As caras da UFRGS | Professor da Geografia elabora sua experiência de vida e de estudo a partir de visitações a diferentes locais
*Foto: Marcelo Pires/JU
Roberto Verdum nasceu no dia 28 de outubro de 1961 na cidade de Lagoa Vermelha. Coincidentemente, menos de vinte anos antes de seu nascimento, a data havia sido determinada como dia do Servidor Público e, quase trinta anos depois de seu nascimento, ele também se tornaria um servidor público ao começar a dar aulas no curso de graduação em Geografia da UFRGS.
Embora tenha nascido em Lagoa Vermelha, ele diz que “a referência é só na carteira de identidade, porque de relações e amizades lá não tem nada”. Isso porque se mudou com apenas três meses para Porto Alegre, onde cresceu e ainda reside. Roberto conheceu a cidade em que nasceu já adulto. “Como eu sou professor de Geografia, então o contexto geo-histórico para mim é fundamental. Eu não podia deixar de ir e conhecer e de até buscar referências.”
Ao relatar sobre sua vivência na capital, ressalta que foi muito agradável viver em Porto Alegre, mas a cidade de sua infância e adolescência não é a mesma de hoje. Atribui isso às mudanças que a cidade sofreu com o aumento da urbanização e também – diz enquanto sorria – com o envelhecimento dele. Lembra que era possível tomar banho no Guaíba e que havia mais vida noturna. Ainda rememora sobre o clube que faz parte desde a infância: o Grêmio Náutico União, onde costumava passar os fins de semana. Hoje em dia ele não se sente tão confortável na capital gaúcha: o medo constante de ser assaltado e da violência o desagradam, “me adaptei e me adapto a essa situação até hoje, mas já deu”.
Ir de Lagoa Vermelha para a capital e da capital para visitar a cidade natal não foram suas únicas viagens; Roberto já esteve em muitos lugares. Entre os países que visitou, estão Espanha, França, Bolívia, Peru e Marrocos. É dessa forma que ele cria sua própria geografia, vendo e interagindo com diferentes pessoas, locais e culturas.
“Eu penso que eu tenho, assim, no DNA, essa coisa de um viajante”
Roberto Verdum
Na volta de uma viagem, percebeu que queria estudar Geografia. Na época, cursava Engenharia Mecânica na UFRGS; anteriormente havia feito um curso técnico em Mecânica e trabalhado na área. Porém os debates climáticos e ambientais em pauta nos anos 80, período em que ingressou na UFRGS, chamavam a atenção dele. Esse interesse fez com que participasse de debates como os da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).
Após férias fazendo um “mochilão” com um amigo, em que cruzaram o Brasil e a Bolívia e foram até o Peru, percebeu que o curso de Engenharia não era o que queria. Diz que, à época, pensou que a área da Geografia teria um impulso em função do debate ambiental: não tinha bola de cristal, brinca, mas estava certo.
Após finalizar a graduação em Geografia, prestou concurso para professor na UFRGS e passou em primeiro lugar. Em 1992, foi para a França, onde fez mestrado e doutorado. Ao voltar para o Brasil, passou a atuar também nos programas de pós-graduação de Geografia e Desenvolvimento Rural.
A ida de Roberto para a França precisou de um pouco de insistência. Ele aproveitou a visita de um professor da Université de Poitiers à UFRGS para apresentar suas ideias de pesquisa. Esse professor o instruiu a procurar Roger Lambert, docente na Université de Toulouse. Roberto enviou uma carta para Roger, mas, sem obter retorno, ligou para a universidade. Passaram-lhe o telefone da casa do professor. Mesmo achando invasivo, Roberto ligou diretamente para Roger, que aceitou orientá-lo.
Roberto partiu para a França no dia 12 de outubro de 1992. Chegou sem um local para ficar ou conhecer alguém. Após se hospedar em um hotel, descobriu onde ficava o consulado brasileiro em Toulouse, composto por uma única pessoa, e foi até lá pedir informações sobre onde ficar – eram outros tempos, não existia internet. Quando saiu do consulado com o contato de uma imobiliária em mãos, conversou com um casal que passava por ali. Foi por meio da indicação desses dois desconhecidos que encontrou o apartamento no qual passaria dois anos e meio, quase metade de sua estadia em Toulouse.
Além de professor e pesquisador, Roberto é pai de dois filhos, um de 25 e uma de 2 anos. “Então eu tenho a felicidade de ter agora duas referências no mundo que representam duas gerações.” Também ressalta a importância de seus próprios pais, ponto inicial na sua trajetória, que o apoiaram a seguir estudando e, mesmo um pouco contrariados, aceitaram a mudança de curso.
Ao fim de nossa conversa, Roberto, que estudou em escola pública a vida inteira, parabeniza a UFRGS pelo aniversário e ressalta a importância da rede pública de educação:
“Grandes parabéns à Universidade pelo trabalho, a dedicação dos colegas que me antecederam, e também que a gente possa entregar pro futuro, para os futuros docentes e discentes, para os colegas técnicos também uma Universidade cada vez melhor. Então a resistência dos colegas de manterem o que a gente conhece como a UFRGS hoje e o trabalho que a gente faz também para qualificá-la são muito importantes. Porque isso deveria ser uma política de estado: manter a escola pública, manter a universidade como espaço de oportunidades às pessoas. E não de elitização de oportunidades”
Roberto Verdum






