Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos cépticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular.
– Trecho do livro Papéis Avulsos
Antes mesmo de o leitor adentrar o livro, recebe uma advertência do escritor da obra. Consciente de si e do que escreve, o autor olha nos olhos e aponta o dedo para seu leitor, como quem diz: “Eu sei o que você pensa”. O aviso-introdução, feito em 1882 por Machado de Assis, abre Papéis Avulsos e já de início desmancha a concepção de um possível leitor de que o título indicaria uma falta de unidade entre as histórias que o compõem. No trecho, Machado não só se intromete no livro – como fazem alguns de seus narradores –, como também demarca a ironia, o ceticismo e a provocação que percorrerão sua obra.
Em um compilado de doze “contos” (suspensos pelas aspas e pela dúvida do que seriam de fato), o escritor revela a experimentação que é característica de seus escritos. Sem receio de questionar as certezas e lógicas imóveis do mundo e da literatura, Machado escolhe como narrativa de abertura a história do Dr. Simão Bacamarte, em O Alienista. A partir do conflito de um médico que decide construir o manicômio Casa Verde para abrigar todos os que considerava loucos, ele faz o que Antonio Sanseverino, professor do PPG em Letras da UFRGS, chama de uma junção de temas. “Em O Alienista existe uma espécie de junção de vários temas dos quais ele trata no livro, como a questão da loucura e da ciência propriamente dita.” A crítica à ciência, porém, não é uma dúvida lançada a estudiosos como Darwin ou Spencer, mas a uma visão cega de mundo.
“Ele faz uma crítica ao cientificismo. Machado vem desde o final dos anos 1870 criticando o cientificismo como uma nova religião que quer explicar tudo pela racionalidade. E ele tem uma posição cética em relação a tudo isso. Tanto que, ao final de O Alienista, fica a dúvida se quem era louco mesmo não era o doutor, o Simão, que não consegue fazer a crítica da posição em que estava.”
Antonio Sanseverino
Laboratório da forma
A crítica ao cientificismo não se limita às manifestações das coisas no mundo, mas se estende também a uma provocação sobre a própria rigorosidade e espécie de cientificismo na literatura. Ao longo da obra, o escritor tensiona o realismo de sua geração e provoca o alargamento dos formatos de escrita. Apesar de haver um ar familiar, Machado se liberta da forma a cada nova narrativa. Antonio comenta que “são doze contos e doze exercícios formais, um diferente do outro. Ele se apropria de outros gêneros discursivos, como o diálogo, as crônicas de viagem, a carta, para dali fazer ficção”.
De acordo com o professor, a unidade possível de se estabelecer é a da não unidade formal, a da variedade das formas. Em O Alienista, o narrador é um historiador; em Segredo do Bonzo, um cronista viajante; na Arca, um narrador bíblico. Mesmo em contos como Anel de Polícrates e Teoria do Medalhão, em que o formato é o do diálogo, trata-se de dois usos distintos. É como se a cada narrativa Machado experimentasse algo novo e que não havia explorado até então.
“Um bom exemplo da experimentação formal muito aguda trazida por Machado é o conto Dona Benedita. Ele usa um recurso chamado de microrrealismo para descrever o caráter da protagonista. Faz sua constituição psicológica a partir de uma pequena ação dela, que é reveladora.”
Antonio Sanseverino
O professor destaca a cena em que Dona Benedita, uma mulher viúva e solitária, está sentada pensando em escrever uma carta. Logo, porém, ela se distrai com um ruído de uma barata vindo de debaixo de um chinelo. A personagem entra em uma espécie de transe a partir do som incessante produzido pela barata.
Apesar de tudo indicar um aparente realismo, o escritor faz, como em outros contos, uma virada de chave no final completamente antirrealista, provocando o costumeiro “Será?” produzido na escrita do autor, uma dúvida sobre o que foi lido – seria Dona Benedita uma experiência fantástica, um delírio? –, mas também em relação à própria classificação de que o livro seria um marco do realismo na obra de Machado.
Ironia ácida
Outro elemento importante trazido em Papéis Avulsos é o da ironia para tratar de temas próprios da condição humana. As críticas a uma sociedade maculada existem, apesar de não serem tão contundentes quanto em outras obras que viriam depois. Elas tomam forma a partir de uma sátira quase sempre da ordem do absurdo, como no conto O Espelho, quando o personagem Jacobina passa a não mais enxergar a própria imagem, o próprio reflexo, após o desaparecimento dos escravos. A imagem só se forma no espelho quando o protagonista veste a farda militar que lhe confere poder. Ali, assim como na Teoria do Medalhão, Machado de Assis questiona e ironiza simultaneamente a identidade frágil que assola os indivíduos, tensiona o viver pelas aparências ou por meio da voz dos outros.
É assim, mimetizando comportamentos humanos, que o escritor traz aspectos da sociedade e do Rio de Janeiro da época, sempre suspensos pelo humor e pelo absurdo que são, sobretudo, irônicos. “A ironia não é só o movimento de dizer uma coisa para significar outra. O que Machado faz é um movimento que é do ceticismo, que é a suspensão das crenças a partir da ironia. Por exemplo, a crença na ciência como um saber último do mundo. Machado vai dar um sorriso de canto de boca e vai dizer: ‘Não é bem assim’. Olha só, o Bacamarte acabou enlouquecendo ele mesmo. Ele não consegue compreender sua própria natureza. Quem dirá a natureza dos outros”, conclui Antonio.
Paulo Corrêa é secretário-geral da Associação dos Escultores do RS (Aeergs/ 2018-2022). Foi contemplado na bolsa Décio Freitas do Fumproarte/Secretaria Municipal de Cultura desenvolvendo pesquisa sobre a presença da arte negra nas 17 regiões do Orçamento Participativo de Porto Alegre (2014). Participou da equipe do Museu de Percurso do Negro, em Porto Alegre (2013-2016). Foi premiado no 1.º Salão de Arte Afro do RS (2005) e fundou o grupo de artistas Quilombos Urbanos, em Pelotas (1995).





