Proponente: Gabriela Campos Ribeiro Cruz. Local: EEEM Doutor Ruy Coelho Gonçalves, Guaíba, RS. Duração: 3 encontros de 45 minutos.

A Oficina buscou proporcionar uma reflexão a respeito de como a cultura visual e a midiática influencia nossa percepção, interpretação e conceitos que criamos acerca dos espaços que ocupamos. Também busca discutir como ocupamos esses espaços e como interferimos neles, tornando-os extensões de nós mesmos, de nossas questões internas e nossas personalidades, fazendo dos espaços que habitamos também um meio de expressar quem somos e o que sentimos.
À esquerda, a Casa Maluca, finalizada no terceiro encontro*.
Gabriela a apoiou-se em Gaston Bachelard, através do artigo A fenomenologia da imaginação na poética do espaço de Gaston Bachelard”, de Luzia Batista de Oliveira Silva (Educere et educare, 2013), valorizando a imaginação, a subjetividade e a poesia como ferramentas fundamentais para a compreensão e expressão dos espaços que habitamos e que fazem parte do nosso imaginário. […] Por exemplo, uma casa de infância pode ser um espaço carregado de memórias e sentimentos de segurança e pertencimento, enquanto um sótão pode evocar imagens de segredos e mistérios.
As propostas foram realizadas na Escola Estadual de Ensino Médio Dr. Ruy Coelho Gonçalves no bairro Cohab da cidade de Guaíba, no Clube de Desenho, onde Gabriela é professora. Há 10 alunos inscritos no clube, todos do ensino médio, idade entre 15 e 17 anos, em turno integral. A oficina entrou como uma atividade opcional para complemento de carga horária dos alunos que escolheram a trilha de Linguagens no Novo Ensino Médio.
PRIMEIRO ENCONTRO: teve como objetivo apresentar a proposta e as referências de cenário. Também estava nos planos, caso desse tempo, começar os desenhos. Vieram 3 dos 10 alunos. Era a primeira semana de aula depois de retornarem das férias e a maioria pensou que não teriam aula no dia.
Começou na sala de vídeo onde foram apresentadas referências para eles utilizando um PowerPoint, o que levou cerca de uns 17min.
- Casa de Bob Esponja, do desenho animado Bob Esponja (Nickelodeon, 1999-presente)
- A Casa Monstro (2006, dirigido por Gil Kenan)
- Cenas de animês do studio Gibli (“O Castelo animado” (2005, dirigido por Hayao Miyazaki) principalmente)
- Coraline e o mundo secreto (livro de Neil Gaiman de 2002 e filme de stop-motion 2009 dirigido por Henry Selick)
- Alice no País das Maravilhas (livro de Lewis Carroll de 1865)
- Alice Através do Espelho (livro de Lewis Carroll de 1871)
- Alice: Madness Returns (jogo do estúdio Eletronic Arts, 2011)
- A cidade de Gotham tal como aparece na versão de Batman para o cinema dirigida por Tim Burtom (1989)
- O bosque que interliga vários universos de As Crônicas de Nárnia: O sobrinho do mago (de C.S. Lewis, 1955)
- Os apartamentos da série Friends (NBC, 1994-2005)
- Os cenários do Jogo Digital Shadow of the colossus (2005, Team Ico)
Já na sala de arte, Gabriela explicou a proposta. Disse que poderiam representar algo mais voltado para fantasia como em Encanto ou algo mais voltado para o terror como na creepypasta da Casa sem fim, e que deveria ser algo que de alguma forma se relacionasse a eles e sua personalidade. A maioria não planejou muito e se apegou a primeira ideia que surgiu partindo logo para prática. Nenhum deles finalizou o desenho em aula, então os recolhi e deixei comigo para que eles finalizassem no próximo encontro. Gabriela também passou o link de Casa sem fim para os participantes, através do grupo que mantém com eles no Whatsapp.

SEGUNDO ENCONTRO: este tinha como objetivo a finalização dos cenários. Gabriela levou alguns papéis coloridos que tinha em casa para que eles desenhassem as portas e as janelas, preparando a colagem da casa para o próximo encontro.
Dessa vez, com algum atraso, vieram 7 alunos. Foi explicada a proposta para aqueles que não estavam na outra aula. Houve quem estava no primeiro encontro mas não apareceu neste. Uma das meninas tinha começado um desenho na aula anterior mas não quis continuar. Disse que tinha feito em casa em arte digital, embora Gabriela tivesse solicitado que os desenhos precisavam sem em papel, por causa da colagem. Foi aberta uma exceção, desde que ela trouxesse o desenho impresso para a finalização. Esta menina estava bem inquieta, não queria estar na aula, pois queria assistir um campeonato interséries de futebol na escola. Gabriela explicou que era necessário que ela ficasse, porque a segunda parte da proposta era criar portas e janelas para incluir na colagem da casa na aula da semana seguinte. Apresentou os materiais que havia trazido e disse pra ela escolher e desenhar algumas aberturas. A menina realizou rápido a tarefa e depois foi liberada.
Uma outra menina não ficou muito satisfeita com o resultado, mas gostou da atividade. Parte da sua insatisfação, segundo ela mesma, é porque ela não está acostumada a desenhar, pois prefere pintura. Um menino, mais tímido, sempre desenha coisas relacionadas a um quadrinho original que está criando, e incluiu um de seus personagens no desenho, sem entender muito a proposta, pois criou no seu próprio desenho uma casa maluca completa para seu personagem.

Outro menino disse que estava desenhando uma padaria pra deixar o desenho engraçado, pois os colegas todos estavam desenhando cenários fantasiosos e aí no meio ter uma padaria e um titã de Shingeki No Kyojin. Disse que na colagem o desenho dele ia ficar logo acima do quarto galáctico que um terceiro menino tinha criado. Este terminou seu desenho e não queria colorir, mas Gabriela o convenceu a pintar alguns detalhes. Um quarto menino não terminou seu desenho, então Gabriela deixou ele levar pra casa, pois ele gosta de detalhá-los, e sempre traz pronto no encontro seguinte.

Gabriela relata também que uma das participantes estava em processo de diagnóstico de autismo e possui atraso na fala e na escrita. Ela acabou não participando deste encontro porque sempre espera pela chegada da Gabriela e não a viu entrando na escola. Isso causou uma crise na menina e Gabriela, avisada pela direção, foi atendê-la, liberando-a neste dia.
TERCEIRO ENCONTRO: o último dia da proposta tinha como objetivo realizar a colagem dos desenhos formando a Casa Maluca. Vieram 4 participantes, sendo que os que estavam no primeiro encontro não apareceram, não finalizando seu desenho.
Foi estendida uma folha de papel craft na mesa e Gabriela instruiu-os a planejarem um pouco antes de ir colando os desenhos. Um dos participantes tomou a frente e foi sugerindo onde podia ficar cada desenho , além de pedir opiniões dos outros. Logo eles começaram a inventar uma história sobre a casa e o caminho que deveria ser feito para percorrê-la, discutindo onde deveria ficar as aberturas e quais desenhos mais criariam para unir seus espaços.
O menino mais concentrado na tarefa desde o encontro anterior, também foi o que mais trabalhou na construção, e desenhou direto no papel craft canos que conectavam estruturas umas às outras. O menino que desenvolveu uma padaria estava mais focado em inventar uma história para a casa, mas também ajudou a cobrir a fachada da casa com tijolinhos. O primeiro colou seu desenho bem em cima, ficando um pedaço pra fora do papel craft, então o segundo sugeriu de colar algo atrás. Em algum momento eles chegaram a um acordo de desenhar um telhado para colocar nesse pedaço, mas ninguém tomou a iniciativa.
Eles todos estavam bem hesitantes em fazer as sobreposições e pensavam de forma bastante narrativa sobre a casa. Mas à medida que iam colando as coisas, a hesitação foi sumindo. O quarto menino, muito tímido, não foi muito participativo, dava opiniões bem pontuais e acabou desenhando apenas uma janela para contribuir.

O tempo foi passando e ninguém queria desenhar o telhado, até que o menino da padaria tomou a inciativa. Eles gostaram bastante do resultado e pareciam empolgados em continuar desenvolvendo essa história que começaram a criar para casa. No final da aula penduramos a colagem no varal dos corredores que serve para expor trabalhos.
*Todas as fotos são de Gabriela Cruz.

Oie! Eu sou Gabby, tenho 23 anos, sou casada, evangélica, ilustradora e escritora, e mamãe de 2 duas gatinhas e uma vira-lata caramelo. Desenho há tanto tempo que isso faz parte de mim, parece que desde que aprendi a segurar um lápis nunca mais parei de rabiscar… (risos) até que isso se juntou com a vontade de ser professora e vim parar no Curso de Licenciatura em Artes Visuais. Dou aula uma oficina de desenho na Escola Doutor Ruy Coelho Gonçalves, em Guaíba e sou líder de alguns projetos com crianças em minha igreja local. Desde pequena amo jogos de luta, em especial a franquia Soul Calibur, mas também me aventuro em fps’s (os chamados de “jogos de tirinho”), como o queridinho de muitos, o Valorant. O que mais gosto de assistir sem dúvida são animações (em especial as japonesas, os famosos animes). Em minhas artes e ilustras geralmente expresso minha fé, retrato meus gatinhos e meus personagens favoritos.

