Cultura | Além de apresentar características comuns aos sambas-enredos do sudeste, em especial do Rio de Janeiro, o subgênero produzido no RS carrega uma herança histórica e secular de lutas e resistência
*Foto: Instalação feita por Julia Hauser para a exposição “Lupi: pode entrar que a casa é tua”, que esteve em cartaz até o final de julho no Farol Santander, em Porto Alegre;
o trabalho é inspirado em uma fotografia com data de 1945, e mostra uma noitada na Ilhota, na capital (Foto: Flávio Dutra/JU)
Quando se pensa em samba, em especial no gênero de samba-enredo, nos desfiles das escolas, nas fantasias, nos carros alegóricos e nas suas complexidades e em toda aquela gente desfilando no sambódromo, a cidade do Rio de Janeiro quase sempre vem como a primeira lembrança. Às vezes a única. Mesmo o restante do estado do Rio tem seus outros carnavais, de outras cidades, ofuscados pelo da metrópole; acabam não recebendo a mesma atenção e não sendo conhecidos por habitantes de regiões mais distantes. Menos conhecido ainda para o público geral quem sabe seja o carnaval no Rio Grande do Sul.
A musicalidade do samba-enredo no Rio Grande do Sul
Alexsandra Amaral é mestra de bateria e vive em Porto Alegre. Quando questionada acerca da construção da musicalidade junto à escola de samba, sua resposta lembra que a herança diaspórica está presente em peso também no sul do Brasil, em especial no estado do Rio Grande do Sul: “Geralmente eu trabalho com ritmos afro-gaúchos, afro-brasileiros”.
Essa herança na musicalidade pode ser percebida, por exemplo, no sopapo, instrumento de percussão gaúcho considerado patrimônio imaterial do estado. A percussionista ainda comenta que, por um tempo, o sopapo como floreio do samba-enredo havia perdido espaço em algumas escolas na capital gaúcha – provavelmente fruto da “carioquização” do Carnaval brasileiro –, mas que agora está retomando sua presença com muita força: “Nas minhas baterias, eu sempre quis ter o sopapo; é peça fundamental dentro da nossa cultura gaúcha, é o que prevalece e nos diferencia das baterias do Rio de Janeiro”.
Alexsandra acrescenta que o investimento nos desfiles e no Carnaval é outro diferencial entre a capital dos cariocas e a dos gaúchos, que o Carnaval em Porto Alegre atua como resistência e, apesar de não possuir um investimento tão significativo como o do Rio de Janeiro, “o nível de bateria dos profissionais que estão aqui é de muita competência”, e muitos desses acabam inclusive circulando pelos desfiles de São Paulo e da Cidade Maravilhosa.
Professora do departamento de Música da UFRGS, Luciana Prass amplia a ideia de diferenças na musicalidade para além da região ao comentar que “cada escola de samba tem as suas diferenças”. O mestre compõe a identidade do samba-enredo com os arranjos criados a partir de suas concepções, por exemplo. No fim, isso acaba por abraçar fatores regionais, que influenciam as produções, sejam elas coletivas ou individuais.
“Sempre falo para os alunos que essa ideia de sotaque, como pensamos na língua, também se expressa nas músicas. São características humanas, do encontro das pessoas daqui, o clima”
Luciana Prass
Quando o Rio Grande do Sul encontra o Rio de Janeiro
Quanto às composições de samba-enredo, a circulação entre regiões é o que impera.
“Com essa experiência que a gente tem, tu começa a ver que não tem diferença (entre regiões). O samba é universal. Fazer o samba é fácil, o problema é fazer o samba ganhar (na disputa interna da escola). O pessoal que é da escola (do Rio de Janeiro) tem muito mais vantagem do que eu, que tô em Porto Alegre”, destaca o compositor de samba-enredo Rafael Tubino.
Natural da capital sul-rio-grandense, Rafael tem hoje uma equipe em São Paulo e comenta que a presença dessas pessoas nesse outro cenário contribui para as recentes vitórias do compositor fora do Rio Grande do Sul. Quanto à feitura do samba-enredo, o compositor enfatiza que não existe uma variação na competência entre as regiões: “Hoje, ainda mais com o Whatsapp, o cara que tá em Florianópolis faz o samba que nem o cara que tá em Porto Alegre, que faz o mesmo samba do cara que tá no Rio de Janeiro, que faz o samba que nem o cara que tá em São Paulo”.
Vinicius Brito, jornalista e compositor, afirma algo semelhante a respeito das diferenças entre sambas-enredos compostos na capital gaúcha e os de outras regiões: “Hoje em dia, há muita integração entre os autores do Carnaval de Porto Alegre com os autores do Carnaval do Rio. Eu hoje não enxergo uma grande diferença conceitual ou técnica entre a composição do samba-enredo do Rio de Janeiro e a composição do samba-enredo de Porto Alegre”. Vinícius ainda comenta que nos anos 1990 as diferenças entre os carnavais eram bem mais marcadas, e cita como exemplo a utilização de uma bateria mais pesada e acelerada nos carnavais da capital gaúcha.






Memória e resistência
No Anuário de Segurança Pública divulgado em 2022, o Rio Grande do Sul foi o Estado com o maior número de casos de racismo e o sexto em casos de injúria racial. Já o Anuário disponibilizado neste ano não conta com tais informações, visto que o Estado não respondeu ao pedido de disponibilização de dados de racismo.
Essas informações revelam uma região ainda incapaz de lidar com toda a sua rica diversidade; incapacidade que também pode ser percebida na forma como muitos dos habitantes enxergam o Carnaval, como um ato de “vadiagem” e bagunça, sem compreender a real tradição da festividade, toda a mobilização de uma comunidade e muitas vezes de boa parte da cidade.
O desfile das escolas, embalado pelo samba-enredo, é fruto claro da diáspora africana e resultado de séculos de luta e resistência. Seja na musicalidade, nos passos de dança, na forma como os temas são abordados, a tradição secular é perceptível. Professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Denise Barata fala sobre a herança da diáspora para além dos temas abordados nos enredos:
“A partir do momento em que um grupo de pessoas, negras, entra em uma avenida para desfilar, a gente já tá difundindo a memória da diáspora. A gente não precisa gritar ‘viva Zumbi dos Palmares’. Ao entrar na avenida, tocando aqueles instrumentos, com aqueles corpos que dançam e não são fixos, com aquelas vozes que são diferentes do Bel Canto europeu, a gente já tá falando ‘Viva Zumbi’”
Denise Barata
Educação pelo samba
Os sambas-enredos escolhidos pelas escolas muitas vezes acompanham os ouvintes e espectadores para além da apresentação. A linguagem pensada para que todos cantem com facilidade e repetidas vezes, que se acostumem com a canção e fiquem com ela na cabeça, acaba também por acessibilizar certos assuntos abordados nos enredos para a população em geral, que pode nunca antes ter tido contato com certos temas e/ou figuras históricas.
“O samba é um instrumento potente de educação. De tanto repetir aquilo, de tanto ouvir aquilo, as pessoas absorvem alguma coisa. Passam a entender determinados fenômenos sociais, naturais, e a conhecer a própria história”, afirma Vivian Pereira, integrante do grupo de pesquisa independente Quilombo do Samba. O projeto de pesquisa, que também grava podcasts e vídeos, gira em torno da reconstrução de memórias, dando o protagonismo negro a personalidades que são invisibilizadas, esquecidas ou mesmo conhecidas no mundo do samba e na cultura popular. Também integrante do projeto, Guilherme Santos fala sobre sua experiência de aprendizagem com os desfiles de Carnaval desde cedo: “Minha referência de pesquisa sobre o Profeta Gentileza foi o samba-enredo”.
Em suma, o samba-enredo que se vive em Porto Alegre e no extremo sul do país carrega consigo características comuns aos sambas-enredos do sudeste, em especial os do Rio de Janeiro. Também carrega consigo fatores regionais que se mesclam em harmonia no desfile da escola. Carrega, sobretudo, uma herança histórica e secular de lutas e adaptação. Enquanto o Carnaval na cidade do Rio de Janeiro tem todos os olhares para si, com investimento e apoio do Estado, na capital do RS o samba-enredo opera também como canto de resistência à marginalização oriunda de diversas autoridades e parte da sociedade civil, mas não somente. O samba-enredo também educa, constrói famílias e enche de afeto e paixão os que decidem competir junto a uma escola no Carnaval.





