O Teatro sob uma mirada feminista

Artigo | Doutoranda no PPG em Artes Cênicas, Iassanã Martins defende o reconhecimento do legado das mulheres nas produções teatrais

*Por: Iassanã Martins
*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Pensar sobre as condições das mulheres na sociedade é adentrar em um vasto mundo de pluralidades, opressões e conquistas que se articulam em conceitos que nos ajudam a compreender uma trajetória percorrida por diversas mulheres. Assim fazemos história: produzindo nossas próprias narrativas.

Como uma produção histórica, o gênero pode ser compreendido como algo mutável e não limitado. Sob essa perspectiva, o gênero passa a ser entendido pelas pesquisadoras feministas como uma categoria de análise, implicando uma nova construção histórica.

No campo das epistemologias feministas, especialmente a partir dos anos 1960, pesquisadoras investiram em novas formulações teóricas para compreender as desigualdades de gênero – à medida que os estudos dominantes não problematizavam a especificidade das desigualdades a que estavam submetidas as mulheres. A historiadora Margareth Rago destaca as mudanças no campo da produção do conhecimento a partir de um aporte feminista, no qual há um projeto de ciência que vem se desenvolvendo, rompendo o modo social predefinido de pensar a mulher como “sexo frágil”. E é justamente na luta por visibilidade e ampliação dos direitos da mulher que se constitui um campo feminista do conhecimento ampliado em diversas áreas da ciência, dentre as quais as Artes Cênicas.

Cenas do espetáculo Santo Qorpo ou O louco da província, que estreou em junho de 2014, em Porto Alegre. A direção foi de Inês Marocco (Fotos: Flávio Dutra/ Arquivo JU – 14 mar. 2016)

O Teatro é uma área de estudo pouco conhecida em nossa sociedade, mas provavelmente você já ouviu falar em Dionísio, Aristóteles, Sófocles, Shakespeare, Brecht, Nelson Rodrigues, ou até mesmo pode ter lido seus escritos.

O que posso dizer é que a história do teatro também se apresenta como um legado masculino.

A lista é enorme: deuses, dramaturgos, encenadores, iluminadores, cenógrafos, atores, homens de teatro. É importante reconhecermos a fundamental contribuição de seus trabalhos. É preciso, porém, problematizar a nossa crença duradoura em uma única história, sem questionar o legado das mulheres de teatro, aceitando-as no papel de meras coadjuvantes ou divas.

Nós, artistas e pesquisadoras de Teatro, sabemos que muitas mulheres estiveram à frente, desenvolvendo um trabalho sério em nosso campo. A questão é que não as conhecemos pela falta de registro e divulgação de suas contribuições.

Dentre as diversas possibilidades de pesquisa em Teatro, há um grupo de artistas pesquisadoras que desenvolve criações cênicas nas quais as questões das mulheres são temas centrais. Há também quem pesquise histórias de artistas que assumiram e assumem diversas funções ao longo da história com o intuito de registrar e narrar a contribuição das mulheres na história do teatro, assim como construir uma epistemologia de Teatro feminista, ampliando e diversificando a história.

A atriz, historiadora e pesquisadora Juliana Wolkmer estuda o Teatro Gaúcho e nos conta sobre Maria Benedita de Queiroz Montenegro, a primeira atriz de Porto Alegre, uma das primeiras atrizes brasileiras de que se tem registro, uma mulher que atuava em uma época em que as mulheres eram proibidas de estar nos palcos. Além de Maria Benedita há tantas outras que não conhecemos, e em diversas áreas, por isso a importância de registrarmos nossas histórias como mulheres inseridas em múltiplos espaços, sejam públicos ou privados. 

Ao contarmos nossas histórias, não dependemos dos homens para sermos representadas e adquirimos nossa autonomia. Vivemos em um país que incide sobre os corpos das mulheres e que não valoriza a educação e a pesquisa. Como área das Ciências Humanas, o Teatro se coloca em diálogo com as questões da sociedade – e as demandas das mulheres também são prerrogativas fundamentais e urgentes nesse espaço de pesquisa.

O espetáculo O sobrado, do Grupo Cerco, discutia questões relacionadas a patriarcalismo e belicismo na cultura gaúcha a partir da presença forte das mulheres na obra de Erico Veríssimo. A direção foi de Inês Marocco (Fotos: Flávio Dutra/ Arquivo JU – 18 jul. 2013)

Iassanã Martins é atriz, doutoranda no PPG em Artes Cênicas e professora colaboradora do curso de Licenciatura em Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC).