Pesquisa desenvolve filme biodegradável para conservação de carne moída

Agrárias | Projetado à base de fécula de mandioca e carvacrol nanoencapsulado, o modelo é capaz de prolongar a durabilidade do alimento e reduzir o impacto ambiental das embalagens convencionais

*Foto: Aline Krummel Pazzini Goulart/Arquivo pessoal

A preocupação ambiental e o desejo de aproximar a pesquisa científica do cotidiano motivaram a pesquisadora Aline Krümmel Pazzini Goulart, do Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos da UFRGS, a desenvolver uma alternativa sustentável às embalagens plásticas tradicionais. No doutorado, Aline apostou na combinação entre a fécula de mandioca e o carvacrol, um composto natural presente no óleo essencial de orégano, para criar filmes biodegradáveis capazes de conservar carne moída e prevenir a proliferação de microrganismos.

“A gente queria algo que fosse real, possível de chegar à indústria e às pessoas. Não apenas uma pesquisa bonita no papel”

Aline Krümmel Pazzini Goulart

A escolha da fécula de mandioca não foi por acaso. Além de ser uma matéria-prima abundante no Brasil, de baixo custo e renovável, sua estrutura permite boa maleabilidade e elasticidade: características essenciais para um material que se comporta como o plástico filme utilizado em supermercados.

O uso do carvacrol nanoencapsulado em mucilagem de chia A mucilagem de chia é uma substância gelatinosa que se forma quando as sementes de chia entram em contato com a água foi o grande diferencial do projeto. A técnica cria uma espécie de “proteção microscópica” para o composto ativo, retardando sua degradação e prolongando seus efeitos antimicrobianos e antioxidantes. Assim, os filmes conseguem liberar o composto de forma controlada e contínua, preservando o alimento por mais tempo.

“A nanoencapsulação faz com que o carvacrol mantenha suas características por mais tempo. Ele fica protegido da temperatura e de outros fatores, sendo liberado aos poucos”, detalha a pesquisadora.

Desafios e descobertas no laboratório

Os testes, realizados no Laboratório de Microbiologia da UFRGS, exigiram inúmeras tentativas até se chegar à formulação ideal: um filme resistente, elástico e biodegradável. Parte das análises foi inédita para o grupo, exigindo parcerias com outros laboratórios e adaptações metodológicas.

Aline recorda que a equipe precisou equilibrar custo, eficiência e aplicabilidade, buscando uma solução viável para o mercado. Entre as maiores dificuldades, estava atingir a combinação certa entre resistência e maleabilidade, já que o filme deveria embalar carne moída.

“Foram muitos testes até chegar às características que a gente desejava. Mas ver o resultado compensou cada tentativa”

Aline Krümmel Pazzini Goulart
Foto: Aline Krummel Pazzini Goulart/Arquivo pessoal
Filmes que combatem bactérias e reduzem o desperdício

Os resultados surpreenderam positivamente. Os filmes com carvacrol nanoencapsulado apresentaram desempenho superior em relação às versões com o composto livre: maior estabilidade térmica, melhor barreira contra luz e umidade, além de forte ação antimicrobiana contra Salmonella enterica e Listeria monocytogenes, dois dos principais agentes causadores de surtos alimentares.

Além disso, os filmes mostraram biodegradabilidade de 85% em apenas 20 dias, reduzindo significativamente o impacto ambiental em comparação às embalagens convencionais. “Conseguir um material que reduza essas populações de microrganismos é um grande avanço. É inovação com impacto real”, afirma Aline.

A aplicação prática dos filmes na conservação de carne moída comprovou sua eficiência: houve redução na oxidação lipídica A oxidação lipídica é o processo químico de deterioração dos lipídios (gorduras) pela reação com o oxigênio, especialmente sob exposição ao ar, luz e calor. e na contagem de microrganismos, prolongando a vida útil do alimento sem alterar significativamente suas características.

Aparência dos filmes no primeiro dia e após 20 dias de biodegradação. AMF: filmes de amido de mandioca com glicerol; CMF: filme comercial; CL: filmes com 8% de carvacrol livre; CMNC: filmes com 8% de nanocápsulas de mucilagem de chia carregadas com carvacrol (Imagem: Aline Krummel Pazzini Goulart/Arquivo pessoal)
Perspectivas e próximos passos

Após a defesa da tese em maio de 2025 e a publicação do artigo científico em setembro do mesmo ano, a pesquisa agora avança para o próximo desafio: aproximar a tecnologia do setor industrial. Aline e a orientadora, a professora Patrícia da Silva Malheiros, pretendem estabelecer parcerias para viabilizar testes em escala maior e avaliar a aplicabilidade do material em outros tipos de alimentos.

Embora o filme tenha sido testado apenas com carne moída, os resultados indicam potencial de adaptação a outros produtos perecíveis, desde que ajustados conforme a umidade e as propriedades específicas de cada alimento.

Do laboratório à mesa, a pesquisa de Aline representa o encontro entre ciência e natureza, um gesto de cuidado com o planeta que também protege a comida que chega às nossas casas.


Tese: Filmes Ativos Biodegradáveis de Fécula de Mandioca com Carvacrol Livre ou Nanoencapsulado para Conservação de Carne Moída
Autora:
Aline Krümmel Pazzini Goulart
Orientadora: Patricia da Silva Malheiros
Programa/Unidade: Programa de Pós-graduação em Ciência de Alimentos/Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos