Projeto de extensão busca prevenir e combater os assédios moral e sexual na Universidade

Convivência | Núcleo Ampare tem como objetivo abordar o assédio de maneira institucional, envolvendo estudantes, técnicos e docentes para transformar um cenário de silenciamento em um ambiente mais justo e harmonioso

*Foto: Flávio Dutra/ Grafite no vão sob o viaduto Imperatriz Leopoldina, nos arredores do câmpus Centro

Promover ações de extensão que conscientizem e informem a população universitária sobre prevenção de assédio moral e sexual – violências que ocorrem de modo muitas vezes velado no cotidiano da vida acadêmica – é o objetivo do núcleo Assédio Moral Projeto de Acompanhamento e Reparação (Ampare), criado no final de 2019 e ligado ao Departamento de Educação e Desenvolvimento Social (DEDS) e à Pró-Reitoria de Extensão. O Ampare não é o primeiro projeto dedicado a essa temática na Universidade, o que sinaliza que essa é uma problemática premente na UFRGS e na sociedade. 

O cenário no qual o projeto se instala foi mapeado por uma pesquisa realizada em 2019 pelo comitê HeForShe da UFRGS, em parceria com o projeto Meninas na Ciência. O estudo demonstrou que somente cerca de 10% dos casos de assédio na instituição são devidamente reportados. O levantamento tratou da percepção de assédio moral e sexual e contou com participação de 25% dos docentes da UFRGS, 20% dos técnicos administrativos e 12,5% dos estudantes, totalizando cerca de 6 mil respondentes espontâneos. Os resultados indicaram que as vítimas mais comuns são mulheres pretas ou pardas e o público autodeclarado LGBTQIA+. 

Prevenir e remediar

Para o psicólogo do Departamento de Atenção à Saúde Willian Girotto, um dos coordenadores do Ampare, os primeiros trabalhos do projeto serão maiores em função da necessidade de lidar com dois aspectos: o de encaminhar e acompanhar denúncias (o que não será feito diretamente pelo projeto, mas será otimizado pelas ações do núcleo) e o de informar para prevenir. Na mesma linha, a outra coordenadora, a professora do Departamento de Artes Visuais Paula Mastroberti, comenta que o principal papel da iniciativa é educativo: “Educar, informar para prevenir e conscientizar, dissolvendo, dentro do possível, os jogos de poder que acontecem na Universidade”.

Eles também ressaltam que, ao contrário do que se possa pensar, o Ampare não é um órgão legislativo ou de denúncia. “O núcleo é um lugar de congregação de todos que se sentem ou se percebem de algum modo assediados ou assediadores e querem mudar isso”, afirma Paula. Para ela, o papel fundamental do núcleo é evidenciar o assunto e colocá-lo em pauta, apesar do cenário de subnotificação de casos, sendo também um espaço de resgate para uma convivência mais justa e harmoniosa.

“Às vezes o maior problema sobre o assédio é que não se fala [sobre ele], e esse não se falar cria um tabu que permite que as violências nos mais diferentes graus possam ocorrer”

Willian Girotto

Enquanto coordenadora da Comissão de Graduação (Comgrad) de Artes Visuais, Paula acompanhou comportamentos estudantis de assédio e também ouvia sobre essa questão entre docentes e técnicos. Ela destaca que, mesmo que oficialmente a orientação fosse de formalizar uma denúncia na Ouvidoria, não havia um anteparo institucional para os encaminhamentos, o que tornava as questões ainda mais difíceis. “Na minha opinião, [a Comgrad] é o lugar de encaminhamento primeiro. Muitas vezes o estudante não conhece a Ouvidoria”, relata, ressaltando a importância das Comgrads por serem mediadoras mais próximas entre estudantes e Universidade. 

Professora do Instituto de Física e presidenta do comitê HeForShe na UFRGS, Daniela Pavani acrescenta que, com o Ensino Remoto Emergencial (ERE), essas questões se tornaram mais complexas e agudas. No mesmo sentido, Paula afirma que as pessoas ficam mais encorajadas por trás das telas a se comportarem de uma maneira mais espontânea – talvez achando que estão protegidas pela tecnologia. “Eu também observo que colegas tomaram mais coragem para enfrentar essas situações [de assédio], enquanto presencialmente se sentiam mais intimidados”, conclui.

Uma das “vantagens” do ambiente virtual é a criação de material que possa servir de prova, como mensagens ou gravações, o que normalmente não ocorre no ambiente presencial. De qualquer forma, Daniela pontua que fluxos muito claros de recebimento de denúncias e de acolhimento de vítimas precisam ser criados e que, além das ações educativas, podem ser necessárias punições mais severas, como suspensão, desligamento ou exoneração.

“O assunto do assédio é um tabu e vai além, chega ao medo, medo de falar, e causa um terror psicológico e social na pessoa. É um sintoma que claramente responde à sociedade que temos hoje ameaças constantes que repercutem na política, por exemplo”

Paula Mastroberti

Os coordenadores do Ampare explicam que o núcleo já existia como projeto de extensão coordenado pela professora do departamento de Ciência da Informação da Fabico Jennifer Cuty Alves. Após uma capacitação realizada pela Escola de Desenvolvimento de Servidores da UFRGS (Edufrgs) para discutir assédio e relações de poder na Universidade, ele se tornou um núcleo institucional vinculado à Pró-reitoria de Extensão. Jeniffer aponta que a Universidade reflete os problemas estruturais que já existem na sociedade e que a extensão universitária, por ser uma ponte entre os públicos interno e externo da UFRGS, precisa ser usada para debater temas importantes e urgentes.

Para a extensionista, a Prorext possui o papel institucional de desnaturalizar os casos de assédio que acontecem tanto no ambiente da Universidade quanto fora do espaço acadêmico. Além de combater esse tipo de violência, o Ampare busca esclarecer aos alunos, professores e servidores o que significa assédio, no sentido de evitar que novos casos sejam invisibilizados. Conforme a docente, trata-se de um trabalho que entende a Universidade e a extensão como importantes foco e instrumento para questionar e discutir formas de lutar contra a violência moral e sexual.

“A Prorext sempre abraçou essas iniciativas pioneiras – o que a gente tem de inovação nasceu dentro da Extensão. O Ampare trabalha com pesquisa e ensino, mas sempre com o olhar extensionista de estar atento à realidade social”

Jeniffer Cuty Alves

Na capacitação promovida pela Edufrgs, técnicos e docentes avaliaram resoluções de outras universidades sobre o assunto – como USP e Unicamp – e foi redigida uma minuta de resolução que inclui acolhimento, fluxos de denúncias e ações que vão desde educação até punição, se necessária. “Seria importante que tivéssemos todos os segmentos nessa capacitação, pois cada um traz o que vive e sente”, pontua Daniela, sugerindo que se proponha um curso de extensão que inclua os estudantes no debate. Ela acrescenta que, com o Ampare, essas questões poderão ser encaminhadas de maneira institucional – a minuta, por exemplo, já foi enviada para análise do Conselho Universitário (Consun).

Percepções variam conforme cada indivíduo

Realizada em 2019, a pesquisa do HeForShe foi a primeira ação do comitê local do movimento na UFRGS. No levantamento, os respondentes deveriam sinalizar se viam determinadas situações como assédio moral e sexual e, também, se já tinham experienciado essas questões. Como resultados, 51,8% dos técnicos administrativos, 48,6% dos professores e 38,6% dos estudantes relatam ter sofrido assédio moral. Quando o assunto é assédio sexual, esses números caem para 13,6%, 11,8% e 10,4%, respectivamente.

Daniela explica que, muitas vezes, algumas situações de assédio têm interpretações diferentes entre as pessoas – algumas interpretam como assédio moral, outras como assédio sexual, o que demonstra uma influência das relações de poder e também um certo desconhecimento dos conceitos. Nesse sentido, Willian explica que o assédio tem essa dimensão subjetiva, sendo que uma pessoa pode conseguir lidar com determinada situação e outra não. “Mas há o problema da naturalização da violência. Eu acho que poder distinguir um comportamento que compete à relação no local de trabalho é fundamental”, afirma o psicólogo. Ele ressalta o efeito negativo que esses assédios causam na vida das pessoas, reformulando a percepção delas sobre si mesmas, sobre suas carreiras e suas vidas.

“Eu penso que essa situação na Universidade faz parte do contexto maior social e estrutural de uma sociedade machista, racista e homofóbica na qual estamos imersos. Então é um problema maior, mas, no caso de um espaço de formação de pessoas, se faz necessária uma política de não tolerância aos assédios. Para isso, é preciso criar ações de educação para os três segmentos em que se questione e se produza a reflexão para que as pessoas percebam que cometem ou sofrem assédio”

Daniela Pavani

Não é apenas na UFRGS que o cenário de combate ao assédio é difícil: conforme Willian, cerca de 70% das instituições federais de ensino não têm medidas de combate e 52% sequer possuem ações de prevenção. Como contraste a essa realidade, o psicólogo relata que dados da Organização Mundial da Saúde apontam uma maior prevalência de agressões e intimidações justamente entre servidores públicos e trabalhadores da saúde. É nesse contexto que o comitê HeForShe na UFRGS e o Ampare trabalham a fim de diminuir os casos de assédio na Universidade.