Proponente: Lucas Toffani Sitninski. Local: ACASA – Associação de Amigos da Sagrada Família, Porto Alegre, RS. Duração: 2 encontros de 90 minutos.
A ideia da oficina foi a de produzir doodles colaborativos, onde cada participante teria 10 turnos de 20 segundos para contribuir com o desenho. O participante recebeu vários materiais e total liberdade para participar do desenho do jeito que preferisse.

Proposta por Lucas, ela foi pensada como uma forma de gratidão e retribuição para uma prática que já o ajudou muitas vezes em sua vida. Os doodles são desenhos feitos de forma simples e despretensiosa, e permitem revelar o inconsciente do artista, refletindo sentimentos, referências e influências culturais.
Ele fez uso do livro “Catadores da Cultura Visual”, de Fernando Hernandez (Ed. Mediação, 2007), a fim de trazer uma aula que fosse, ao mesmo tempo, prazerosa para os alunos, e propiciasse reflexões sobre as criações, buscando influências da mídia nas figurações dos participantes.
Lucas com a turma na ACASA.
Lucas também buscou referências na obra “The Doodle Revolution: Unlock the Power to Think Differently” da escritora Sunny Brown (Portfolio, 2015) e em “Rabiscos Terapêuticos” da Luciana Craveiro (Livros Ilimitados, 2017). O doodle ou “desenho livre” tem diversos benefícios incluindo melhorias na memória, concentração, compreensão de conceitos complexos, e gerenciamento do estresse.
Ele optou pelo desenho colaborativo para que os participantes também desenvolvessem espírito de equipe e fizessem reflexões não só sobre seus desenhos mas sobre os dos outros participantes também.
RELATO DO PRIMEIRO ENCONTRO: “Chegando lá fui muito bem recebido pela diretora Adriana, que me apresentou todas as salas, alunos e funcionários. Passei de sala em sala convidando todos que tivessem interesse na oficina de desenho colaborativo, nisso consegui juntar 16 participantes(de 6 a 12 anos). Primeiramente fui apresentado pela professora e logo depois expliquei como funcionava a oficina […] percebi que eles já gostavam de desenhar, o que facilitou bastante o meu trabalho. Comecei com uma rodada de 20 segundos […], e eles foram meio tímidos no começo, desenhando apenas um cenário, mas alguns já demonstraram compreender a ideia de trabalho em equipe, respeitando esse cenário que foi primeiramente criado, enquanto outros se expressavam diferente fazendo desenhos “soltos” pela folha.
No fim da primeira rodada, eles me pediram que aumentasse o tempo para 30 segundos […]. no início da segunda rodada todos já pareciam ter uma ideia do seu papel para o desenho. Alguns pediam para os outros “me ajuda a terminar o meu desenho” “me ajuda a pintar o meu” […]. Um caso que chamou a atenção foi de um participante que desenhou um dinossauro e me perguntou com medo se os outros podiam “avacalhar” no desenho dos outros, e antes de eu responder a professora me informou que esse participante tinha autismo e estava preocupado com o dinossauro dele […]. então eu expliquei […] que eles poderiam fazer qualquer coisa com o desenho mas que teriam consequências, que se eles “avacalhassem” no desenho dos outros, os colegas ficariam chateados e que aquilo era um desenho colaborativo. Alguns fizeram desenhos para interagir com o dinossauro, meteoros caindo nele, balões de fala para ele, homenzinho salvando ele do meteoro, outros pediam instruções para pintar e finalizar o dinossauro, enfim, foi bem bonito como eles lidaram com a situação e o colega ficou bem feliz.

Começaram a aparecer alguns personagens midiáticos, como um Naruto, um Sonic e um Pikachu que no final foi descontinuado. Outro caso que me chamou a atenção foi de um participante que desenhou um homenzinho atirando em outro, e antes dele terminar o desenho justificou para professora “é taser sora..é arma de taser..taser pode, né?!” mostrando que ele ja havia desenhado armas e fora repreendido pela professora.
Na terceira rodada resolvi aumentar o tempo para 40 segundos, para finalizarem e colorirem seus desenhos. Como era a rodada final, alguns começaram a enfeitar a folha com estrelinhas, coraçõezinhos e algumas frases e nomes. Um que me chamou a atenção foi a frase “meu deus meu senho me ajuda por favo” que vem de uma música que virou meme na internet.

Finalizando o desenho, abri uma discussão com eles sobre o que eles acharam da oficina, do desenho e o que motivaram eles a desenhar o que eles desenharam. Todos falaram que gostaram muito da oficina e me perguntavam se eu ia voltar la e quando eu ia voltar la. Nos aspectos mais individuais nao deu para entrar muito em detalhes por que a turma era muito grande e eles ficaram intimidados (talvez pelo proprio tamanho da turma).“
RELATO DO SEGUNDO ENCONTRO: “O segundo encontro foi um pouco prejudicado porque também era o dia que eles vão à igreja, o que fez eles chegarem atrasados […] alguns não vieram para oficina. Então eu tive 10 alunos(só 3 do outro encontro) da mesma faixa etária […] e um pouco mais de 30 minutos para realizar a oficina.
Comecei me apresentando de novo e explicando como funcionaria a oficina, e recebi uma pergunta de um participante “se nao existe certo nem errado, eu posso fazer só um risco na folha então?” e eu respondi que sim, mas que isso afetaria o próprio desenho dele e dos colegas.
Depois das explicações, comecei a primeira rodada com 30 segundos, e já foi bem diferente do primeiro encontro, dessa vez, todos fizeram desenhos “soltos”, e logo de primeira já veio um desenho do Batman. Alguns participantes se juntaram para fazer o desenho de um dente, influenciados por um dentista que tinha visitado a associação alguns dias antes. Outro desenho que apareceu também foi uma cruz, que foi feita com ajuda de uma cruz real que eles ganharam visitando a igreja mais cedo.

Na segunda rodada, como o tempo era curto, resolvi diminuir o tempo para 20 segundos. E com menos tempo eles focaram em um só desenho, o [símbolo do] Yin-Yang, não sei se influenciados pelo colega que perguntou sobre não existir um certo e errado, ou por já ter outro símbolo religioso no desenho, ou pelo Yin-Yang ser um símbolo muito presente na mídia, ou por todas essas alternativas. Mas no final da segunda rodada já era unânime, todos estavam tentando terminar de pintar o Yin-Yang.
Depois da segunda rodada, só restava alguns minutos para acabar a aula, então eu optei por fazer mais uma rodada com 10 segundos. A terceira rodada foi só eles tentando terminar o Yin-Yang a tempo, mas foi bem divertido, eles torciam e apoiavam uns aos outros para concluir o desenho, e no final comemoraram bem felizes por terem finalizado.
Abri a discussão para saber o que eles acharam da oficina, e foi igual ao primeiro encontro, todos gostaram e me perguntaram quando que eu ia voltar. E de novo não deu para me aprofundar muito na discussão, mas dessa vez foi porque tinha pouco tempo.”

Meu nome é Lucas Toffani, tambem conhecido como “Tofu”, nasci em Porto Alegre, sou estudante de artes visuais, ilustrador, artista, bikeboy, motoboy e vendo/faço doces. Em 2016 eu criei a pagina TouffuLab para postar os meus experimentos artísticos. Minha arte é focada na minha vida, nas coisas que eu vejo e sinto, muitas vezes ilustradas de forma colorida e psicodélica. Gosto de explorar meu subconsciente na hora de criar minhas artes, então a maioria delas são feitas no improviso, sem esboço ou ideia planejada.
*Todas as imagens pertencem a Lucas T. Sitninski.

