Nutricionismo é o termo, cunhado pelo autor Gyorgy Scrinis, que reúne reducionismo e nutrição em uma só palavra. O livro do cientista foi traduzido para o português e lançado no Brasil apenas em maio de 2021, mas, antes disso, já era referência para grandes estudiosos de alimentação e nutrição pelo mundo. Vamos tentar entender como o nutricionismo afeta as nossas vidas e as nossas escolhas alimentares?
Quem nunca se deparou com anúncios de produtos alimentícios com chamadas do tipo “baixo em calorias”, “fonte de vitamina C”, “rico em ômega-3”? Todas essas abordagens derivam da visão reducionista em nutrientes que nossa alimentação tem se pautado desde meados do século passado. Segundo Scrinis, o nutricionismo se divide em eras ao longo dos anos. Atualmente, vivemos a era do nutricionismo funcional, em que as pesquisas e comunicações sobre nutrição focam em nutrientes e alimentos que possuem alguma funcionalidade benéfica para o nosso organismo.
Uma das grandes questões levantadas pelo autor é que, de modo geral, hoje, as pessoas deixaram de se alimentar se baseando somente nos alimentos disponíveis na sua região em cada época do ano. Perdeu-se o costume de comer frutas, verduras, arroz e feijão. O que está na moda são termos gluten free, low carb, whey protein e é com base nessas expressões que muitos indivíduos se pautam para escolher o que vão colocar em seus pratos.
Outro exemplo que podemos citar é o do ovo. Até as primeiras décadas do século XX, o ovo era um alimento celebrado por ser de baixo custo e conter proteína, o que, na era do nutricionismo quantificador ou protetor, era muito importante, principalmente para alimentar as classes trabalhadoras. O objetivo naquela época era fornecer a cota calórica e de nutrientes necessária para os operários executarem bem o seu trabalho sem ficar doentes, e, dessa forma, o foco em valor calórico da dieta e quantidade de proteína da alimentação eram fatores cruciais. Por conseguinte, frutas e verduras, consideradas caras e de baixo teor proteico e calórico, foram desencorajadas.
Os anos foram passando, e essa era do nutricionismo também. Por volta da década de 1970, já na época do nutricionismo “bom versus ruim”, o foco das pesquisas apontava para os malefícios de alguns nutrientes na causa de doenças do coração, por exemplo. Nessa fase, a gordura começou a ser largamente criticada nas dietas e, dessa forma, o ovo, outrora queridinho, também entrou na lista de alimentos a serem evitados pelo seu teor de colesterol. Novos produtos foram desenvolvidos para substituir a gordura saturada e, dessa forma, a margarina ganhou espaço na mesa dos consumidores, tomando lugar da tradicional manteiga. No afã de suprir as demandas do nutricionismo vigente nesse período, a indústria criou a gordura trans, supostamente mais “saudável” por ser de origem vegetal, e que, anos mais tarde, mostrou-se como pior que a própria gordura saturada… É o verdadeiro “o mundo dá voltas”.
Continuemos com a saga do ovo… Atualmente, como já foi dito, vivemos a era do nutricionismo funcional. As pesquisas avançaram e deram mais uma chance ao ovo na nossa alimentação: por ser fonte de proteína de alta qualidade, ômega-3 e colina, saiu da lista dos produtos a serem evitados para entrar em outra, a de super alimentos. Sim, é muito confuso, e seria engraçado se não fosse real. Outros exemplos são a valorização de certas vitaminas e minerais para funções específicas na nossa saúde – quem lembra da propaganda que foi feita em prol do zinco e da vitamina D no fortalecimento da imunidade contra a covid-19?
Por isso que salientamos: não se deixe levar por notícias sensacionalistas de alimentos ou nutrientes que, sozinhos, possam trazer a cura das doenças ou a prevenção do câncer ou até da covid-19. Nenhum alimento ou nutriente isolado tem esse poder. Os cientistas devem, sim, continuar com as suas pesquisas, mas sempre precisamos ter em mente que nossa alimentação se dá pelo conjunto de fatores sociais, biológicos, psicológicos, econômicos, ambientais e etc. Nesse caso, o melhor a se fazer é seguir a regra de ouro do Guia Alimentar para a População Brasileira, que diz: ”prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados”. Ou seja: coma comida, de preferência feita em casa, com frutas e verduras frescas e da época. Pode ficar tranquilo que grande parte das nossas necessidades nutricionais serão atendidas se a sua alimentação seguir essa regra.
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Fabiana Tanabe
Nutricionista – CRN2 9727
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Referências
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed., 1. reimpr. – Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
SCRINIS, Gyorgy. Nutricionismo: a ciência e a política do aconselhamento nutricional. São Paulo: Editora Elefante, 2021






2 Comentários
Parábens pela postagem! Realmente esclarecedor o texto, exemplificado de forma simples e bem explicativa. Nota dez!
Ótimo texto, muito oportuno.
Vivemos momentos de crenças e enganos no passado, à respeito de nutrição e dietas.
Agora é hora de tomarmos muito cuidado e cautela com propagandas enganosas que prometem milagres e que na verdade são só pra ganhar likes.