Perfil: Júlia Pianta

Foto: Flávio Dutra/JU

Na primeira vez em que subiu ao palco, Júlia Pianta estava na barriga da mãe, que se apresentou grávida em um show como baterista. Em sua casa, aliás, tudo respira música: além da mãe, o pai é guitarrista e baixista, assim como a irmã, que entrou na primeira turma de música popular da UFRGS, em 2012. Ainda criança, quando nem alcançava o pedal do bumbo, Júlia já se apresentava em shows da escola de música dos pais. “Não sei como exatamente me colocavam pra fazer show, mas isso aconteceu”, conta. Apesar de sempre ter tocado bateria, foi nos últimos anos que abraçou a música como profissão.

Nesse processo, suas referências mudaram. Hoje, a baterista reconhece a escolha do que escuta como um ato político, e seu repertório é muito pautado pela música latino-americana e, de preferência, produzida por mulheres — Elza Soares, Perotá Chingó e Letrux são algumas das influências. Não é o gênero musical, mas o da musicista, que importa. Além de tocar com outras bandas, Júlia é integrante da Enxame, formada exclusivamente por mulheres, e dá aulas de bateria na As Batucas, orquestra feminina de bateria e percussão.

Playlist de Júlia Pianta apenas com artistas mulheres

Júlia considera que fazer música é um ato indissociavelmente político. Apesar de, para ela, sempre ter parecido um caminho natural, a estudante conta que não é fácil ser mulher na música.

“É muita cobrança. Não diretamente das pessoas, mas uma coisa meio institucional, da sociedade mesmo, de tu sempre ter que fazer muito melhor. Eu queria que ‘ser mulher’ não fosse um fator determinante”

Júlia Pianta

Apesar de as mulheres estarem conquistando mais visibilidade, subir ao palco, seja como a única mulher em uma banda, seja com um grupo exclusivamente feminino, impacta o público que, em geral, ainda não está acostumado a ver mulheres ocupando esses espaços. Júlia luta para que o gênero não seja determinante para a música que faz. O palco, para ela, é um lugar de troca e fortalecimento com mulheres e de referência e incentivo a outras. “Há um peso nas costas um pouco maior. A gente subir com a Enxame no palco é uma pressão, porque tu te sente carregando todas as mulheres que não estão ali.”

Foto: Flávio Dutra/JU

Segundo a artista, um dos motivos de não haver muitas mulheres empunhando baquetas é que a bateria carrega o estereótipo da força física, característica que ainda é associada à masculinidade. Para Júlia, no entanto, a bateria representa outro tipo de força — além de arte e cultura, é resistência. É uma forma de dar o exemplo e ensinar outras mulheres, bem como uma oportunidade de construir uma rede de apoio. Muito mais que um amor e uma profissão, música representa sororidade e empoderamento.

Júlia Pianta é a primeira baterista mulher a passar pelo curso de música popular da UFRGS — e, até o momento, também a única.
Ela lamenta o título: “Não é um fardo muito legal de carregar. Queria que tivessem várias antes e queria que estivessem comigo enquanto eu tô ali (no curso), porque é provável que eu saia e não tenha convivido com nenhuma mulher baterista dentro da faculdade”.

Foto: Flávio Dutra/JU

Apesar da falta de contato com outras mulheres que toquem o mesmo instrumento, ela espera que a sua formação inspire outras a fazerem o curso e cultivarem também o espírito de resistência. E esse é um movimento que ela já percebe entre as colegas, que estão se arriscando mais com outros instrumentos ou mostrando seus talentos sem tanta autocobrança. Para ela, ao contrário dos homens, as mulheres costumam carregar a crença de que não são boas o suficiente — pensamento que é preciso desconstruir. “A gente carrega um pouco isso de ter que fazer sempre bem.”

Embora a vida inteira de Júlia ter sido uma formação musical, a graduação foi uma abertura de portas. Sair do núcleo familiar permitiu que ela tivesse outras perspectivas. A UFRGS não representa só uma oportunidade de ter um diploma acadêmico, mas um lugar para conhecer pessoas e escutar coisas novas. Na faculdade, estudou e tocou músicas e estilos com os quais dificilmente teria contato fora dali. Afinal, segundo ela, os artistas também se formam pelo convívio com pessoas e influências diferentes. Como o curso é novo e está em constante construção, também apresenta suas limitações. Nenhum dos professores toca bateria, por exemplo, o que prejudica alunos com instrumentos específicos. Entretanto, é um espaço para a união de pessoas, estilos e instrumentos diferentes. É uma forma de sair da zona de conforto e aprender muito. “É uma mistureba muito boa”, diverte-se.


Júlia Provenzi

Estudante de Jornalismo da UFRGS