Aos 33 anos e com perfil discreto, Roberto Arruée Witter é um fantasma. Não porque já tenha “abotoado o paletó” – pelo contrário, mantém-no aberto em um cabide atrás de sua mesa –, mas porque, como superintendente de comunicação da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS), também é ghostwriter (escritor fantasma, em inglês): ele é quem escreve os principais discursos da presidência da Casa desde que assumiu a função, em fevereiro de 2023.
Formado em jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel), tem passagem pelo Grupo RBS antes de entrar na política como assessor. Apesar de jovem, Roberto ajudou a escrever discursos de prefeitos e governadores do estado, até ser convidado pelo deputado e presidente da ALRS, Vilmar Zanchin (MDB), para assumir o posto atual. Porém, Roberto prefere não comentar os nomes dos políticos que assessorou. “Se tu começa a aparecer muito, tu já não é mais um fantasma, né?”, brinca ele.

A escrita de discursos é uma atividade crucial em assessoria de comunicação. Empresas de assessoria, por exemplo, mantêm equipes de ghostwriters especializadas em preparar falas para políticos, principalmente em ano eleitoral. Hoje em dia, a demanda é tanta que a mão de obra chega a rarear. “Todo mundo quer fazer rede social”, observa Roberto, que já trabalhou em empresas do ramo.
Desde o pensamento de Platão e Aristóteles, na Grécia Antiga, o discurso tem papel central na política. Contudo, foi o imperador romano Júlio César quem percebeu que momentos de manifestações públicas eram ideais para grandes falas, segundo o professor da disciplina de propaganda política do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Sérgio Trein.
Ao longo de muitos séculos, o discurso serviu para justificar o poder constituído, quase sempre restrito a pequenos grupos. A modernidade tratou de chacoalhar essa função a partir de duas inovações: as democracias representativas e os meios de comunicação de massa, como o rádio e a televisão. Com essas novidades, os discursos viraram um meio auxiliar para a conquista do poder. “[É uma] técnica de persuasão, de confirmar uma opinião ou de mudar a opinião das pessoas”, afirma Sérgio.
A forma importa
Num discurso durante uma campanha, por exemplo, o candidato está construindo uma imagem de si, assumindo compromissos e buscando convencer o eleitor de que ele merece receber votos. Para isso, vale muita coisa. O texto pode ser emocionante e sensibilizar o ouvinte; pode simplificar os conflitos até reduzi-los à dicotomia entre nós e eles – nós, sempre bons e eles, sempre maus. Pode usar relatos testemunhais de apoiadores para reforçar uma ideia; repetir termos e, no limite, distorcer uma verdade.
É uma infinidade de recursos retóricos para que a fala atinja o objetivo de todo bom discurso: comunicar uma mensagem ao público desejado. “Eu preciso fazer um discurso que tu entenda para eu conquistar o teu voto”, resume o professor.
Para além da estrutura do texto, a escolha do vocabulário é indispensável para uma comunicação bem sucedida e com efeitos positivos para o político. Foi o que demonstrou Daianna Pompeu, linguista e professora do Centro Universitário Presidente Antônio Carlos, do sul de Minas Gerais.
Em um artigo publicado em 2018, ela defende que parte da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em sua primeira passagem pela presidência, decorreu do que chamou de língua fluida do político. “A língua fluida é aquela que flui, ela vai entrando em tudo quanto é cantinho, mas que atinge o seu objetivo. Independentemente de como, de quais palavras, qual o léxico foi escolhido, ela atingiu o objetivo”, afirma Daianna.
O uso de metáforas futebolísticas, as referências à vida no nordeste, à migração para o sudeste e até desvios da norma padrão são elementos que auxiliaram e auxiliam Lula a se comunicar com um público amplo. É a fala do povo na boca de um presidente, o mais alto cargo da República. “Quanto mais popular a linguagem dele, maior o número de eleitores e eleitoras que ele atinge”, defende a professora.

Bastidores
Na sexta-feira, 1º de setembro de 2023, fazia sol em Fortaleza, no Ceará, onde o presidente Lula participava de um evento do Banco do Nordeste. Após ouvir as falas que o antecederam, Lula iniciou a sua. “Vocês perceberam que eu tenho um discurso por escrito pra fazer para vocês, mas, depois de ouvir a Maria da Conceição Menezes e a Maria do Socorro Nascimento, eu penso que eu vou, com inveja delas, largar o meu discurso aqui e vou conversar com vocês.”
Uma salva de palmas entusiasmada dos apoiadores exigiu uma pequena pausa. Mais uma vez, o presidente deixava de lado o texto pronto para exibir a habilidade de improviso pela qual é conhecido desde que começou sua carreira política. Com recados a economistas, o discurso prestou contas de ações do governo e reiterou o compromisso de redistribuição de renda.
Entretanto, por mais habilidoso que seja diante de um microfone, nem Lula descarta completamente o trabalho de ghostwriters. A Secretaria de Comunicação da Presidência tem uma equipe especializada em preparar seus discursos. Os quatro integrantes, chefiados pelo jornalista e escritor mineiro José Rezende Jr., antecipam e discutem com o político cada fala pública sua. Mesmo assim, quem trabalha com o presidente garante que o tom e a forma final do discurso são decididos por ele. Lula é quem indica a direção dos trabalhos.
“Se eu começar a escrever para os outros [seus assessorados] da forma com que eu percebo o mundo, todos eles vão falar aquilo que eu penso, e não aquilo que eles pensam“
ROBERTO WITTER, jornalista e ghostwriter
O ofício de quem escreve os discursos no Palácio do Planalto é semelhante ao descrito por Roberto na assembleia gaúcha. A orientação sobre o que será dito e a intenção do discurso vêm do político. Cabe ao escritor buscar informações, dados e falas anteriores para ajudar a amarrar uma narrativa convincente aos ouvintes.
A despeito de serem profissionais do texto, colocar-se no lugar do político assessorado e pensar como ele é desafiador para os ghostwriters. Em razão disso, afinidades ideológicas entre os dois tendem a facilitar o trabalho. Roberto, por exemplo, se posiciona na centro-direita do espectro político, por isso diz evitar trabalhar com partidos de esquerda.
Mesmo assim, a alteridade é um pilar de seu ofício. “Se eu começar a escrever para os outros [seus assessorados] da forma com que eu percebo o mundo, como eu acredito, todos eles vão falar aquilo que eu penso e não aquilo que eles pensam”, destaca Roberto. “No fim, quem faz o discurso é o político.”
Símbolos de uma época
“Traidor da Constituição é traidor da pátria.” As palavras de Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988, ainda ecoam na memória nacional. Segundo a ferramenta Google Trends, o termo “discurso” é um dos que mais aparecem associados ao nome do ex-deputado no buscador.
Para além de ajudar a forjar a imagem pública dos políticos ou de prestar contas de suas promessas depois de eleitos, discursos são símbolos de um momento histórico. A fala poderosa do presidente da Constituinte é um ícone do período de transição democrática; um marco do clima e dos valores da época.
Carolina Botelho, cientista política e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), destaca que, na política, tudo comunica. “Cada mensagem que é falada ou não falada tem um significado político e simbólico importante e quer passar uma mensagem política”, afirma.
Contudo, a professora é cética quanto ao poder de transformação social que as falas têm. Para ela, o discurso mais comunica um direcionamento do que provoca uma alteração do estado das coisas. “A mudança social é provocada pelos atores, pelos agentes, pelas instituições, pela ação dos atores dentro das instituições”, considera.
Para Roberto, o discurso – principalmente a repetição de algumas ideias ao longo do tempo – pode indicar os rumos de um governo. Uma fala também pode funcionar como cortina de fumaça quando a intenção é trocar a pauta. “Tem a capacidade, sim, de refletir o passado, mas também projetar o futuro”, resume.
Dado o peso que os discursos têm na construção da imagem de um político e no próprio funcionamento da política, o trabalho dos ghostwriters é central. Por mais discretos e afeitos às sombras do poder que sejam, sempre haverá um dedo seu – ou uma palavra sua – na história. Fantasma, mesmo, só o nome.
Relembre trechos de discursos marcantes da história do Brasil:

Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.
Getúlio Vargas, carta-testamento, 1954

Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania aonde quer que ela desgrace homens e nações. Principalmente na América Latina.
Ulysses Guimarães, discurso de promulgação da Constituição Federal, 1988

Meus queridos brasileiros e brasileiras, pela decisão soberana do povo, hoje será a primeira vez que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher.
Dilma Rousseff, discurso de posse como presidente do Brasil, 2010

O Brasil conheceu a riqueza dos engenhos e das plantações de cana-de-açúcar nos primeiros tempos coloniais, mas não venceu a fome; proclamou a independência nacional e aboliu a escravidão, mas não venceu a fome; conheceu a riqueza das jazidas de ouro, em Minas Gerais, e da produção de café, no Vale do Paraíba, mas não venceu a fome; industrializou-se e forjou um notável e diversificado parque produtivo, mas não venceu a fome. Isso não pode continuar assim.
Luiz Inácio Lula da Silva, discurso de posse como presidente do Brasil, 2003
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