
Brasil: o país que mais utiliza agrotóxicos no mundo inteiro. Por consequência, os impactos desses químicos na nossa alimentação e o nível de contaminação dela fazem parte de grandes discussões na saúde pública. Mas, além dos vegetais, será possível a contaminação de alimentos de origem animal?
Vimos no texto “Agrotóxicos:algumas reflexões” que, entre os vegetais mais contaminados, o pimentão, o morango e o pepino estão, respectivamente, nos três primeiros lugares de contaminação, sendo seguidos por alface, cenoura e abacaxi. Além disso, agrotóxicos também são usados em larga escala nas culturas de soja, milho, cana, cítricos, café, arroz, trigo, feijão… a lista é longa. Com base nessas informações, podemos inferir que, salvo aqueles que consomem produtos orgânicos, a base da alimentação do brasileiro está praticamente toda envenenada.
Ademais, engana-se quem pensa que a contaminação ocorre apenas pelo consumo de vegetais. As carnes e os outros produtos de origem animal também podem conter níveis de agrotóxicos. Isso decorre do processo de formação de poluentes orgânicos persistentes (POPs) ou de substâncias tóxicas persistentes, moléculas estáveis – ou seja, dificilmente destrutíveis – que permanecem no ambiente mesmo depois do uso para o qual foi destinado. Dessa forma, os agroquímicos são capazes de se fixar no ambiente, podendo contaminar o ar e a água por meio desses POPs, os quais são facilmente transportados para longas distâncias por esses meios.
Além disso, essas substâncias são consideradas perigosas por suas características de persistência, de lipossolubilidade, de dificuldade de degradação, e de bioacumulação, a qual ocasiona efeitos adversos para a saúde e para o meio ambiente. A bioacumulação é o somatório de dois processos: a bioconcentração e a biomagnificação. Esta se refere à acumulação de uma substância no conjunto de todos os seres vivos de uma região, em toda a extensão da cadeia alimentar por meio da alimentação; aquela, ao processo que gera o aumento da concentração de substâncias químicas em organismos aquáticos, em relação à sua concentração na água.
Por conta desses processos, a concentração de poluentes nos animais aumenta na direção do topo da cadeia alimentar. Isso quer dizer que, quanto mais alta a posição na cadeia alimentar do organismo, pior será a sua contaminação, pois, pela característica de afinidade com as gorduras, os POPs vão se acumulando à medida que um ser vivo consome o outro. A exposição dos seres humanos aos POPs se dá pela alimentação, pela água, pelo ar, pelo solo e pelas condições de trabalho. Alimentos gordurosos como a carne, o peixe e os laticínios podem conter POPs contaminantes, oriundos de resíduos de agrotóxicos utilizados na produção de ração, por exemplo.
A ação dos POPs na saúde se dá pelo comprometimento do sistema imunológico dos organismos. Eles podem imitar hormônios, interferir no sistema endócrino e afetar a fertilidade de seres humanos e de outros animais, causando também tumores, cânceres, anormalidades comportamentais e maior incidência de má-formação fetal. Sendo assim, é fundamental que a humanidade reflita sobre suas ações e suas consequências para a sua saúde e a do meio ambiente, a fim de tentar frear a poluição causada pelos agrotóxicos no nosso planeta.
O consumo de comida também deve ser repensado, principalmente, na questão da glamourização da proteína animal em algumas regiões do Brasil. O Guia Alimentar para a População Brasileira, em sua 2ª edição, traz a recomendação de fazer dos alimentos in natura e minimamente processados a base da nossa nutrição, dando preferência àqueles de origem vegetal de forma objetiva. Inclusive, já existem inúmeros estudos sobre os benefícios à saúde ao diminuir a quantidade de carnes da nossa alimentação.
Além disso, se possível, dar preferência a alimentos produzidos por pequenos produtores – praticantes da agricultura ecológica e orgânica – também pode ajudar a manter nosso planeta e nosso corpo mais saudável. Se você não possui uma feira ecológica perto de sua casa, quem sabe não é o momento de reivindicar por uma em sua prefeitura? O nosso interesse é fundamental para que o poder público e os produtores identifiquem a necessidade de ampliar o mercado justo de alimentos saudáveis para todos os cidadãos.
Fabiana Tanabe
Nutricionista – CRN2 9727
.
Referências
Brasil. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2ª edição, 1ª reimpressão. Brasília: Ministério da Saúde, 2015.
Carneiro, Fernando Ferreira (Org.) Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde / Organização de Fernando Ferreira Carneiro, Lia Giraldo da Silva Augusto, Raquel Maria Rigotto, Karen Friedrich e André Campos Búrigo. – Rio de Janeiro: EPSJV; São Paulo: Expressão Popular, 2015.
Frota, MTBA, Siqueira, CE. Agrotóxicos: os venenos ocultos na nossa mesa. Cad. Saúde Pública 2021; 37(2):e00004321





