Bem-estar | A psicóloga Thaís Sarmento aponta a importância de espaços coletivos de sensibilização sobre saúde mental para construir uma cultura de cuidado e respeito
*Foto: Escultura “Behind the Walls”, de 2018, em resina de poliester e pó de mármore, com dimensões de 750 x 278 x 310,
do artista espanhol Jaume Plensa, instalada em frente ao Museu da Universidade do Michigan,
em Ann Arbor, Michigan, EUA. (Arquivo Flávio Dutra, 12/01/2025)
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde como um estado de completo bem-estar biológico, psicológico e social. Como eu costumo dizer, a gente precisa fazer “vista grossa” para a tal “completude”. Afinal, isso é realmente inalcançável e hoje em dia não se defende que devemos ter um bem-estar pleno para termos saúde.
Na verdade, um dos maiores méritos dessa concepção é oferecer uma definição positiva da saúde, tratando-a como algo mais complexo do que a mera ausência de doenças e tirando a centralidade do saber biomédico. Na perspectiva da OMS, aspectos biológicos, sociais e psicológicos interagem de forma complexa e têm o mesmo grau de importância.
O mundo do trabalho é um bom exemplo a esse respeito. Pense o seguinte: quanto tempo você gasta em deslocamento? Você recebe uma remuneração justa? Você está exposto a situações insalubres ou perigosas? Você tem direito a férias remuneradas, licença saúde, aposentadoria e seguro-desemprego? Como são as relações interpessoais? As condições de trabalho são compatíveis com as demandas? Essas perguntas abordam alguns dos aspectos do trabalho que impactam nosso bem-estar físico e mental.
No caso específico da saúde mental, os manicômios nos mostram a importância das práticas sociais e dos paradigmas de conhecimento predominantes. Por muito tempo, pessoas com transtornos mentais foram isoladas da sociedade e mantidas em instituições em que permaneciam por longos períodos (às vezes pela vida toda!), e suas necessidades, aspirações e anseios eram ignorados.
Hoje em dia, considera-se que esse tipo de prática constitui uma forma de violação de direitos humanos e contribui para o agravamento e a cronificação dos problemas de saúde mental. No Brasil, preconiza-se que o cuidado em saúde mental deve promover a inserção social e priorizar serviços de base comunitária. As internações, quando necessárias, devem ocorrer pelo menor tempo possível, e as instituições devem oferecer cuidados integrais com suporte social, lazer, atividade física, etc.
Perceba que o debate sobre a saúde e a saúde mental remete ao desenvolvimento do conhecimento científico e das tecnologias de cuidado, ao papel do Estado e às dinâmicas sociais como um todo. Embora as características e os comportamentos individuais sejam importantes, a saúde resulta de uma realidade mais ampla. Esse entendimento é fundamental quando falamos da saúde mental na universidade!
Segundo a OMS, saúde mental é um estado de bem-estar no qual o indivíduo percebe suas próprias competências, podendo lidar com o estresse normal da vida, trabalhar eficientemente, sendo capaz de contribuir com o coletivo. Mesmo sendo um bom conceito em termos gerais, precisamos ficar muito atentos para não cairmos em algumas armadilhas!
Você saberia dizer de que forma podemos medir o “estresse normal da vida”? Sem dúvida, há muitas discussões acadêmicas e filosóficas possíveis acerca desse ponto. Todavia, importa reconhecermos que, no convívio cotidiano, tomamos como “régua” elementos da cultura e do contexto social dos quais fazemos parte. É aí que mora o perigo!
As universidades são marcadas pela alta competitividade, pelo excesso de cobranças, pela pressão por produtividade e pela individualização excessiva. O assédio moral, o capacitismo e as violências relacionadas a gênero, orientação sexual e raça também são práticas comuns. A meritocracia desconsidera as trajetórias e os contextos das pessoas, exigindo de todas na mesma medida, a despeito das desigualdades existentes. Se julgarmos o “estresse normal da vida” a partir desses aspectos, podemos facilmente considerar normais e aceitáveis processos altamente tóxicos. A decorrência disso é culparmos as pessoas que sucumbem diante das pressões, responsabilizando-as individualmente pelo próprio sofrimento.
A saúde mental é complexa e multideterminada. Consequentemente, é um engano atribuir à universidade a responsabilidade plena por todo o sofrimento vivido por estudantes e trabalhadores. É igualmente equivocado negar, entretanto, que essa realidade pode ter um impacto negativo em nossas vidas. Não se trata de ignorar que existem vulnerabilidades individuais e que cada pessoa reage de forma diferente a um mesmo contexto.
O ponto que quero destacar é que frequentemente temos colocado uma carga excessiva na conta dos indivíduos e negligenciado a reflexão crítica sobre o entorno.
A universidade coloca trabalhadores e estudantes diante de uma ampla gama de experiências boas e ruins. Quando estamos enfrentando um processo de sofrimento mais intenso, pode ser difícil elaborar estratégias para lidar com as dificuldades ou reconhecer e usufruir dos pontos positivos do contexto.
Além disso, para a maioria de nós, é contraintuitivo pensarmos na saúde mental como uma produção social. Sem contar que não é nada fácil construir sozinho um raciocínio crítico que faça frente às lógicas estabelecidas. Por isso, a difusão de informações sobre saúde mental e a oferta de espaços de reflexão coletiva são fundamentais para construir uma cultura de cuidado e respeito.
Ora, se temos uma problemática social e coletiva, é no coletivo e no social que teceremos linhas de fuga rumo a uma universidade mais acolhedora e humanizada. Por essa razão, são tão importantes as iniciativas de escuta a grupos de estudantes e trabalhadores e a realização de ações de formação sobre saúde mental voltadas a todos. O caminho certamente não é simples nem curto. A esperança, a aposta na potência transformadora do coletivo e o suporte de uma gestão institucional sensível e atenta a essas questões são indispensáveis!
Thais Ferrugem Sarmento é psicóloga e mestre em Psicologia Social e Institucional (UFRGS). Trabalha na Divisão de Promoção da Saúde Discente (DPSD/PRAE/UFRGS).
Quinzenalmente, profissionais de diversas áreas ligados à UFRGS escrevem sobre nutrição, saúde, cotidiano e outros temas ligados a bem-estar. A seção tem curadoria de Fabiana Tanabe e Stéfani Schneider.
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.





