Educação em Pauta | O professor Nelton Dresch relata de que forma a UFRGS levou a formação docente para perto das comunidades e ampliou a permanência e o impacto social
Foto: Cada turma da Educação no Campo possui seu estandarte (Crédito: Nelton Dresch)
O curso de Licenciatura em Educação do Campo – Ciências da Natureza, oferecido pelas Faculdades de Educação e Agronomia, iniciou em 2014, configurando uma inovação em nossa Universidade quando instituiu a formação docente por Área de Conhecimentos com Regime de Alternância. A formação é operacionalizada em um Projeto Pedagógico de Curso que prioriza práticas dos discentes interdisciplinares em espaços educativos escolares e não escolares, inclusive com a elaboração de materiais didáticos específicos aos territórios envolvidos.
O Regime de Alternância organiza as aprendizagens discentes e dodiscentes [conceito criado por P. Freire para se referir ao educador sempre disposto a aprender com o que faz e com o próprio aprendiz] nos Tempos Universidade e Comunidade, respectivamente com 70% e 30% da carga horária de cada atividade de ensino. No Tempo Universidade, as atividades teórico-práticas são presenciais, contemplando diversas saídas de campo aos territórios envolvidos, escolas do campo e demais instituições que desenvolvem atividades educadoras. No Tempo Comunidade, as atividades acadêmicas de pesquisa-extensão-ensino realizadas pelos discentes ocorrem diretamente nos seus territórios de origem e/ou nos espaços de trabalho desde o primeiro semestre, culminando com a construção e operacionalização do respectivo projeto de Trabalho de Conclusão de Curso.
Para tanto, a equipe docente precisa realizar visitas prévias aos territórios e demais instituições envolvidas, de modo a coletar informações que orientem os planejamentos ético-político-pedagógicos das atividades nos Tempos Universidade e Comunidade. Assim, construímos nossas propostas de Pedagogia da Alternância nas quais, não raro, a equipe docente ressignifica seus saberes, métodos e materiais didáticos, produzindo, pois, tanto variados “inéditos viáveis” quanto nossas “dodiscências”, conforme defendia Paulo Freire.
De fato, a Licenciatura em Educação do Campo – Ciências da Natureza possibilita inúmeras aproximações entre as dimensões do ensino com as de pesquisa e as de extensão universitária não difusionista, envolvendo equipe docente, estudantes e suas famílias, a comunidade em que moram e vivem, e seus locais de trabalho.
Essas aproximações são potencializadas à medida que a equipe docente ressignifica continuamente certas práticas ético-políticas e democráticas de respeitar as diversidades de referenciais teóricos, percepções de mundo e propostas pedagógicas frente a objetivos comuns: contemporaneizar a Educação do Campo sócio-referenciada nos territórios, defender propostas educadoras que priorizem saudáveis projetos de vida com produção de alimentos sem agrotóxicos e preservação da biodiversidade baseadas na Agroecologia, resgatar e pedagogizar saberes dos Povos originários e Tradicionais preservando suas memórias bioculturais e, por fim, desenvolver propostas curriculares e materiais didáticos para escolas e demais espaços educativos no campo que contemplem todos esses aspectos.
Mas o curso sofreu evasões com as dificuldades que estudantes dos Povos do Campo enfrentavam de se deslocarem para as aulas em Porto Alegre, provocando a equipe docente a buscar alternativas em projetos de outras instituições federais de ensino superior. Assim, em 2024, geramos mais uma inovação acadêmica na UFRGS ao criarmos os Núcleos Comunitários de Educação do Campo que funcionam em escolas públicas municipais mediante Termo de Cooperação firmado com as Prefeituras, definindo contrapartidas para garantir transporte da equipe docente e os respectivos equipamentos e materiais didáticos, qualidade dos espaços físicos de trabalho e estudos, alimentação e transporte local para estudantes, etc.

A capilaridade das ações acadêmicas oportunizadas pelos Núcleos têm configurado avanços no Plano de Desenvolvimento Institucional da UFRGS, com significativos impactos socioculturais nas comunidades, sendo que nosso principal objetivo tem sido alcançado: possibilitar acesso e permanência de pessoas oriundas dos Povos do Campo ao Ensino Superior gratuito, sócio-territorialmente referenciado e de excelência acadêmica, pois a Licenciatura em Educação do Campo – Ciências da Natureza da Faculdade de Educação/Faculdade de Agronomia recebeu conceito máximo 5 pela segunda vez na recente Avaliação Externa promovida pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes/MEC).
Nelton Luis Dresch é Professor Titular na Área de Ciências da Natureza do Departamento de Ensino e Currículo da Faculdade de Educação da UFRGS e Coordenador da Comissão de Graduação do Curso de Licenciatura em Educação do Campo – Ciências da Natureza.
Quinzenalmente, profissionais e pesquisadores da área de Educação escrevem sobre temáticas que envolvam licenciaturas e experiências de ensino e aprendizagem. A seção tem curadoria de Beatriz Moro, servidora da Coordenadoria das Licenciaturas (Prograd/UFRGS).





