Por que confiar na ciência?

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

A maioria das pessoas envolvidas direta ou indiretamente com a produção do conhecimento científico provavelmente encararia essa pergunta com perplexidade já que a resposta a ela parece trivial: nada parece merecer mais o honorífico “conhecimento” do que as conquistas do empreendimento científico, ainda que sempre abertas a novos questionamentos. Além disso, quem negaria o sucesso das tecnologias que se apoiam no conhecimento científico?

Aviões voam, computadores computam, edificações nos abrigam e mantêm-se firmes, etc. Essas coisas todas funcionam consoante o conhecimento científico que temos delas. Assim, quando miramos o nosso presente, diante de uma situação tão complexa e angustiante quanto a pandemia que ora nos assola, esperaríamos igual confiança na ciência para encontrar respostas sobre o que fazer. No entanto, muitas autoridades públicas e uma parcela expressiva da sociedade aparentemente se mostram resistentes ao que a ciência tem a dizer. Por que isso?

A verdade é que a questão sobre por que confiar na ciência não é tão simples assim. Em primeiro lugar, temos de distinguir a perspectiva do especialista, que participa da produção do conhecimento científico, da perspectiva do leigo, que frequentemente tem uma ideia muito vaga do que seja a ciência. O primeiro está em uma posição vantajosa para reconhecer o sucesso e as limitações da sua disciplina. Em segundo lugar, mesmo essa questão pode se tornar difícil e técnica para o especialista se ele for convidado, por exemplo, a estimar quão confiável é a sua disciplina. Em terceiro lugar, a questão da confiabilidade da ciência ou de uma disciplina científica em particular tem de ser desmembrada em pelo menos duas subquestões. Uma diz respeito a quão seguros são os resultados da ciência, a outra a quão idôneos eles são. É como na avaliação do testemunho que recebemos de alguém, temos de saber se essa pessoa é competente sobre o que fala e também se é honesta.

“Aviões voam, computadores computam, edificações nos abrigam e mantêm-se firmes, etc. Essas coisas todas funcionam consoante o conhecimento científico que temos delas” (Foto: Flávio Dutra/JU)

Com base nessas considerações, podemos entender por que pessoas leigas podem não ter razões para confiar na ciência. Em muitos casos, elas simplesmente não tiveram a educação científica adequada para entender minimamente como a ciência funciona e, portanto, não sabem reconhecer, ainda que vagamente, alguns dos seus sucessos. Elas não estão em condições de enxergar a segurança dos resultados da investigação científica.

Além disso, se são muitas as pessoas sem educação científica adequada e elas convivem majoritariamente entre si, então também dificilmente poderão contar com o testemunho de outra pessoa mais bem posicionada do que elas para reconhecer o sucesso da ciência. Nessa situação, esperar que um leigo confie na ciência é esperar que ele tenha fé cega em algo acerca do qual ele só tem uma vaga ideia, se é que chega a ter alguma. 

Você teria essa fé? Essa é uma das razões pelas quais a educação científica e a divulgação científica são tão importantes. Esta última, inclusive, deveria ser mais valorizada e prestigiada entre os próprios especialistas, já que a capacidade desses últimos de se fazerem entender e ouvir no âmbito mais amplo da sociedade depende dela.

Mesmo entre os leigos com razoável educação científica, a situação pode ser bastante complicada. Muitos assuntos relevantes para as suas vidas, como é agora o debate sobre o tratamento da covid-19, podem ser temas ainda em debate entre especialistas. Esses debates são técnicos, e é difícil para o leigo acompanhá-los. 

E mesmo que o grosso da comunidade científica tenha chegado a um consenso, o leigo pode ser incapaz de reconhecê-lo, especialmente se o tema é politizado e algum setor da sociedade se mobiliza para manter a impressão de dissenso na esfera pública. Aliás, essa estratégia já foi e é empregada por setores econômicos que querem sabotar políticas públicas que vão de encontro aos seus interesses. 

Assim, a indústria tabagista fomentou por décadas o aparente dissenso sobre os efeitos do cigarro para a saúde e atualmente a indústria petrolífera fomenta o aparente dissenso sobre as causas do aquecimento global. De modo semelhante, mesmo que a comunidade científica produza evidência robusta de que a cloroquina é ineficaz no tratamento da covid-19, em qualquer um de seus estágios, se o público é levado a perceber o tema como uma questão ainda em aberto, fica mais fácil resistir a medidas mais drásticas de isolamento. 

Em casos assim, mesmo que o leigo tenda a confiar em geral na ciência, a produção de aparente dissenso impede que a sociedade usufrua dessa confiança em tópicos específicos. Para enfrentar esse problema, educação e divulgação científicas ajudam, mas não bastam. É preciso que os especialistas participem mais do debate público para desmascarar essas estratégias de manipulação do debate, como fez a doutora em microbiologia Natália Pasternak em um debate recente na CNN.

Quando cientistas e institutos de pesquisa são cooptados por interesses escusos de modo a enviesar o resultado da investigação científica, como nos episódios envolvendo as indústrias tabagista e petrolífera, a idoneidade da ciência é manchada. Episódios semelhantes envolvendo governos também abundam, como o caso Lysenko na ex-URSS ou mesmo no Brasil recente quando o governo intervém em institutos públicos de pesquisa para controlar a publicação da pesquisa. 

A confiança na ciência vai se enfraquecendo conforme esses episódios se tornam mais variados e frequentes. Essa é uma das mais graves ameaças para a confiabilidade da ciência contemporânea. Não só leigos, mas até especialistas começam a ter razões para duvidar da idoneidade de certos resultados de pesquisa e também de grupos e institutos de investigação e, assim, de vasta parcela da ciência. 

Uma sociedade que perde a confiança na capacidade de conhecer a realidade é uma sociedade que se aliena e se torna extremamente vulnerável à fragmentação.

 Assolados por uma condição incerta e angustiante, parece razoável que a ciência fosse esteio para alguma segurança durante a atual pandemia. Mas os sinais podem estar invertidos e as ações políticas parecem agir no sentido de confundi-los ainda mais (Foto: Flávio Dutra/JU)

Note que para abalar a confiança não é necessário questionar a competência, basta atingir a idoneidade. Você certamente não confiaria em alguém competente se tem razões para pensar que essa pessoa não é honesta. A politização da ciência, no sentido em que ela é manipulada por interesses escusos, é difícil de ser combatida. A educação e a divulgação científicas e a participação de especialistas em debates na esfera pública não são suficientes, embora fundamentais. 

É o próprio arranjo institucional da ciência que precisa ser pensado para torná-la tão imune quanto possível a este tipo de ataque. Propostas que de alguma maneira envolvam a sociedade civil ao longo do processo de produção do conhecimento são importantes, não só para dificultar que interesses de setores isolados prevaleçam, mas também porque a participação e a consequente percepção de pertencimento a um espaço público comum auxiliam a criar laços de confiança. Essa é uma tarefa para a qual as humanidades – a filosofia, a antropologia e a sociologia da ciência – têm muito a contribuir.


Eros Moreira de Carvalho é Chefe do Departamento de Filosofia da UFRGS.