Política cultural, um debate necessário

Exposição ‘Um Itinerário Gráfico’, que expôs parte do acervo da da conceituada artista visual carioca Beatriz Milhazes, em fevereiro de 2019, no Centro Cultural da UFRGS (Foto: Rochele Zandavalli/ Secom)

O momento tem sido bastante adverso para a produção artística: esta vem sofrendo ataques tanto em relação à liberdade expressiva – são diversos os episódios de censura – quanto no que tange ao modo de produção – a pecha de ‘vagabundo’ como expressão disso. Nesse sentido, ganha relevo a discussão sobre como a UFRGS vai se inserir nos processos de promoção, produção e circulação da cultura. O debate sobre a temática foi deflagrado no mês passado com as Conferências UFRGS. O tema “Cultura: para uma política cultural da UFRGS” é uma provocação para que, ao longo dos dez eventos que acontecem até novembro, ocorra a gestação de um conjunto de diretrizes para nortear o posicionamento institucional.

De acordo com a vice-reitora e curadora do ciclo de palestras, Jane Tutikian, estamos diante de um cenário em que as universidades devem adotar posturas de resistência. “Toda vez que existe uma crise econômica”, explica a docente, “a tendência é colocar de lado a cultura e a educação”. Na atual circunstância que vivemos no Brasil, segundo ela, isso se torna ainda mais pungente: são atos de resistência abrir um centro cultural, como aconteceu na Universidade em setembro do ano passado, e discutir políticas culturais, como se faz agora.

A profusão de nuances encerrada pelo termo cultura exige, portanto, que uma instituição que pretenda abordá-la de modo adequado debata, antes de qualquer definição, o que se reúne em torno desse vocábulo.

“Eu entendo por cultura um processo; portanto, ele não se esgota em si. É um processo de valorização do ser humano. E isso, entendido de uma forma ampla, abrange o nosso dia a dia e as nossas ações.”

Jane Tutikian
Performance da arte caligráfica japonesa (shodo), com o artista Kazuaki Tanahashi, realizada durante a Expo Japão 110 anos, em junho de 2018 (Foto: Gustavo Diehl/ Secom)

A pesquisadora, que tem dedicado sua carreira à Literatura, percebe o momento atual como de desvalorização da dimensão humana: há uma onda conservadora tomando conta do mundo e impondo uma polarização da discussão política. O grande avanço da tecnologia, da ciência e da inovação complementa o cenário: ainda que fundamentais para a existência contemporânea, só têm sentido se reverterem em direção ao humano. “Então, é preciso que a Universidade entenda o que é cultura e que faça um planejamento daquilo que ela quer em termos de cultura”, sintetiza.

Inserida no debate sobre o tema está também uma perspectiva mais identitária: cultura representa a marca de um povo. “Então, tudo entra nesse momento. Entra a religião, entram os hábitos alimentares, entra o folclore, a tradição, tudo entra nessa parte da cultura”. Para analisar essa nuance, a professora propõe dividir a identidade de um país em duas grandes comunidades: política e cultural. “No momento em que se dissociam, temos o avanço da direita, os totalitarismos, etc.”, diz. Nesse sentido, ela percebe como fundamental o papel mediador da Universidade como lugar de aproximação dessas duas comunidades de modo a se complementarem. “No sentido de troca, no sentido de afirmação cultural, para que haja efetivamente o respeito”, explana.

Tendo em vista a possibilidade de pluralismo que a instituição de ensino superior pública representa, a elaboração de uma perspectiva abrangente de cultura é bastante viável. Nesse sentido, Jane Tutikian aponta que o debate sobre cultura deve transcender a noção que se restringe à produção artística. “Pretendemos chegar a um conceito de cultura mais amplo, que englobe não só o espetáculo, porque cultura é mais do que isso. Vamos trabalhar a ciência e a tecnologia ao lado da humanização. Eu não vejo, particularmente, outra possibilidade para a universidade fora disso”, explica a também Pró-reitora de Coordenação Acadêmica.

Exposição Saberes Indígenas, na Faced, em 2017 (Foto: Rochele Zandavalli)

Salão UFRGS 2016 (Foto: Rochele Zandavalli/ Secom)

Coletivo “As Cantantes” em ação durante o Novembro Negro de 2018 (Foto: Rochele Zandavalli)

UFRGS Criança, em 2018 (Foto: Rochele Zandavalli)


Inserido nesse debate, o JU apresenta, a partir desta edição, uma série de matérias sobre políticas culturais que pretendem abordar o assunto sob várias perspectivas e a partir de suas diversas dimensões. Nesta edição, a busca foi por referências que pudessem oferecer elementos mais conceituais: Antônio Albino Canellas Rubim e Teixeira Coelho, em entrevistas, apresentam suas ideias sobre cultura, política cultural e o posicionamento das universidades com relação a esses temas.

Albino Rubim
“Tem que ter um investimento enorme na área da cultura”

Foto: Ronaldo Silva/Agecom

Pós-doutor em Políticas Culturais pela Universidade de Buenos Aires e pela Universidade San Martin, Antônio Albino Canelas Rubim é professor do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Como secretário de Cultura da Bahia de 2011 até 2014, articulou a aprovação da Lei Orgânica da Cultura (2011), do Plano Estadual de Cultura (2014) e da criação do Centro de Culturas Populares e Identitárias (2011).

Qual é o lugar da produção cultural na sociedade? Que papel ela pode desempenhar?
Havia uma concepção de cultura entendida como arte e patrimônio. Muita gente ainda pensa que cultura é somente isso. A arte e o patrimônio têm papéis fundamentais dentro do campo cultural, mas ele é muito mais amplo. É preciso que a sociedade e a universidade entendam isso. Muitas vezes, a universidade, quando fala em política cultural, está falando em política das artes e do patrimônio, não no sentido largo da palavra. Então, se há essa mudança histórica importante da concepção de cultura, é preciso que as universidades discutam (políticas culturais) no sentido amplo.

E o que seria discutir isso num sentido amplo?
Não tem sentido imaginar que política cultural dentro da universidade vai ser voltada para atividades artísticas e de patrimônio. As universidades precisam ter políticas culturais amplas, o que significa dizer que todos os alunos devem passar por uma formação cultural. Não se pode discutir só uma orquestra sinfônica. Tem que se discutir qual é a formação que os estudantes estão tendo em termo de cultura, visão de sociedade e valores sociais. Outra coisa: as universidades têm de dar conta do que se faz de pesquisa sobre cultura, no sentido mais estrito. E por sentido mais estrito não estou dizendo que é arte e patrimônio, mas, por exemplo, um campo como a sociologia. Dentro da sociologia, existe uma área chamada de sociologia da cultura. Dentro da geografia, existe uma área chamada geografia da cultura. O que se faz na universidade em termos de pesquisa nessas áreas? Uma política cultural tem de dar conta de tudo isso. Em geral, as universidades não têm política cultural nenhuma. E, quando têm, é uma política muito restrita, porque pensa só a cultura como arte e patrimônio.

A cultura, no Brasil, muitas vezes é vista como algo “ornamental” para a vida da elite. Deve-se um pouco a isso o posicionamento com relação à cultura no país?
Essa ideia de uma cultura ornamental é muito forte no Brasil. Nós temos uma elite que tem uma relação com a cultura que é muito complicada, muito ruim. Ela copia a cultura dos países que admira, que foi passando de Portugal para a Inglaterra e, depois, para os Estados Unidos. No Uruguai, eles universalizaram a escola no século XIX. Nós universalizamos no fim do século XX. Esta é a elite que nós temos, que pensa a cultura muito como ornamento mesmo. É incivilizada, tacanha.

Como a universidade pode trabalhar para mudar esse cenário?
Acho que a universidade tem um papel vital. Primeiro, porque não pode encarar as pessoas que estão entrando e transitando por ela como estudantes com formação puramente técnica, profissional. Claro que tem que ter uma formação profissional de altíssima qualidade, mas também uma transformação de cidadãos, de pessoas que têm valores. Acho inconcebível a universidade não ter um trabalho com essas pessoas de formação cidadã, que evite serem preconceituosas, violentas, arbitrárias, machistas e homofóbicas. Isso é fundamental, a universidade não pode se omitir. Além disso, para essa formação geral, a universidade tem que ter um investimento enorme na área de cultura. E quando falo em cultura, não falo só em arte, mas em uma formação geral que deveria ser muito mais cultural. Posso, em um curso de Relações Internacionais, ter toda uma discussão sobre a cena cultural, por exemplo. E isso a universidade tem, mas não sabe que tem, não sabe o que faz em termos de cultura. Faz muito, mas não sabe. Por quê? Porque não tem uma política de nível universitário que cuide dessa dimensão cultural, órgãos específicos. E quando tem algum órgão desse tipo, ele só trata muito setorialmente a cultura enquanto a orquestra, o grupo de dança ou o grupo de música. Agora, qual é a articulação que tem tudo isso? Nada, não tem uma articulação e uma política, isso está faltando muito. O dia em que a universidade tiver essa política, terá uma potência enorme de interferência não só na comunidade interna, mas na sociedade. Em um contexto de ataque às universidades, é fundamental que elas criem uma conexão maior com a sociedade, e a cultura é um dos tendões dessa conexão.

Com relação à produção de arte, a universidade cumpre um papel importante em termos de inovação estética. Como ela pode trabalhar com o novo e dialogar com a sociedade, que muitas vezes tem uma visão de cultura voltada para o consumo?
Não sei se a universidade só trabalha com arte nessa perspectiva experimental, de vanguarda. Acho que isso é um dado importante, mas varia de aluno para aluno. Uns têm mais essa pegada de vanguarda, outros não. Nós passamos por uma etapa de uma cultura oral para uma cultura audiovisual, muito calcada na presença enorme que a televisão tem no país. Não tivemos a passagem para a cultura escrita, como aconteceu na maioria dos países na Europa. Nesse sentido, quando a universidade acolhe a cultura, ela se relaciona com a indústria da cultura, que também não é necessariamente de vanguarda.

Teixeira Coelho
“A universidade é uma espécie de oásis onde a arte procura abrigo”

Foto: Midiateca Instituto
de Estudos Avançados
da USP/ Divulgação

Professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), José Teixeira Coelho Netto é um principais pesquisadores de políticas culturais do país. Foi diretor do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP e curador-coordenador do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Também atua como colaborador da Cátedra Unesco de Política Cultural da Universidad de Girona, Espanha.


De que forma as ideias de cultura e arte se diferenciam?
Cultura é a regra geral, uma vez que as pessoas sabem como devem se manifestar culturalmente. A cultura existe para aproximar e proteger as pessoas e só se justifica por repetir as coisas. A cada ano, vamos repetir o Carnaval. A arte, dentro da modernidade ocidental, existe exatamente para questionar, criticar e combater a sociedade. A arte vem para destruir a cultura, colocar tudo em xeque.

Neste momento, vivenciamos justamente o embate entre uma cultura para trás e uma arte que está sob forte ataque. Que saídas podemos ter?
Não ando muito otimista em relação ao futuro no Brasil. Você vê notícias de que o governo federal irá restringir drasticamente os recursos destinados ao apoio à arte. Em âmbitos estaduais, e eu falo aqui de São Paulo, o governo também promete fazer a mesma coisa. Vemos essa restrição em relação à arte no Brasil e no mundo. De uma maneira tola, completamente estúpida mesmo, o mundo inteirinho resolveu acreditar que cultura e arte não têm importância. É uma loucura, é um suicídio. E isso só faz com que surja ainda com maior força o papel da universidade. Ela sempre é uma espécie de oásis onde a ciência, a filosofia e a arte procuram abrigo. E a universidade tem de responder a esse abrigo.

Como estão as políticas culturais nas universidades?
Um aspecto que me chama a atenção no caso da USP é que, há alguns anos, fiz uma pesquisa de hábitos culturais dos estudantes que confirmou que eles não frequentavam muito os espaços culturais da própria universidade ou da cidade. O que foi particularmente chocante para os dirigentes da universidade foi que o perfil cultural do estudante não se alterava entre os momentos em que ele entrava e saía da USP. Os próprios professores não frequentavam os espaços culturais da USP, como o Museu de Arte Contemporânea (MAC), que é excelente e de nível mundial pela coleção que tem.

Como a universidade pode trabalhar para incluir a cultura e a arte dentro da rotina de estudantes e professores?
A universidade pode atuar de duas maneiras distintas, mas que devem convergir. Uma é oferecer práticas culturais dentro do câmpus. Do outro lado, seria preparar os estudantes, abrir um espaço na grade curricular para um ensino com cultura. Não tanto um ensino da cultura, que não faz parte do objetivo de um estudante de Engenharia, por exemplo, mas que a universidade criasse as condições para que, dentro da grade curricular, houvesse espaços de sensibilização para a cultura.

Qual o efeito do convívio com produções artísticas na visão de mundo do cidadão?
Servem para ampliar a esfera de presença do ser. Se eu ficar isolado, sem abrir a cabeça para o mundo, eu me fecho cada vez mais em um ambiente restrito e sufocante no qual a maior possibilidade é que eu perca as minhas características humanas. Com a arte, a cultura vai ampliar a expectativa, os horizontes e a aproximação com o outro. Vai tentar entender o ser humano.

A universidade, em geral, é um lugar onde a arte tem áreas de inovação estética. Então, de alguma maneira, ela se distancia do consumo de grande parte da população. Como resolver esse dilema?
A função da universidade em relação à arte, assim como em medicina, é buscar a tecnologia de ponta. Se essa inovação não vier da universidade, que é o espaço onde o estudante, o pesquisador e o professor têm tempo para pensar nessas questões específicas, isso não acontece. Do mesmo e do velho, a sociedade cuida, tranquilamente. O que importa é abrir espaço para o novo. Não há saída para a humanidade a não ser buscar o novo.
A universidade vai propor o novo, mas como faz para que a sociedade aceite?
A universidade pode criar uma área complementar de ação ou mediação cultural. Isso é a preparação de profissionais que vão fazer a ponte entre os produtos artísticos de ponta e o resto da sociedade.

Nos campos da cultura e da arte, como a universidade se conecta com outras esferas da sociedade? E qual a importância dessa conexão?
A importância é total. A universidade precisa ter um gesto de ir buscar apoio na sociedade civil e na iniciativa privada, mas há um problema extra aí. Muito frequentemente, os professores e os estudantes rejeitam essa participação.

Haveria risco de esse apoiador querer intervir nas formas e nos conteúdos da arte, colocar limites ou censurar?
Eu nunca vi isso. O que há, no Brasil, é uma prevenção absolutamente injustificada contra a sociedade civil e a iniciativa privada. Não há arte sem dinheiro, nunca houve. A universidade não vai poder esperar uma ação do poder público.