Conhecimento | Programas de áudio fomentam reflexões sobre diversidade e o lugar da pesquisa científica a uma audiência que segue crescendo
*Foto de capa: Flávio Dutra/ Arquivo JU – outubro/2007
“Desde que o podcast tenha relação com o dia a dia do ouvinte e faça sentido para ele, vejo um potencial muito grande nesse tipo de mídia. Um podcast que não dialogue interiormente com o ouvinte ou no qual este não veja sentido não o ajudará a compreender determinado assunto e menos ainda a formar a sua opinião. Tudo depende de se colocar em movimento o aparato que todo ser humano tem que são os nossos sentidos internos. Eles fazem cada um de nós únicos na maneira de ver e reagir ao mundo”, comenta o professor da Faculdade de Educação da UFRGS (FACED) e doutor em Informática na Educação Marcelo Foohs. No entanto, ele ressalta que o potencial aprendizado com um podcast de temática científica só pode ser alcançado se ele estiver aliado à vontade e à motivação de quem está ouvindo.
A plataforma Deezer aponta que 43% de brasileiros ouviram podcast pela primeira vez no período de isolamento social, mostrando que o mercado segue em expansão no país. Antes disso, uma pesquisa realizada no ano passado pela Associação Brasileira de Podcasters apontou um crescimento de 9,1% no interesse em podcasts de ciência entre 2018 e 2019, sendo a segunda categoria que mais cresceu no período. Ela também mostra que o público ouvinte desse tipo de podcast ainda é predominantemente masculino e tem ensino superior completo ou em andamento. “Não é uma coisa de que a gente se orgulhe”, comenta a professora do Instituto de Física da UFRGS e uma das responsáveis do podcast Fronteiras da Ciência, Carolina Brito. Ela ressalta a existência de projetos que buscam aumentar o interesse do público feminino para as carreiras de ciência e tecnologia, como é o caso do Meninas na Ciência.
“Precisamos falar de ciência no nosso país, e esse momento de pandemia mostra claramente isso. O Brasil é um país que tem um nível de aceitação de fake news e valorização de coisas místicas muito grande. Eu penso que as iniciativas de divulgação científica são muito importantes para combater isso. A ciência precisa ser consumida de uma forma trivial.”
Carolina Brito
Plataforma agrega todos os podcasts produzidos na UFRGS
Buscando reunir as produções de professores, alunos e técnicos da Universidade, foi criado o Lúmina Podcasts, uma iniciativa da Secretaria de Educação a Distância – SEAD/UFRGS. Ao todo já foram agrupados 14 podcasts na plataforma, sendo alguns gravados nos estúdios do Núcleo de Apoio Pedagógico à Educação a Distância (Napead), um dos setores da SEAD. Podem ser encontrados podcasts dos mais variados assuntos, como Filosofia, Ciência, Política e questões de gênero.
‘O Que é Tudo Isso?’ foi o primeiro podcast a ser agregado pela plataforma, em outubro de 2019. Ele é um projeto de extensão do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS, coordenado pelo professor Jonadas Têchio. A iniciativa foi idealizada pelo aluno do Curso de Filosofia Matheus Guterres: “Era uma coisa de que eu sentia falta. Não havia na universidade uma iniciativa de produção de áudio fazendo a divulgação acadêmica das ciências humanas. Foi então que comecei a buscar professores do instituto para colocar isso em prática”.
“Avalio essa divulgação como importante para o debate público e para auxiliar a não pensarmos de forma tão simplória problemas que são complexos. ‘O Que é Tudo Isso?’ surge para quebrar o paradigma e o preconceito com as humanidades de que não fazemos nada. Vem para mostrar que há uma pesquisa séria, autores sérios e uma discussão profunda.”
Matheus Guterres
Nos episódios quinzenais, às terças-feiras, são debatidos diversos assuntos relacionados às Ciências Humanas, como Filosofia, História, Sociologia e Antropologia. “Geralmente contatamos os professores de algumas pesquisas que achamos que podem ser mais facilmente explicadas sem usarmos muitos termos técnicos de difícil entendimento”, explica Matheus. O grupo, porém, já encontra algumas dificuldades: “Nas ciências humanas existe uma linguagem muito fechada. Nossa dificuldade é equilibrar isso. Fazer com que pareça mais interessante, que seja uma discussão não muito maçante e sem uma linguagem muito fechada, mas que ao mesmo tempo mantenha a profundidade do assunto”.
O Fronteiras da Ciência, primeiro podcast de ciências no Brasil, criado em 2010, também pode ser encontrado na plataforma Lúmina Podcasts. Ele aborda assuntos como a pseudociência e a ciência. “As nossas pautas surgem pela questão da oportunidade. Aproveitamos os eventos que podem estar acontecendo em Porto Alegre e na região metropolitana, então vamos atrás de tais pesquisadores, sempre buscando entrevistá-los de forma presencial. Falamos de muitos assuntos relacionados à ciência e sempre de um ponto de vista científico, trazendo dados para comprovar o que é dito”, explica a professora Carolina Brito, que é uma das responsáveis pelo podcast, tarefa que compartilha com os professores Marco Idiart, Jorge Quillfeldt e Jeferson Arenzon.
Embora priorizem a entrevista presencial, a pandemia do novo coronavírus não paralisou a produção dos podcasts, que seguem sendo gravados remotamente. Os episódios vão ao ar todas as segundas-feiras. O programa já tomou grandes proporções, visto que é retransmitido em diversas rádios do Brasil e também numa rádio de Cabo Verde, país do continente africano. “Acredito que nosso podcast tenha um valor histórico por ter sido o primeiro da área. Sabemos que mais de um projeto se inspirou no nosso”, comenta a professora, que relembra que até o ano de 2018 havia uma média de 20 mil ouvintes por episódio.


Iniciativas já se espalham pelo Brasil
A produção de podcasts no país cresceu cerca de 100% desde janeiro, segundo dados do relatório State of the Podcast Universe, publicado pela Voxnest, empresa referência em dados para a indústria de podcasts. Foi nesse período que surgiram dois outros podcasts de temática científica: O Ogunhê, criado pela cientista da computação Ana Carolina da Hora, e o A Terra é Redonda, oferecido pela revista piauí.
Resultado de oito anos de pesquisas de Ana Carolina, o Ogunhê teve sua estreia em fevereiro. O podcast tem o propósito de apresentar as contribuições de cientistas negros para a ciência. “Quando estava no ensino médio, comecei a fazer pesquisas como uma forma de encontrar motivação para continuar na área das ciências, porque não via muitas referências de pesquisadores e cientistas pretos nas aulas”, relembra Ana Carolina, nascida na cidade de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Ela busca dar um panorama geral da vida e da área de estudo dos cientistas em episódios quinzenais de no máximo 30 minutos, com um formato que visa atingir o público das escolas e das universidades. “A ideia é gerar curiosidade nas pessoas e, a partir disso, motivar a pesquisar por conta própria”, comenta.
“Quero trazer esse outro olhar para a ciência. Comecei pelos cientistas do continente africano porque, na minha visão, é a origem do mundo. Temos que desconstruir essa visão ocidental de que todos do continente africano são pobres coitados, quando na verdade eles já contribuíram muito para muitas soluções que a gente usa atualmente.”
Ana Carolina da Hora
“Eu sinto que atingi pessoas que não havia atingido com os meus textos”, diz o jornalista e apresentador do ‘A Terra é Redonda’, Bernardo Esteves, que trabalha com pautas de ciência e meio ambiente desde 2010 para a revista piauí. O programa busca discutir temas da atualidade por meio de uma perspectiva científica, estimulando o ouvinte a refletir sobre questões importantes e sobre como elas podem ser aplicadas nas ações dos governantes. Os primeiros passos para a gravação do podcast já haviam sido dados em 2019, quando de fato a revista decidiu criar um podcast sobre o tema.
“Essas questões ganharam centralidade na pauta jornalística em geral porque a negação e o ataque ao meio ambiente passaram a ser aspectos centrais da atuação do atual governo. Como já vínhamos adotando podcasts na revista, foi natural pensarmos em um que pudesse tratar desses temas”, explica Bernardo. Segundo o jornalista, a repercussão do podcast é bastante satisfatória e o projeto vem cumprindo a missão de atingir um público maior, no qual os textos da revista não estavam chegando. O podcast segue acontecendo de forma remota durante o período de isolamento social com temas também relacionados à pandemia. “Trouxe novos exemplos de como o conhecimento cientifico vem fazendo falta no debate público. Nós vemos pessoas negando a eficácia de medidas como o isolamento social e a gravidade da própria doença. Há um espalhamento muito grande de fake news ligadas à doença. Tudo isso é um prato cheio para debatermos no programa”, completa o apresentador.
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