DESVENDANDO MONSTROS

Proponentes: Aurora Becker Tessler e Tiago Coelho Pereira

Locais: EEEF Ildefonso Gomes, Porto Alegre, RS (Aurora Tessler) e CRAS – Centro de Referência de Assistência Social de Igrejinha, Igrejinha, RS (Tiago Coelho) Duração: 2 encontros de 1 hora de duração por local.

Participantes: jovens de 15 a 16 anos no 9o ano (EEEF Ildefonso Gomes) e 11 participantes de 11 a 17 anos (CRAS/Igrejinha).

Aurora e Tiago planejaram juntos a oficina, mas a realizaram com públicos distintos, obtendo resultados diferentes.

Na escola Ildefonso Gomes, os alunos construíram primeiro as narrativas dos seus monstros, sendo instruídos a escrevê-las como se fosse um fragmento retirado de um livro. No projeto estava previsto que os alunos se dividissem em um grupo para desenho e outro para produção textual na primeira etapa, e na segunda eles trocariam as funções. Porém, no processo, Aurora optou por todos escreverem primeiro e depois trocarem seus monstros para que outro colega pudesse ilustrá-lo, visto que a turma estava em número ímpar. Para a escrita do monstro os alunos utilizaram folhas de caderno, e para o desenho, apenas folha A4, caneta esferográfica, lápis de cor e lápis hb.

Textos criados na Oficina de Aurora Tessler, na EEEF Ildefonso Gomes

Tiago teve que fazer algumas alterações para o CRAS, porque havia crianças que não estavam completamente alfabetizadas. Em vez de pedir que escrevessem características dos seus monstros para o colega desenhar, ele solicitou que as duplas conversassem sobre seus monstros, características, medos e sentimentos. Durante a conversa, ambos desenhariam ao mesmo tempo.

Tiago relata que, como no segundo encontro sobrou um tempo, ele sugeriu que todos fizessem um monstro coletivo. No final da oficina, ele conversou sobre a importância de compartilhar medos e sentimentos com amigos e colegas, além da importância de enfrentar nossos monstros e até mesmo de nos tornarmos amigos deles. Entretanto, ele observou que “nem todos quiseram sentar em dupla para falar sobre seus monstros ou sentimentos com os colegas.” Chamou a sua atenção um aluno que conversou somente com ele.

Aurora e Tiago comentam ainda sobre os materiais utilizados e a preferência pelos recursos de desenho tradicionais, evitando colori-los com o que lhes foi disponibilizado: “Não houve falta de material”, diz Aurora, “porém, grande parte dos alunos optou por métodos tradicionais, como desenho com lápis e outros coloriram com lápis de cor.”. Já Tiago observa: “Todos os materiais foram disponibilizados ao alcance de todos. Reforcei para que colorissem os desenhos, mas eles não quiseram; fizeram somente com lápis, e apenas um finalizou com lápis de cor.”

Aurora relata: “Os resultados foram muito interessantes e a conversa que aconteceu no começo da oficina foi produtiva. Os alunos sentiram disposição para falar, participar e dar suas opiniões, já que muitos aspectos das suas vidas e do que eles consomem nas mídias foram levantados, como filmes, jogos, quadrinhos, redes sociais e jornais televisivos. À medida que os alunos iam expressando seus referenciais, eu tentava trazer os que eram do meu conhecimento como exemplos de monstruosidades ou não monstruosidades, o que encantou eles. Tudo isso resultou em um melhor entendimento da figura do monstro, sua construção e função social, a diferença entre esse e o vilão, além da criação de narrativas originais dando vida a medos e a sentimentos negativos.”

Aurora já havia trabalhado com essa turma em outros momentos e complementou: “Eu já havia trabalhado com essa turma e em outros momentos tive a sensação de que somente faziam as atividades para cumprir tarefa, não dando valor ou esforço. Porém, durante a oficina percebi o grande engajamento deles, todos os alunos que participaram estavam dando o seu máximo, seja na escrita do fragmento de texto ou no desenho.”

Tiago também ficou satisfeito: “Foi muito satisfatório. Eles entenderam a proposta e, quase todos, criaram monstros baseados em seus medos na vida real. Alguns mencionaram medos de monstros que viram em séries ou memes da internet, como o Slender Man. Outros citaram medo de tirar sangue, medo de falar em público, medo de vultos, da Covid, de paralisia do sono, entre outros. Cada um desenvolveu seu monstro a partir desses medos.”

Outras observações de Tiago referem-se a um menino que não falava com ninguém. Ele se recusou fazer dupla com os colegas e, durante a criação do seu próprio monstro, desenhava muitos símbolos. Tiago conversou bastante com o menino, que explicou, entre outras coisas, que os símbolos formavam letras se ele os conectasse. Ele disse que não conseguia formar palavras. Após a oficina, Tiago procurou a educadora social e relatou o que havia acontecido. Ela mencionou disse que o fato a ajudaria a encaminhá-lo para um acompanhamento.

Em sua autoavaliação, reflete Aurora: “Acredito que tive uma grande evolução como ministrante. Participei do PIBID edição 2022, em que praticava a docência nessa mesma escola, e pude notar uma mudança significativa em como me portava em sala de aula antes e como foi dessa vez. Consegui realizar a oficina sem nervosismo e foi gratificante vê-los interessados nas referências da cultura e da história que eu trazia durante a conversa com os alunos. Isso criou uma proximidade muito grande com eles, por se identificarem com muitas das questões que eu trazia, facilitando uma abertura. Tudo fluiu de forma orgânica, assim como é a sala de aula.”

Tiago reflete, por sua vez: “Nunca havia ministrado uma aula antes, então fiz muitas anotações, ensaiei bastante e fui com a sensação de que estava preparado. No entanto, estava muito nervoso, pois tenho um grande medo de falar em público e esse também é o meu maior monstro, e sabia que poderia acabar travando. Ao chegar, fui apresentado pela educadora social e, em seguida, me apresentei ao grupo. Naquele momento, olhei para as minhas anotações, respirei fundo e, em um impulso, decidi deixar o papel de lado. Para minha surpresa, as palavras fluíram com naturalidade, como se eu estivesse apenas conversando. Nem eu conseguia acreditar. Acredito que consegui me soltar durante a oficina por ver o entusiasmo dos participantes com a atividade. Isso me deu a confiança e a tranquilidade que eu precisava. O que eu havia esquecido de mencionar no primeiro dia, consegui abordar no segundo dia da oficina. Estava reconsiderando a ideia de dar aulas, questionando como poderia fazê-lo se tinha tanto medo de falar em público. No entanto, essa experiência acendeu uma chama dentro de mim. Fez com que eu realmente desejasse estar dentro de uma sala de aula, criando um ambiente acolhedor. Percebi que posso e sou capaz de seguir por esse caminho, enfrentando meus medos e vivendo essa experiência.”