Victor Lucena e os horizontes das Relações Internacionais

Homem jovem branco com camiseta de manga curta verde, de óculos escuros e segurando uma bengala, olha para o lado direito. Atrás dele, está o prédio de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com colunas e paredes também em tons de verde.

As caras da UFRGS | A deficiência visual jamais impossibilitou o graduando em Relações Internacionais na UFRGS de ir atrás do que quer

*Foto: Marcelo Pires/JU

“Eu tenho todo o direito de ocupar os espaços que eu quiser, independentemente da minha condição”

Victor Lucena

Para Victor Lucena, ingressar na graduação de Relações Internacionais era um desejo certo no Ensino Médio. Ao contrário de muitos colegas, que estavam incertos e inseguros quanto à escolha que fariam ao concluir essa etapa da vida, Victor nunca teve muitas dúvidas. 

O curso de Relações Internacionais é comumente associado à capacidade de falar múltiplas línguas e ao contato com diversas culturas. Victor confirma: “Em certos cargos, é mais importante saber idiomas do que ter um conhecimento teórico superaprofundado na área”. O jovem fala inglês e diz que pode melhorar seu espanhol. Começou a estudar francês recentemente, em curso oferecido a baixo custo pelo Centro Estudantil de Relações Internacionais (CERI).

Sobre o contato com outros países e culturas, Victor expressa vontade de conhecer o mundo, mas não necessariamente a trabalho. “Todo lugar tem a sua particularidade”, comenta o estudante. No entanto, exalta países de cultura não ocidental: “Eu fico pensando quando as pessoas falam que vão fazer um intercâmbio na França, Inglaterra. Acho muito legal a ideia, mas eu sei que se eu for pra lá eu vou ver uma coisa muito parecida com o que vejo no Brasil, até certo ponto. Claro, o idioma é outro, tem questões culturais, mas são países ocidentais, e o Brasil é um país ocidentalizado”.

Para além da vida universitária, o jovem diz ser fã de música e ouvir muito podcast. Apesar de gostar muito de futebol, não costuma acompanhar os jogos no estádio. O estudante argumenta: “Esse costume de ir pro estádio é muito algo que a gente traz de casa. Meu pai, além de mim, é quem gosta um pouco mais (de futebol) lá em casa, que acompanha. Não é muito fã de estádio. É mais por uma falta de costume, por não ter muito hábito mesmo”.

Na metade do curso de graduação, o estudante ainda não tem completa certeza de qual caminho seguir dentro da área de escolha, mas fala com tranquilidade da ampla gama de possibilidades. O concurso público é o que mais chama atenção de Victor no momento. Além da promessa de estabilidade, o jovem comenta o direito garantido por lei de ocupar o espaço sem ser questionado ao passar em um concurso: “Ninguém pode dizer que tu não pode estar ali. Tu passou pelo teu direito, pelo teu mérito”.

Victor nasceu com baixa visão, no entanto até os treze anos conseguia ler e escrever. Quando ficou cego, certas adaptações foram necessárias, e hoje a deficiência faz parte do seu dia a dia.

Mesmo com leis que exigem de grandes empresas a contratação de trabalhadores com deficiência, o mercado privado pode ser uma escolha mais insegura para essas pessoas. Pode acontecer do contratador considerar o aplicante menos apto em função de sua deficiência. Esse tipo de discriminação tem nome: capacitismo. 

Victor ressalta como a convivência com pessoas com deficiência (PCDs) é essencial para combater o preconceito. A partir do momento em que essas pessoas passam a ocupar os mais diversos espaços, sendo um importante deles a universidade, os outros passam a entender que a deficiência não caracteriza por inteiro o sujeito. 

“A nossa vida não gira em torno da nossa deficiência. Para que as pessoas entendam isso, o primeiro passo é que nós entendamos isso também. A gente não pode se reduzir a essa condição”

Victor Lucena

O jovem relata que foi muito bem recebido pela Universidade. Certa vez, um professor admitiu que, por nunca ter tido um aluno cego antes, não sabia bem como poderia ajudar, mas se colocou à disposição do aluno. Victor diz que exige sempre seus direitos, mas também entende o lado de muitos docentes que, mesmo solícitos, nunca tiveram aluno com deficiência.

Prova disso é que, quanto mais Victor avança na escolaridade, menos encontra outras pessoas com deficiência. Ele considera ter tido um bom ensino médio, mas aponta que essa não é a realidade de todas as pessoas com deficiência. Uma escola sem estrutura adequada pode ser fator determinante para desestimular e dificultar a vida dessas pessoas, mesmo que haja reserva de vagas para PCDs nos processos seletivos para o Ensino Superior público.

A conversa com Victor para a escrita deste perfil se deu em um café localizado no Câmpus Centro da UFRGS. Nos momentos finais, conversamos sobre como medidas de inclusão para pessoas com deficiência tornam o ambiente menos hostil para todos. Victor dá o exemplo do lugar em que estávamos: “A gente tá em um café que a gente entra subindo e descendo dois degraus. Como uma cadeira de rodas vai entrar aqui? Lembra do DAECA (Diretório Acadêmico de Economia, Contábeis e Atuarias)? Dois degraus. O CERI (Centro Estudantil de Relações Internacionais)? Tem que subir uma escada pra chegar lá, daquelas que tem uma curva”. A escada no meio do caminho dificulta não só a vida de PCDs, como pode ser um obstáculo para pessoas com mobilidade reduzida ou idade avançada. 

Apesar de ser bem recebido por colegas e professores da Universidade, o estudante comenta que “dentro da UFRGS é muito difícil de se caminhar”. Os caminhos enviesados e improvisados dos câmpus, com suas grades e problemas de segurança, são outro exemplo de como a adaptação de um espaço físico para pessoas com deficiência pode tornar o lugar menos hostil a todos, visto que essas questões também são vivenciadas, em diferentes níveis, por pessoas sem deficiência.