Universidade | Iniciativas reformulam suas práticas para o ambiente digital e criam ações como doações de máscaras e atendimento a mulheres vítimas de violência
*Por: Fernanda da Costa
*Foto: Flávio Dutra/JU
Historicamente, os projetos de extensão universitária foram destaque pelos laços presenciais e pelas relações de afeto com comunidades. Ações construídas no olho no olho para além dos muros das instituições, em territórios diversos e descentralizados. Na UFRGS, há mais de 2 mil atividades de extensão registradas, que envolvem quase 10 mil pessoas na execução e beneficiam outras 25 mil. Essas iniciativas tiveram de ser reformuladas por causa da necessidade de distanciamento social imposta pela pandemia.
Vice-pró-reitora de extensão da Universidade, Cláudia Porcellis Aristimunha relata que a maioria das atividades segue em funcionamento, adequadas ao ambiente tanto digital, quando isso é possível, como presencial, seguindo todos os protocolos de segurança em relação ao coronavírus.
“Projetos em ambientes de vulnerabilidade social seguiram acontecendo presencialmente por envolverem populações que foram muito afetadas pela crise econômica e que precisavam de ajuda”
Cláudia Porcellis Aristimunha
Essa relação de proximidade entre universidade e comunidades construída com a extensão também contribuiu para que professores, técnicos e alunos envolvidos enxergassem que tipo de ajuda humanitária seria necessária nos territórios neste momento de pandemia. Com isso, muitos organizaram doações de máscaras e alimentos, por exemplo, para além do que já era feito nas ações extensionistas. “Um projeto de extensão da UFRGS também disponibilizou torneiras com água e sabão para moradores de rua”, cita a vice-pró-reitora.
Conforme Cláudia, poucas atividades foram paralisadas, como algumas que aconteciam dentro das escolas e não conseguiram migrar para o online, e nenhuma foi cancelada. “Mesmo sem as ações acontecendo, é possível seguir trabalhando no estudo do tema”, explica.
Aumento da violência de gênero fez projeto adiantar atendimentos
Idealizado em dezembro do ano passado, o projeto de extensão “Clínica feminista na perspectiva da interseccionalidade” tinha planejado 2020 focado na formação sobre questões de violência de gênero e saúde mental para depois realizar atendimentos, mas a covid-19 acabou invertendo as etapas. Uma das coordenadoras, a professora de Psicologia Simone Paulon explica que as organizações não governamentais Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos e o Movimento Olga Benario, que mantêm a casa de acolhimento Mirabal, começaram a pedir ajuda psicológica urgente para mulheres que ficaram em situações mais vulneráveis por causa da pandemia – momento em que os casos de violência de gênero aumentaram no país e no mundo.
Simone e as outras extensionistas reorganizaram então o projeto, que é focado no atendimento direto às mulheres vítimas de violência e recebe tanto encaminhamentos dessas organizações como pedidos de ajuda no Facebook, no Instagram e no WhatsApp. Após o acolhimento individual, realizado por telefone, as mulheres atendidas são convidadas a participarem de grupos de apoio on-line com no máximo quatro integrantes e duas “escutadoras”, que são profissionais vinculadas ao projeto de extensão.
Os primeiros atendimentos foram com ativistas que trabalham com mulheres vítimas de violência em comunidades em situação de vulnerabilidade social, as Promotoras Legais Populares (PLPs), formadas pela Themis. A experiência mostrou que o formato da escuta em grupo foi muito positivo, e hoje cerca de 30 mulheres recebem o acompanhamento da clínica dessa forma.
“É um projeto que mostra a potência da extensão universitária, porque foi planejado para atender a uma demanda que partiu da comunidade, e foi um grupo social que pediu para que a universidade se mobilizasse. A extensão sempre foi o patinho feio da academia, abaixo da pesquisa e do ensino, porque não pontuava e não tinha incentivos por meio de editais, mas estamos lutando para mudar essa visão”
Simone Paulon
Aluna de Saúde Coletiva da Universidade, Lara Yelena Werner Yamaguchi atua como bolsista da clínica e relata que está sendo o projeto mais horizontal em que ela já participou, com a sororidade como uma prática política. Para a acadêmica, essa aproximação com a Psicologia tem fornecido muitas ferramentas para a formação de sanitaristas. “O projeto toma essa questão do feminismo não como algo apenas emergente, mas urgente, tanto academicamente como na vida. A questão de politizar essa mirada sobre a violência é muito importante”, afirma.
Conforme a estudante, mais do que olhar o projeto pelo número de atendimentos, é preciso ver o quanto esse espaço de escuta e de elaboração da vivência da violência melhora a saúde mental das mulheres, impedindo que aquelas com ideação suicida atentem contra a própria vida, por exemplo.
“Não é fácil assimilar todas as formas de violência. Um tapa na cara é inegável, mas como a violência psicológica opera? Que consequências ela tem? Se dói, é porque tem violência, mesmo que ainda não saibamos nomear. Não são só os tipos listados na Lei Maria da Penha.”
Lara Yelena Werner Yamaguchi
Além do eixo dos atendimentos, o projeto também trabalha com o de comunicação, fornecendo informações sobre violência de gênero nas redes sociais, e ainda está organizando um curso de extensão. “Ele faz parte do nosso terceiro eixo, a formação, que foi atropelado pela pandemia. Íamos começar com esse estudo para depois partir para os atendimentos”, explica Simone.


Encontros filosóficos trocaram destinos itinerantes pela internet
Criado em 2016 no Câmpus Litoral Norte, o projeto “Tertúlias: integrando UFRGS Litoral e comunidade através de arte, cultura, ecologia, educação e filosofia” realizava mensalmente encontros presenciais itinerantes pelos municípios da região, em locais que iam de pubs, confeitarias e cafés até escolas e salões paroquiais. A atividade, que acabou se consolidando como um espaço de discussão sobre temas atuais e profundos com a comunidade, teve de ser adaptada para o meio digital com a pandemia.
Conforme a coordenadora do projeto, a professora Rejane Schaefer Kalsing, as tertúlias agora passaram a ser realizadas de 15 em 15 dias em forma de lives no Facebook. “Presencialmente, ficávamos limitados ao número de pessoas que cabiam nos locais, como 30 ou 50, em geral. Na internet, já estamos com 2 mil visualizações e há pessoas acompanhando de fora do estado e do país”, relata.
Produtor rural de Osório, Francisco Antônio Viveiros dos Reis participou da primeira tertúlia e já perdeu a conta de quantas mais assistiu. Interessado pelos temas filosóficos e ambientais, afirma que agora tem tido dificuldade para acompanhar os encontros devido à má qualidade da internet, mas segue ligado ao projeto.
“Me formei pela UFRGS e sempre tive comigo a função social que a universidade pública tem, e a extensão é essencial para isso. O Tertúlias oferece discussões muito diversas, tem esse componente de quebrar barreiras do racismo, do sectarismo, dos pensamentos desiguais e pré-julgadores. É um espaço muito incrível, que proporciona a formação de redes”
Francisco Antônio Viveiros dos Reis
Professor da rede pública, Eduardo Luís Ruppenthal também participa do projeto desde a primeira edição e perdeu as contas de quantas tertúlias acompanhou. “Participo motivado pela essência do projeto de levar a Universidade para além de seu muros e pela troca de conhecimento, de ideias e de reflexões”, conta o morador de Osório.
No ano passado, Eduardo também teve a experiência de ser palestrante em um encontro sobre o impacto do uso dos agrotóxicos. Neste ano, relata que sente saudades das reuniões presenciais, mas que segue participando de forma on-line. “Acompanho quase todas ou assisto depois. Que bom que continuaram via internet e não pararam durante a pandemia”, comemora.
Para o futuro, Rejane conta que o projeto pode ter um modelo híbrido, aliando as tradicionais trocas presenciais com as digitais. “Tenho pensado sobre isso, em como integrar essa audiência de outros estados e países quando pudermos voltar a nos encontrar presencialmente. Há alternativas, como transmitir os encontros ao vivo ou alternar edições presenciais com on-lines”, explica.






