Sextante

Perdoa-me, Senhor, porque pequei

As diferentes perspectivas sobre a confissão, um ato de linguagem criado pela Igreja Católica para redimir a culpa dos fiéis

REPORTAGEM
Lucas Vidal
lvidlsantos@gmail.com

Ilustração de uma igreja escura, com três janelas e luzes entrando por elas e uma pessoa se confessando ajoelhada entre os bancos
Arte: Carolina Esteves
Ouça a reportagem

Nas sombras do confessionário, as palavras se transformam no elo entre os indivíduos e a divindade. Por meio delas, os católicos verbalizam suas falhas em busca da reconciliação com Deus. A Penitência, um dos sete sacramentos da Igreja Católica, é o ato em que a linguagem excede a simples comunicação; ela se torna a expressão dos pecados, carregada de arrependimento e anseio pelo perdão divino. 

O catequista Edson Kaufmann, de Canoas, no Rio Grande do Sul, está entre os 64,4% dos brasileiros que se identificam como católicos, conforme dados do Censo Demográfico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Aos 56 anos, ele considera que a essência humana provém de Deus, um ser superior que orienta e incentiva a vida. “Esquecemos que somos humanos frágeis, e dentro dessa fragilidade entra a espiritualidade. O ser humano tem que carregar dentro de si a espiritualidade em primeiro lugar, porque não podemos esquecer da nossa essência”, diz. 

Homem de 56 anos dentro de igreja, com as mãos em frente ao corpo e escultura de Jesus Cristo ressuscitado atrás dele
Para Edson, o amor misericordioso de Deus perdoa todos os pecadores | Foto: Lucas Vidal

Para Edson, os pecados ocorrem ao longo da vida. Segundo ele, o acúmulo de transgressões no coração adoece as pessoas, e a reconciliação com Deus é necessária através do Sacramento da Penitência, momento em que as falhas são expostas e perdoadas. “Não posso me confessar sozinho, eu para Deus. Eu tenho que procurar o padre, o sacerdote, ele é um representante de Cristo naquele momento e tem autoridade e o poder de absolver os nossos pecados”, explica.

“Se confessar é uma sensação muito boa, porque o padre não vai apontar o dedo na tua cara dizendo que tu é culpado; ele está ali de braços abertos para te ajudar e vai te perdoar”

EDSON KAUFMANN, catequista

O catequista conta que, antes da confissão, sente a apreensão de talvez não ser perdoado. No entanto, lembra que não deve temer, porque, para os católicos, o amor misericordioso de Deus absolve todos os pecados. “O confessionário é o único tribunal no qual entramos como réus e saímos sempre absolvidos”, afirma. Para ele, abrir a porta do confessionário é como abrir seu coração para expressar o que sente. “Se confessar é uma sensação muito boa, porque o padre não vai apontar o dedo na tua cara dizendo que tu é culpado; ele está ali de braços abertos para te ajudar e vai te perdoar.” Ao sair do confessionário, a sensação de Edson é sempre a mesma: alívio. 

“Faça uma boa renúncia no teu coração, te reconcilia com Deus e com as pessoas que você machucou ou que te machucaram e tira qualquer resquício de ódio e raiva que está no teu coração”, aconselha o padre Attilio Hartmann, de Porto Alegre. Em sua visão, a reconciliação com o próximo é um dos principais elementos desse sacramento. Ele acredita que, ao perdoar o outro, também perdoamos a nós mesmos e encontramos a paz.

Arte: Gabriel Andrade

Aos 88 anos, o padre considera que a avaliação das penitências não segue uma classificação de pecados maiores ou menores. O contexto, as circunstâncias e a consciência do pecador são essenciais na avaliação. Não há uma definição rígida, e a compreensão da dimensão de perdão e amor é fundamental. “Qual foi a realidade de vida dele? Quantos gestos de amor ele teve em sua vida? Ele sabe alguma coisa dessa dimensão de perdão? Pecado mesmo só existe quando eu sei que é pecado”, pondera. 

Attilio considera necessária uma melhor qualificação acadêmica dos padres. Para ele, é essencial que o sacerdote se coloque no lugar do outro durante a confissão. Dessa forma, além de compreender melhor as diferentes motivações que levam cada católico ao confessionário, também possibilita uma ajuda mais eficaz. “Nem todos os padres deveriam atender confissões. Eu penso naqueles que têm uma grande formação na área da psicologia para colocar-se a entender o fenômeno que acontece com as pessoas [no momento da confissão]”, declara. 

A dimensão psicológica da penitência

Marco Antonio Torres, doutor em Psicologia e professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), observa que a confissão se diferencia da psicoterapia, que além de adotar uma abordagem laica, tem uma escuta concentrada no sujeito e em sua subjetividade. No contexto da penitência, a fé é o ponto central, e o sacerdote orienta a vida espiritual do fiel. 

Torres também comenta sobre o discurso formulado pela Igreja Católica medieval em relação à introjeção de culpa. “O catolicismo produziu muita culpa para controlar os sujeitos, mas eles escaparam. Muitos foram queimados, perseguidos, porque acho que se negavam a ser dominados por uma instituição”, explica. Através da sobrecarga emocional, a culpa tornou-se um instrumento de controle moral dos fiéis, influenciando suas escolhas e ações, mantendo-os submissos à autoridade eclesiástica.

Arte: Carolina Esteves

O psicólogo paulista Geraldo José de Paiva, que tem um pós-doutorado em Psicologia da Religião na Université Catholique de Louvain-la-Neuve, na Bélgica, explica que a confissão pública era comum nos anos iniciais do catolicismo, pois a construção de uma unidade social pela fé era fundamental para os fiéis. Qualquer ameaça à unidade era considerada um problema de ordem social, não apenas individual. Com o tempo, a confissão tornou-se mais íntima e depois perdeu forças por conta do Iluminismo, movimento intelectual do século 18 que promoveu a razão, a ciência e a liberdade individual. “Hoje em dia, há uma desvalorização dessa linguagem, porque temos a consciência de que não estamos cometendo erros e ofendendo a Deus a torto e a direito”, esclarece. 

“Na confissão, os padres têm todo um viés ideológico e muitas vezes te direcionam para algo que te deixa mais culpado”

Emanoela Kerkhoff, ex-católica
Aos 18 anos, Emanoela se desvinculou da Igreja Católica por conta de sua sexualidade | Foto: arquivo pessoal

A ex-católica de 31 anos Emanoela Kerkhoff, de Porto Alegre, considera que os padres não estão capacitados para o momento da penitência. “Ele não é um profissional de uma compreensão mais psicológica, digamos assim. Quando tu faz essa confissão para um psicólogo e fala das tuas questões, existe todo o preparo e o embasamento para cuidar do que é dito e do que é ouvido”, diz.

Emanoela conta que cresceu em uma família católica e desde criança frequentava a igreja todos os domingos. Aos nove anos, confessou seus pecados pela primeira vez. Na adolescência, quando se descobriu lésbica, passou a questionar as doutrinas católicas. Ela relata que não entendia como um ato de amor afetava sua relação com Deus. Por conta de sua sexualidade, desvinculou-se da Igreja aos 18 anos. 

Mesmo afastada da religião, a ex-católica reconhece que a reconciliação com o divino pode trazer alívio para os fiéis. Contudo, critica a orientação dos padres no momento da penitência. “Na confissão, os padres têm todo um viés ideológico e muitas vezes te direcionam para algo que te deixa mais culpado”, considera. 

Pecado, perdão e poder

Pecado é uma ação, uma palavra ou um desejo contrário à lei eterna de Deus. É o que define o Catecismo da Igreja Católica, que reúne as doutrinas do catolicismo e foi promulgado pelo Papa João Paulo II, em 1992. O pesquisador Torres esclarece que a concepção de pecado é guiada pelos princípios éticos e morais dos valores religiosos, como os Dez Mandamentos e os sete pecados capitais. Contudo, a definição do que é pecado está vinculada também ao contexto cultural e histórico, refletindo as mudanças na sociedade. “Em uma época, dar cheque sem fundo virou pecado; hoje, não é mais, porque nem usamos mais cheques”, exemplifica. 

O professor também aponta para uma dinâmica de poder durante o processo da confissão. “Há um ato hierárquico, onde o padre seria aquele que, em nome da Igreja, dá a absolvição [dos pecados]. Se a pessoa acredita que a Igreja tem esse poder, o confessando tem que estar numa posição de submissão”, diz. Acreditando na autoridade da Igreja para absolver pecados, o fiel se submete a uma relação de poder em que busca redenção e perdão através do ato de revelar suas transgressões.

Assim como o lugar da confissão na vida de muitos fiéis mudou, também mudaram os posicionamentos da Igreja Católica, que demonstra sua evolução ao longo do tempo. Os pronunciamentos do Papa Francisco, em dezembro de 2023, aprovam bênçãos para casais homossexuais e sinalizam uma perspectiva mais contemporânea da fé. Talvez, com uma percepção mais aberta e inclusiva sobre a individualidade, diferentes pessoas encontrariam na religião um refúgio espiritual sem se afastar, proporcionando um espaço de reconciliação e compreensão mútua.

Ouça Like a prayer, de 1989, álbum que Madonna dedica à mãe: “Por ter me ensinado a rezar”

LEIA MAIS

  • Respeita o meu Orixá: Apesar de invisibilizadas, as religiões de matriz africana apresentam uma forte presença no estado gaúcho
  • Que futuro Deus dará?: Durante a pandemia da covid-19, que modificou práticas religiosas, especialistas e líderes espirituais projetam o futuro da fé

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.