Meu Lugar na UFRGS | Apresentadora do segundo programa mais antigo da Rádio da Universidade fala sobre sua trajetória
*Foto: Reprodução/UFRGS TV
Pintor que pintas tu tierra,
si quieres pintar tu cielo,
cuando pintas angelitos
acuérdate de tu pueblo
y al lado del ángel rubio
y junto al ángel trigueño,
aunque la Virgen sea blanca,
píntame angelitos negros.
– Trecho de “Píntame angelitos negros”, de Andrés Eloy Blanco
Ao recitar alguns trechos do poema de Andrés Blanco, a servidora técnica Silvia Secrieru explica que a Venezuela, seu país de origem, assim como toda a cultura latina, é uma mistura de diferentes povos. A forte ligação dela com a cultura latino-americana está presente ao longo de todo o seu relato.
Os pais de Silvia são de origem romena; o irmão mais velho nasceu na Áustria; ela e os demais irmãos nasceram na Venezuela, lugar para onde a família emigrou após a Segunda Guerra Mundial. Em 1964, quando ela tinha 12 anos, vieram para o Brasil.
Desde jovem, Silvia estudava sobre os países falantes de espanhol; quando se mudou para o Brasil, passou a pesquisar e estudar sobre o lugar. Ela conta que era comum os alunos imigrantes nos anos 70 realizarem encontros de trocas culturais: “o pessoal que vinha estudar aqui se integrava também na cultura, eu me integrei na cultura. Pela curiosidade, eu busquei conhecer onde eu estava, o que havia aqui no meu entorno”.
Silvia e a UFRGS
O primeiro vestibular de Silvia foi para o curso de Agronomia, “ainda que a comunicação [estivesse presente] desde cedo. Eu sempre estava mexendo, copiava nome de músicas ou letra de música e fixava nos murais do colégio. Então, já tinha por aí algo”. Silvia acabou não entrando em Agronomia, nem em Administração, que foi sua segunda tentativa. Na terceira vez que fez o vestibular, ingressou em Relações Públicas na PUCRS.
Em 1974, ela começou a trabalhar na Faculdade de Odontologia da UFRGS, onde passava o dia antes de ir para as aulas na PUC. Apesar das dificuldades para trabalhar, estudar e pagar uma universidade, ela afirma que “era a forma de realmente eu ir atrás do que eu queria, consciente ou inconscientemente”.
Foi no curso de Relações Públicas que Silvia conheceu a professora Iara Bendati, que na época também era chefe de jornalismo na Rádio da Universidade da UFRGS. Seria Iara quem, em 1985, solicitaria que Silvia trabalhasse na Rádio da Universidade após ter passado em um concurso de nível superior.
Para ela e outros colegas que atuaram na rádio, “não tinha essa de ‘terminou meu horário, vou-me embora’”. Ela conta que assistia a filmes em horários fora de expediente para produzir programas sobre eles. Outra vez, quando administrava a Rádio e trabalhava na programação, acabou ficando no prédio até a madrugada, sem perceber. Não havia mais ninguém no local, e ela só conseguiu sair porque, na época, o entorno do câmpus não era gradeado.
O carinho pela Rádio é nítido em suas falas:
“Eu gosto do meu trabalho, eu gosto de onde estou”
Silvia Secrieru
A América Latina toma espaço na Rádio da Universidade
Silvia explica que nos anos 60, 70 e em parte dos anos 80, diversos países da América Latina buscavam criar identidades musicais próprias, ao mesmo tempo que as exportavam para outros países. Nessa época, diversos músicos de países latino-americanos vinham para o Rio Grande do Sul. Foi por causa dessas movimentações que o programa Latinidade foi criado; hoje ele é o segundo mais antigo da Rádio da Universidade, e foi nele que Silvia começou como produtora.
Alguns anos depois, o programa passou a ser apresentado em duas versões: uma em português e outra em espanhol, que era traduzida e apresentada por ela. Após, ela começou a fazer e apresentar o programa inteiramente em espanhol, formato mantido até hoje.
Em 40 anos de Rádio da Universidade, Silvia entrevistou muitos artistas latinos. Ela conta que uma foto tirada na Rádio com o grupo musical Los Olimareños foi publicada em uma revista na Suíça, anunciando a viagem do grupo para lá.
Em outra ocasião, entrevistou o bailarino e ator espanhol Antonio Gades, mas acabou confundindo o nome dele, chamando-o pelo nome do diretor de filme em que ele havia atuado. Silva relata que ele respondeu “no soy”; então ela parou, se corrigiu e retomou a entrevista, conversando sobre as obras em que ele havia trabalhado, a família e a vida dele. Ela diz que não lembrava muito das obras do bailarino. Ainda assim, soube que Antonio teria dito a outro jornalista que as entrevistas daquele dia foram as melhores que ele fez no Brasil, porque foram feitas perguntas diferentes.

O segredo para uma boa entrevista
Silvia afirma que, para uma boa entrevista, é preciso saber algo sobre o entrevistado e ter alguma noção de quem ele é. Porém, nem sempre seguir uma pauta é a melhor estratégia, já que às vezes os entrevistados querem apenas conversar: “tu vais falando com a pessoa e nas respostas dela tu vais encontrando ganchos que te permitem continuar descobrindo mais a seu respeito”. Para Silvia, podem surgir “belas entrevistas” ao se utilizar essa abordagem, que ela diz deixar como dica para os jovens jornalistas.
Mesmo após 50 anos na universidade, ela diz gostar de continuar “incentivando meus colegas e também os estagiários: enfrentem, façam, cresçam, porque vocês são o futuro”. Apesar de gostar do que faz, ela relata que começou a sentir o cansaço físico e mental; por isso, pretende se aposentar no próximo ano. Com muitas histórias vividas e contadas ao longo de sua trajetória, ela encerra a conversa falando: “O meu nome é Silva Maria Secrieru, meu lugar na UFRGS é aqui, na Rádio da Universidade, para onde eu vim em 1985 e onde eu vou fazer as minhas despedidas depois de 50 anos de Universidade”.





