EDUCAÇÃO EM CULTURAS E ARTES VISUAIS, MÍDIA E TECNOLOGIAS

O Projeto MEDIUM é uma ação de extensão vinculada ao Departamento de Artes Visuais do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenada pela Profa. Paula Mastroberti. O Projeto fundamenta-se nos princípios da educação midiática (Ismar de Oliveira Soares, Evelyne Bévort e Maria Luiza Belloni, David Buckingham), e objetiva usar os recursos da comunicação para promover o uso consciente e o pensamento crítico sobre a produção e o usufruto de mídias culturais, em seus aspectos éticos e estéticos, e divulgar práticas educativas em artes visuais junto a professores e demais interessados.

Atualmente, o Projeto MEDIUM está incorporado na Disciplina Educação Midiática em Culturas e Artes Visuais, uma atividade de ensino do Curso de Licenciatura em Artes Visuais. A partir dos estudos e planejamentos realizados na disciplina, a equipe disciplinar desenvolve projetos educativos variados, implementando-os em escolas ou outros locais parceiros, na cidade de Porto Alegre (RS).

Por caracterizar-se como Extensão, o Projeto MEDIUM prevê integração entre universidade e comunidades em situação educativa. Fundamentalmente, procuramos cumprir a Lei de Diretrizes e Bases n. 9394 e a Base Nacional Comum Curricular, que destacam a importância do conhecimento em mídias e tecnologias desde os primeiros anos de formação. Porém não perdemos de vista as práticas culturais e artísticas midático-visuais, entendendo-as como parte essencial desse conhecimento que implica valores estéticos e éticos na criação, aproveitamento e leitura das imagens midiatizadas e tecnologizadas.

Para isso nos apoiamos nos estudos da Cultura Visual e Midiática (Fernando Hernandez, William J. T. Mitchel, Mark Coeckerberg, entre outros), e procuramos trazer esses conhecimentos para os ambientes educacionais de modo a compreender e dialogar com os contextos socioculturais de crianças e adolescentes, em sua interação espontânea com mídias e tecnologias. Nosso principal objetivo é sensibilizar e educar, através da arte, para um pensamento sensível, crítico e consciente sobre seus usos e apropriações, e contribuir para a formação de um imaginário qualificado do ponto de vista ético e estético, sobre os fenômenos que envolvem a produção e a veiculação da cultura midiática visual.

Paula Mastroberti

Coordenadora Geral

A turma de 2022 na 13a Bienal do Mercosul (Instituto Caldeiras, Porto Alegre, RS), diante da obra “Gravitas”, de Bruno Borne. Foto de Paula Mastroberti.

VAMOS FALAR SOBRE IA?

Trabalhos do grupo de escolares atendidos pelo Polo SIR/Jean Piaget. Arquivo do Projeto.

Em 2025, todas as ações do Projeto MEDIUM foram direcionadas para aprofundar conhecimentos sobre Inteligência Artificial, suas repercussões na arte e na educação, nos valores éticos e estéticos tanto dos estudantes universitários, quanto dos escolares. Entre as ações, encaminhamos um formulário de pesquisa para saber o que pensam os participantes escolares do SIR sobre IA, sobretudo em suas relações com a criação artística. Cinco responderam às questões: duas meninas, uma de 13, outra de 12 anos, e e dois meninos de 14 anos e um menino de 9 anos.

  1. Primeiramente, perguntamos o que pensam sobre Inteligência Artificial. Entre as respostas, temos:

2. Em relação à pergunta “Você usa IA? Para quê ou quando usa?”, dois responderam que não usam, e uma menina respondeu que usou uma vez, por curiosidade. Outras respostas foram:

“Sim, para fazer texto, pedir ajuda em algo entre outras coisas” (Menino de 14 anos.)

“Eu uso a IA para: ver quando novas temporadas das minhas séries vão ser lançadas, para, dicas de skin Care, moda e conversar.” (Menina de 12 anos)

“Sim, para criar imagens.” (Menino de 9 anos)

3. Sobre se sabem distinguir uma imagem gerada por IA de imagens criadas por humanos, a maioria respondeu afirmativamente, explicando que “as imagens e vídeos feitos por IA sempre mostram alguns erros ou nem parece muito com a realidade”; que “A IA tem muita luz enquanto a foto real não tem tanta luz” (menino de 9 anos), ou, ainda, “quando a imagem é mt perfeitinha, ou quando tem algum bug” (menina de 13 anos).
4. Com relação ao uso de dados estéticos (imagens humanas) para treinamento de IAs, a maior parte considera que não é correto se apropriar de imagens alheias, mas que “cada pessoa vê isso de um jeito diferente”. Uma menina de 12 anos respondeu “Sim, IA consegue pegar fotos e modificar, não acho isso errado mais [sic] nem acho correto”.

5. À pergunta “Você acha que a IA ajuda ou atrapalha a criatividade? Por quê?”, temos as seguintes respostas:

“Bem, você pode pedir a ela fazer um personagem; ela faz em escrito, isso atrapalha a criatividade de criar um personagem. Mas se você pedir a ela desenhar algum personagem ela vai pedir características dele e aí você tem que ter a criatividade pra criar.” (Menina de 12 anos)

“Atrapalha. Porque precisamos desenvolver mais a criatividade sem utilização de certos mecanismos que tira do humano e passa para máquina.”

“Pode atrapalhar, porque ela cria imagens prontas e facilita,faz a pessoa não pensar e explorar a sua criatividade.” (Menino de 9 anos)

“Pode ajudar, mas tbm pode fazer vc nn [não] usar sua criatividade.” (Menino de 14 anos.)

“Não acho que ajuda muito dependendo de como usa.” (Menino de 14 anos)

“Ajuda, pois pode dar referências legais.” (Menina de 13 anos)

6. Por fim, a última questão se refere aos usos de IA no estudo ou no trabalho. A esta pergunta, as opiniões também foram variadas:

“Sim e nao, as vezes da respostas erradas, mas pode ser bem util em textos.” (Menino de 14 anos.)

“Sim, podemos usar ela para entendemos melhor matérias, fazer resumos, inclusive eu tenho uma IA professora, ainda não tive oportunidade de usá-la, mais aparentemente ela é bem útil.” (Menina de 12 anos.)

“No trabalho talvez, mas no estudo depende de como vai usar se vai usar pra trapacear ou estudar.” (Menino de 14 anos)

“Não acredito que possa ajudar. Acho que prejudica e muito principalmente nos estudos.”

“Pode,ela ajuda mais atrapalha também.” (Menino de 9 anos.)

“Pode, mas não é o correto.”

PRODUÇÃO DE DOODLES NO PORTAS ABERTAS

O Evento Portas Abertas ocorre anualmente na UFRGS para receber estudantes de Ensino Médio prestes a passar pelos processos seletivos para ingressar na Universidade. Há dois anos, temos oferecido uma atividade aos interessados nos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Artes Visuais, em que, ao mesmo tempo em que conversamos sobre as modalidades artes ilustrativas, quadrinhos, desenhos animados e jogos digitais, propomos que desenhem doodles (desenhos feitos livremente, de forma espontânea e automática).

(Doodle de Manoela Turra)

A atividade chama-se “Arte em sequência: ilustração, quadrinhos, animações e jogos digitais” e é oferecida pela Coordenadora do Projeto Medium, Paula Mastroberti. Ela inclui depoimento de estudantes de Artes Visuais que se dedicam a essas modalidades de expressão.

Geralmente, os doodles ocupam as mãos daqueles que gostam de desenhar enquanto prestam atenção a uma aula expositiva, a uma palestra ou a alguém que está falando. Nós nos servimos dessa estratégia para tentar coletar, enquanto falamos sobre nossas atuações, o que se passa no imaginário dos adolescentes e qual a possibilidade de surgirem, nesses grafismos, figuras, elementos ou ícones presentes na cultura midiática. E meio aos desenhos, muitos estudantes acabaram incluindo pequenas frases ou anotações sobre o que pensam em relação a escolha pelas artes visuais.

Seguem aqui algumas produções (recortes parciais ou totais) de quem participou do Portas Abertas de 2024.

Matheus Minuto

ENTREVISTAS NO SIR EM 2024

USO DE CELULARES E OUTROS DISPOSITIVOS POR ESCOLARES

Mangá Darwin’s Game. FLIPFLOPs, 2020.

O questionário foi proposto aos estudantes que atendemos na Sala de Inclusão e Recursos, mas contamos apenas com 5 participantes, de idade entre 12 a 14 anos, todos declarados do sexo masculino. Com as enchentes, não pudemos dar continuidade a esta pesquisa.

Todos tem celular próprio, e usam principalmente para conversar com amigos via aplicativos de mensagem. Em segundo lugar, usam para acessar redes sociais, jogar, ouvir música, fotografar e filmar. Alguns assistem a filmes, usam para obter informações ou, eventualmente, telefonar.

Os aplicativos mais citados foram, na ordem de preferência: YouTube (3), Instagram (3), Whatsapp (2), TikTok (2). Apenas um cita o Facebook. Entre os jogos disponíveis em celular aparecem: Roblox, Rocket League, Forza Horizon, Minecraft, Free Fire.

A maioria reconheceu que usa mais tempo do que deveria. Entre as justificativas, temos: “Eu sei que tenho que fazer outras coisas, mas me distraio”; “Eu vejo muito Tik Tok e perco a noção do tempo”. Todos acreditam que o excesso de uso de celular pode prejudicar a saúde física e mental:

Um dos meninos (14 anos) declarou: “Eu posso ficar mais irritado e ansioso, posso ter algum problema com depressão”. Outro (13 anos) afirmou que sente “na visão, dores de cabeça”, e outro (14 anos) respondeu que “no máximo me deixando um pouco cansado”.

ENTREVISTA COM CRIANÇAS E JOVENS DO SIR

Imagem do mangá Pumpkin Night, uma das distrações favoritas dos entrevistados. Fonte: Amino, site de fandoms. Disponível em https://aminoapps.com/c/terroramino_pt/page/blog/pumpkin-night/j0v5_deVCKuJaXa0mm6drpzV2lK3QmPZ1n0

Em julho de 2023, o Projeto Medium realizou uma entrevista com 12 crianças e jovens que frequentam os pólos SIR (Sala de Inclusão e Recursos) das escolas municipais Jean Piaget, Lauro Rodrigues e Liberato Salzano Vieira da Cunha, em Porto Alegre, RS, com a finalidade de saber mais sobre como eles e elas se relacionam com a cultura midiática e os meios digitais de socialização. Os participantes tinham entre 9 a 15 anos de idade, todos declarados do sexo masculino, com exceção de uma menina. Confira as respostas às nossas perguntas:

Colaboraram para com a realização das entrevistas as professoras Aline Russo da Silva e Renata Vanim da Luz, coordenadoras adjuntas do MEDIUM e pedagogas atuantes no SIR.

O QUE TU GOSTA MAIS DE FAZER NO TEU TEMPO LIVRE?

A grande maioria cita jogos digitais como forma de entretenimento, seguido por jogar futebol, desenhar, assistir vídeos (TV) e ouvir música.

QUAL A REDE SOCIAL DA TUA PREFERÊNCIA?

O Instagram é a rede mais utilizada, mas é claro que Tik Tok, You Tube e Whats App também foram lembrados. Dois afirmaram não acessar redes sociais.

QUAL O TEU FILME/SÉRIE PREFERIDO?

Foram citados, entre as animações: One Piece, Grizzy e os Lemmings, Pokemon, Bob Esponja. Entre os filmes: Sonic, O milagre da Cela 7, The Flash e Piratas do Caribe. A série Round 6 também foi destacada.

QUAL O TEU JOGO PREFERIDO?

Roblox é um dos mais citados, seguido por Minecraft. Free Fire também foi lembrado, entre outros.

SOBRE QUADRINHOS E LIVROS

A maioria afirma não gostar de impressos. Em termos de quadrinhos, mencionam Turma da Mônica, mas também apareceram Pumpkin Night e outras webcomics (estes últimos provavelmente em aplicativos de mangás on-line). Entre livros, apareceram as obras de Rachel Ward, Harry Potter e Marley e Eu. Há quem misture jogos com literatura: houve uma menção ao Diário de um Vampiro, disponível dentro do jogo Minecraft.

PERSONAGENS PREFERIDOS

A maioria cita personagens de animes e mangás japoneses, como Saturo Gojo (Jujutsu Kaisen), Saitama (One Punch Man), ou Naoko Kirino (Pumpkin Nght). Os mais jovens ficam com Bob Esponja. Outros personagens citados: Super Mario, Flash, Noro Noro Zoro e Sanji (One Piece). Sobre este último, veja a justificativa da escolha pelo participante: “Ele é um cozinheiro dos Chapéus de Palha. Ele é bem romântico e sabe fazer várias comidas. Admiro muito ele pois gosto da culinária.”

No final da entrevista, perguntamos que tipo de oficina de arte gostariam que o Projeto MEDIUM e o SIR oferecessem. Ganharam disparado:

  • Criação de uma história completa envolvendo texto e ilustrações, com criação de cenários e personagens (7 de 12 entrevistados).
  • Criação de jogos digitais (7 de 12 entrevistados)
  • Criação de personagem seja desenhando ou interpretando (6 de 12 entrevistados)
  • Oficinas de desenho, pintura ou arte digital livre (3 de 12 entrevistados)

Com relação a outras opções, dois jovens se mostraram interessados em oficinas de fotografia e de animação. Os participantes também manifestaram pouco interesse por criação de roteiro/storyboard, modelagem e vídeo e nenhum interesse pelas opções de oficina de fanzines, fotoperformance e arte impressa.