*Foto de capa: Flávio Dutra/JU
Tecnologia | Agricultores que antes não eram usuários frequentes de redes sociais e aplicativos recorrem a plataformas digitais para compensar a queda de vendas nas feiras
Engarrafamento de carrinhos, colisões de ecobags, aglomeração de famílias e muitas pausas para abraços e beijos (ou para fazer carinho nos cães). Antes da pandemia, quem chegava às feiras de alimentos orgânicos realizadas aos sábados na Redenção depois das 10h tinha a certeza de que iria enxergar mais gente do que espaço sobrando entre as bancas. Movimento que garantia o sustento das famílias dos produtores.
Uma única vez cheguei às 7h, depois de ir buscar um amigo que chegou de Florianópolis na rodoviária às 6h30min. Fomos às feiras para tomar café. Era inverno e ainda estava escuro, por isso algumas senhoras escolhiam suas alfaces com auxílio de lanternas. Lembro de ter conversado com alguns produtores que conhecia sobre o quanto era estranho ver aqueles corredores com meia dúzia de pessoas, porque eu gostava mesmo era de chegar tarde e encontrar o galerão, pechar e papear com amigos. Mas não tão tarde como ao meio-dia, porque daí alguns alimentos já teriam esgotado.
Acabavam mesmo. Presente na Feira Ecológica do Bom Fim (localizada entre as ruas Vieira de Castro e Santa Terezinha) há mais de 10 anos, o produtor Jeremias da Silva Oliveira conta que costumava comercializar a maior parte da produção no local. Em março, devido à chegada do coronavírus ao país e às edições de decretos estaduais e municipais que restringiram a circulação de pessoas, as vendas na feira caíram significativamente por causa do menor movimento – e seguem abaixo do normal. Com isso, Jeremias teve de reduzir o plantio na propriedade de cerca de 20 hectares que mantém em Itati, no Litoral Norte. “Se não estou vendendo tanto, tenho que plantar menos para evitar o prejuízo”, comenta.
Agricultor agroecológico desde que se conhece por gente, já que a transição do modelo tradicional de cultivo para o orgânico foi feita pelo pai, ele conta que a crise foi amenizada pelas vendas conquistadas com o uso da tecnologia. Assim como outros produtores, ele passou a oferecer os alimentos aos clientes por WhatsApp, montando cestas para entregar em casa. “Fomos atrás dos clientes de que tínhamos o contato e de outros que chegaram até nós porque colocamos o telefone nos produtos embalados, como o tomate cereja e a vagem”, relata.
O produtor conta que a esposa é a responsável por oferecer os produtos e receber os pedidos, que podem ser feitos até quinta-feira. Na sexta-feira, eles montam as cestas, para entregar no sábado.
Ganhamos clientes que não iam à feira porque um vizinho ou um amigo passou nosso WhatsApp. Tem um prédio no qual estamos entregando três cestas por semana. Acho que essa herança digital ficará para depois da pandemia.
Jeremias da Silva Oliveira
Jeremias da Silva Oliveira (na imagem, exibindo suas bananas orgânicas) e sua família encontraram alternativas às restrições que a pandemia impôs a feira ecológica fazendo entregas de cestas de produtos que são reservadas por aplicativo de mensagens (Fotos: Flávio Dutra/JU)
O aplicativo de mensagens também foi uma das tecnologias usadas pelo agricultor Romildo Schardosim para encontrar os clientes que deixaram de ir à Feira Ecológica do Bom Fim, onde vendia toda a produção há 19 anos. Quando um decreto municipal proibiu os agricultores de fora de Porto Alegre de participarem das feiras, em 22 de março, o filho dele, Vitor Schardosim, enviou mensagens para clientes informando que eles venderiam o que tinham colhido naquela semana em um galpão no centro da Capital. “Ele também procurou as pessoas pelo Facebook, porque não tínhamos muitos contatos no WhatsApp”, lembra Romildo, que mora em Dom Pedro de Alcântara, no Litoral Norte. Formado em um curso técnico de agropecuária, Vitor também administra a página no Instagram da propriedade familiar.
Uma das nossas dificuldades é que o sinal de internet aqui na zona rural é bem ruim, só existe via rádio e não é sempre que funciona. É difícil fazer conferência, porque cai muito. Se tivéssemos via cabo, melhoraria muito.
Romildo Schardosim
Mesmo quando foi permitido voltar à feira, a pandemia fez o movimento cair 40%, conforme Romildo, o que tornou as redes sociais essenciais para o contato com os clientes. “Quem consome orgânico dá valor ao produto, tem confiança no que está consumindo. Por isso, acredito que o delivery deve seguir em alta. Essas entregas chegaram a crescer 150%”, comenta o produtor sobre o período de isolamento social.
Jeremias concorda que a presença digital deve ser cada vez maior entre os agricultores agroecológicos. “Sempre tive vontade de aderir mais às tecnologias, mas a rotina na roça acaba tomando muito tempo, então antes da pandemia eu divulgava os produtos pelo meu Facebook particular. Agora, minha sobrinha Júlia, de 11 anos, faz o nosso Instagram. Ela criou até uma lista de datas comemorativas para me pedir fotos temáticas”, conta.
O produtor também comenta que gosta de ver vídeos no Youtube sobre agroecologia e pretende digitalizar o sistema de irrigação em breve para que possa ser ligado automaticamente. “Também quero programar a plantação de uma forma digital, pois ainda anoto no papel”, completa.
A alternativa de usar redes sociais fez com que as entregas tipo “delivery” aumentassem em cerca de 150%, conta Romildo Schardosin, que há 20 anos vem desde o Litoral Norte para a feira da José Bonifácio (Fotos: Flávio Dutra/JU)
Pesquisa acompanhará rastreabilidade em propriedades familiares
Coordenador do grupo de pesquisa sobre Digitalização no Campo ligado ao Núcleo da Gestão da Inovação e da Tecnologia do Programa de Pós-graduação em Administração da UFRGS, o professor Antonio Domingos Padula avalia que a covid-19 provocou uma maior atenção às plataformas digitais para conexão com clientes por meio dos agricultores familiares. Antes, conforme o docente, as atenções desses agricultores estavam mais voltadas ao uso da tecnologia para a administração financeira das propriedades. “Agora a parte comercial ganhou um novo fôlego, com sistemas de e-commerce sendo uma saída importante para colocar os produtos no mercado”, explica.
O pesquisador está desenvolvendo atualmente um estudo que acompanhará o processo de rastreabilidade de propriedades familiares, que está em fase inicial. O estudo avaliará as facilidades, as dificuldades e as mudanças que o processo provocará na produção de mais de 100 famílias de hortifrutigranjeiros. “O consumidor está querendo cada vez mais saber a origem do produto. De onde vem, como foi produzido, quais e quantos insumos foram usados na produção, etc. E é essa a mudança que a rastreabilidade dará”, afirma.





