Programa Medusa promove espaço para conversas sobre saúde mental na Universidade

Bem-estar | Projeto de extensão busca prevenir adoecimento de estudantes por meio de ações de acolhimento

*Ilustração: Laura Castilhos

“Se você tivesse a oportunidade de falar sobre saúde mental na universidade, o que você diria aos professores, orientadores e técnicos?” Essa pergunta é parte de uma das ações do programa de extensão Movimento Educação e Saúde Mental, Medusa. Criada em 2020, a iniciativa voltada a estudantes tem como principal objetivo construir espaços de acolhimento.

Inicialmente, o Instituto de Psicologia e a Casa do Estudante (CEU) foram pensados como locais de acompanhamento dos estudantes, mas, em função da pandemia, o Medusa teve que migrar  para o ambiente virtual. Para Grace Tanikado, psicóloga na Divisão de Moradia Estudantil da Pró-reitoria de Assuntos Estudantis, a ideia é ter um espaço para conversar sobre saúde mental. “A ideia é de alguma forma ter o espaço para estudantes falarem disso, porque não existe um espaço dentro da Universidade que trate do tema, que não seja quando o estudante já está adoecido”, explica a psicóloga, uma das idealizadoras do programa. 

Prevenção e promoção são as palavras-chave da iniciativa, que busca promover ações de saúde para prevenir adoecimentos. Mas, apesar de o Grupo Virtual Medusa ser um ambiente em que se discute saúde mental, ele não tem função terapêutica, como explica Moises Romanini, professor do Departamento de Psicologia Social e Institucional e coordenador do projeto: “A gente não busca diagnósticos. Buscamos estudantes que queiram conversar e gostariam de ter algum tipo de acompanhamento nesse período da pandemia. Não é grupo de tratamento”. 

Ao longo de 25 encontros em 2020, os estudantes compartilharam no grupo virtual suas angústias e frustrações. Foram abordados temas como sobrecarga, elitismo, um novo perfil de aluno-trabalhador, e, é claro, a pandemia. O docente conta que a pandemia trouxe também novos questionamentos.

“O grupo corroborou com dados da literatura, mas, além disso, trouxe outras questões por causa da pandemia. Por exemplo: conflitos familiares envolvendo a temática da polarização política no Brasil ou como usar ou não usar máscara durante a pandemia. Estudantes relatando brigas homéricas dentro de casa. Isso acaba gerando muito sofrimento e atrapalhando efetivamente o andamento do semestre letivo.”

Moises Romanini

Compartilhar experiências produz um lugar-comum entre os estudantes, de saberem que não são os únicos que estão passando por determinada situação. Para Moises, quando um estudante encontra alguém que o escute e o acolha, ele consegue falar. “O Medusa se propõe a ser esse alguém, porque não é só a Grace e eu, o grupo escuta, é o grupo que acolhe. E é essa a produção comum, que no primeiro momento só parece mera semelhança”, relata.

O número de estudantes que participaram dos encontros foi variando entre dois e oito, conforme foram passando as semanas. Segundo Moises, alguns participantes precisavam de um ou dois encontros para desabafar, e o grupo compreendia isso. Ele comenta, também, que não é só pela semelhança que o grupo se desenvolve. “Alguém da Engenharia Elétrica vai trazer um tópico que, para o aluno de Psicologia, não é uma questão. Não é só pela semelhança que o grupo vai avançar, mas também com a dessemelhança. E tu pensar: ‘Essa universidade também existe’.”

Abranger o coletivo

Não se espera que a Universidade seja um local de adoecimento. Partindo desse pressuposto, o projeto compreende que é preciso pensar aspectos estruturais quando o assunto é a saúde dos estudantes. Moises conta que eles previam, inicialmente, que as Comissões de Graduação (Comgrads) pudessem chamar o Medusa quando precisassem tratar de questões de saúde mental dentro dos cursos. Por conta da pandemia, entretanto, a ideia precisou ser adiada.

Para Grace, as Comgrads precisam se comprometer com a saúde de seus estudantes. Ela entende que não é necessariamente o encaminhamento de um aluno para terapia que vai ser efetivo. 

“Os elementos que levam ao adoecimento são mais sistemáticos e estruturais. Toda a questão do Ensino Remoto Emergencial, o acirramento político, além de questões sobre racismo, homofobia, machismo… Tudo isso acontece dentro dos cursos, então não adianta a gente tratar as pessoas.”

Grace Tanikado

O ano passado, para o Medusa, foi de ouvir os estudantes para preparar ações que consigam, de alguma forma, chegar aos espaços e que possam propor intervenções que não sejam apenas individuais, mas coletivas. “A ideia é pensar saúde mental como uma questão não individual, esse é o diferencial do Medusa. A gente escuta os estudantes individualmente, no grupo, mas a gente sabe que não são só eles que estão passando por isso. Precisamos pensar em uma forma mais sistemática e menos individualista”, reflete Grace.

O que você diria?

Por meio da página do Instagram, o Medusa perguntou aos estudantes o que eles diriam, caso tivessem a oportunidade, para professores, técnicos e orientadores sobre saúde mental na Universidade. Sem precisar se identificar, eles podiam responder enviando um e-mail para o endereço do programa ou participando de um encontro online. Essa ação foi realizada com o objetivo de elaborar materiais de educação permanente sobre saúde mental na universidade.

“Tem algo nessa pergunta que convoca as pessoas. A gente partiu de um pressuposto de que os alunos que respondessem isso não tiveram a oportunidade de falar. De fato, quem respondeu a essa pergunta ou quem participou dos encontros online, todos, sem exceção, tiveram momentos em que foram barrados, em que não puderam falar.”

Moises Romanini

No final dessa ação, o Medusa elaborou cards informativos contendo depoimentos de estudantes e dois vídeos. Nos cards e nos vídeos havia frases de alunos relatando abuso dos professores na entrega de notas, aspectos didáticos e pedagógicos, sofrimento psíquico, machismo, homofobia, entre outras questões que fizeram parte da trajetória universitária dos participantes. Contudo, uma questão que se destaca e que gera muito silenciamento entre os estudantes é a hierarquia acadêmica. “Tem ainda um lugar hierárquico dentro da Universidade. Uma hierarquia não só entre professores e alunos, mas entre professores, técnicos administrativos, profissionais terceirizados; numa escala bem definida de quem vale mais e quem vale menos”, conta Moises, que reforça a existência de um lugar de impossibilidade de fala dentro da Universidade. “O professor doutor que sabe inúmeras línguas estrangeiras, que sabe de tudo que tá falando. Esse lugar do suposto saber tira a fala do aluno, que se entende entendedor de nada. Quando eu imponho a um técnico que ele me chame de senhor ou doutor, acabou qualquer possibilidade de fala, diálogo e escuta”, enfatiza.

Potencializando a Universidade

“Quando falamos de saúde mental, também precisamos falar sobre o que produz saúde mental na Universidade”, afirma Moises. De acordo com o professor, o Medusa não pretende, de maneira alguma, procurar culpados ou atribuir todo o sofrimento a um lugar. Pelo contrário, o que o projeto não quer é naturalizar o sofrimento dos estudantes, de que é normal se sentir mal por não dar conta do plano de ensino ou ficar ansioso por não receber determinada nota. 

O programa entende que a competitividade, os preconceitos, a hierarquia e outros problemas são reflexos da sociedade. Segundo Grace, a UFRGS é, muitas vezes, um fator de proteção social para os estudantes. É um espaço no qual muitos jovens terão acesso à informação, um espaço seguro através de coletivos; além de existirem diversas ações de acolhimento à diversidade. “Queremos levar de uma forma espargida a questão da saúde mental na Universidade para todo mundo. A gente quer potencializar  a Universidade”, sintetiza Grace.

O Medusa e o Grupo Virtual Medusa retornam este ano. Para mais informações, acesse a página do Instagram ou o canal YouTube do projeto.

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Laura Castilhos é ilustradora, professora universitária e artista plástica.