Viamão. Funcionando como uma cidade isolada em uma área de 1.253 hectares, com prefeitura, igrejas, cinema, guarda e até moeda própria, o leprosário separava compulsoriamente os pacientes de suas famílias e da sociedade. 

A política de Estado dividia o espaço entre a “zona limpa” para os funcionários saudáveis e a “zona suja” para os doentes, separados por um muro e um pórtico. Os filhos que nasciam na colônia eram arrancados das mães após o parto e enviados para o preventório Amparo Santa Cruz, a dezenas de quilômetros dali. E aqueles que tentavam fugir, ao serem capturados, acabavam cumprindo pena de 10 dias em celas de confinamento dentro da própria colônia. 

Pórtico de entrada do Hospital Colônia Itapuã, em Viamão (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Com o avanço da ciência e a viabilidade da cura, o isolamento compulsório caiu na década de 1960. A segregação, no entanto, deixou sequelas irreparáveis, e a instituição continuou operando por décadas. Nas eras seguintes, o hospital passou a abrigar também pacientes psiquiátricos do Hospital São Pedro, unindo em uma espécie de cidade fantasma duas populações historicamente marginalizadas pelo Estado. 

Apenas muito recentemente o governo estadual iniciou o processo de desinstitucionalização do local. Em 2024, os últimos moradores remanescentes, que passaram grande parte da vida confinados, deixaram as antigas estruturas e foram transferidos para residências terapêuticas.

Já em 2026, enquanto o destino da vasta área verde de Viamão é debatido por secretarias estaduais entre o risco de deterioração e a preservação do memorial histórico, o encerramento definitivo das atividades do último leprosário do país sela o fim de um modelo de exclusão que insistiu em sobreviver no século XXI. 

O fechamento dos portões de Itapuã, contudo, não decreta o fim da doença. O Brasil ocupa a posição de segundo país com o maior número de novos casos no mundo, atrás apenas da Índia. Se 95% da população mundial tem imunidade natural à doença, e o contágio humano exige anos de convivência íntima, como o nosso país ainda registra mais de 22.000 casos por ano? A resposta exige que olhemos para além da clínica tradicional. 

O bacilo Mycobacterium leprae, ao contrário de bactérias comuns que se multiplicam em minutos, divide-se de forma extraordinariamente lenta. Esse crescimento cadenciado permite que ele invada nosso sistema nervoso e se aproprie das células de Schwann, a camada protetora dos nervos, sem disparar os alarmes imediatos do sistema imunológico. Ao comprometer a estrutura das mitocôndrias, provocam a perda gradual de sensibilidade, danos aos nervos periféricos e lesões cutâneas. Através dessa deliberação silenciosa, o bacilo pode habitar o organismo por anos antes que os primeiros sinais clínicos se manifestem, impondo desafios únicos ao diagnóstico e ao tratamento médico. 

É justamente essa dinâmica enigmática que leva a ciência a considerar hipóteses mais amplas. Pesquisas recentes sugerem que o ciclo da doença pode não se restringir ao contato direto entre pessoas. A capacidade de o bacilo permanecer viável no meio externo levanta a suspeita de que águas e solos contaminados possam atuar como reservatórios ambientais silenciosos. Somado a isso, a suspeita de que a bactéria encontre abrigo em hospedeiros silvestres adicionou uma nova camada a esse intrincado ciclo natural. Ao cruzar esses indícios biológicos e ecológicos com a realidade de populações expostas a águas contaminadas e habitações precárias, abre-se um novo paradigma: a infraestrutura sanitária não seria, também, uma peça oculta na manutenção desse quebra-cabeça epidemiológico?

Enquanto estratégias internacionais concentram-se no combate clínico e no controle da transmissão interpessoal, a persistência de taxas elevadas em países em desenvolvimento levanta um debate necessário. A sobreposição entre os focos da doença e o mapa da falta de universalização do esgotamento sanitário sugerem que o enfrentamento à enfermidade talvez exija extrapolar os limites da prescrição médica. Seria a permanência da hanseníase no século XXI um reflexo indiscreto das nossas prioridades de desenvolvimento?


Thomas Brunetto Kappaun é Engenheiro Ambiental e Sanitarista e mestre em Recursos Hídricos e Saneamento pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).


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