Buscando uma maneira de criar crianças mais confiantes, com autonomia e uma boa autoestima, alguns pais têm adotado a chamada disciplina positiva. O objetivo dessa prática é educar com foco no afeto, na compreensão, no respeito e no aprendizado mútuo. Para além de todos os benefícios que a disciplina positiva traz para qualquer família, ela também se torna uma ferramenta poderosa de antirracismo quando crianças não-brancas são ensinadas a se sentirem lindas como são, inteligentes e merecedoras de estarem em qualquer lugar.
De acordo com o Censo de 2018, desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 17% da população brasileira são crianças de até 12 anos, e, dessas, 57,6% são negras e indígenas. Esses meninos e meninas estão mais acostumados com os debates sobre diversidade do que os jovens adultos que nasceram nas décadas de 1980 e 1990 e, em alguns casos, começam a criar seus filhos. Discussões positivas sobre raça não eram comuns dentro de casa. As reflexões racializadas, para a maioria desse grupo, foram acontecer mais perto da vida adulta, seja por meio da internet, seja pelo início da vida acadêmica. Mesmo que o caminho ainda seja longo, as diferentes crianças de hoje conseguem cada vez mais se enxergar nas telas, nas lojas de brinquedos e nos livros com personagens como Pantera Negra, Doutora Brinquedos e Moana.
A professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Leni Dornelles vem se dedicando a construir uma educação positiva antirracista através da representatividade desde a década de 1990, quando foi diretora da divisão de escolas infantis de Porto Alegre. “Eu coloquei em cada sala de aula da educação infantil do município um boneco negro. Lá no início de 1990”, conta. Leni, que é doutora em Educação e pesquisa a infância e a educação infantil, nunca deixou de lado a proposta de inclusão de todas as crianças em sala de aula.

Em 2007, ela e outros pesquisadores da Faculdade de Educação da UFRGS iniciaram uma pesquisa com vários grupos de crianças em escolas públicas e particulares de Porto Alegre e da Região Metropolitana. Leni conta que, no início do trabalho, as crianças não-brancas não se gostavam, se sentiam feias, achavam que seus cabelos e seus corpos não eram bonitos. Os grupos foram acompanhados por dois anos e foi se criando uma ambiência multirracial a partir da disciplina positiva. Por meio de brinquedos, livros de literatura infantil e filmes que representavam negros de forma positivada, a pesquisadora e seu grupo foram mostrando o quanto todas as crianças eram bonitas do jeito que eram. “No final da pesquisa, elas se mostraram mais felizes”, lembra Leni.
A pesquisa durou 10 anos e atingiu não só os alunos e alunas, mas também suas famílias. De acordo com Leni, no início de cada etapa da pesquisa, acontecia um encontro com a direção da escola e com os professores que iriam trabalhar com as crianças. Em alguns espaços, foi possível apresentar o trabalho aos pais, para que eles colaborassem com os temas que seus filhos e filhas estavam vendo na escola. “Os livros de literatura infantil eram levados para casa para que eles lessem junto com as crianças. Então, quando a resposta vinha, era bastante positiva, e muitos traziam que nunca tiveram acesso a esse tipo de material, nunca tiveram acesso a esse tipo de discussão, e que o livro tinha proporcionado, por exemplo, uma conversa na família. Então, de alguma forma, o efeito desse trabalho na escola refletia também no espaço da família”, lembra Leni.

Em 2003, com a Lei Federal 10.639, foi estabelecido que todas as escolas do Brasil incluíssem em seus currículos oficiais de ensino temas sobre a “História e Cultura Afro-Brasileira”, porém nem todas cumpriram o que a lei exigia. “Houve, principalmente no governo Lula, um fomento de materiais para dar conta dessa educação antirracista. Muitos deles ficaram nas bibliotecas e não chegaram na sala de aula. Muitas escolas não se preocupam com isso. Atualmente, o Ministério Público está auditando os municípios para ver se eles estão realmente atendendo essa prerrogativa legal”, diz Leni. Mas, de acordo com a professora, mesmo que algumas escolas não tenham essa preocupação, existem muitos profissionais que lutam por uma educação mais inclusiva.
Um exemplo desse esforço é o Uniafro, um curso de aperfeiçoamento oferecido pela Faculdade de Educação da UFRGS, com o apoio da Secretaria de Educação a Distância e do Centro de Formação de Professores da universidade. O objetivo do Uniafro é ajudar a qualificar professores das escolas públicas do estado com a educação antirracista. Leni conta que já houve casos em que a secretaria de educação de algum município chamava a equipe do Uniafro, mas, quando eles chegavam, os professores não aceitavam fazer o curso. “Muitos professores se negavam a fazer, chegando inclusive a afirmar que não fariam um curso onde a coordenação era de uma professora negra. Que não iam ser mandados por uma negra”, lembra Leni.
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ENSINANDO E APRENDENDO JUNTOS
A escola pode ser uma grande aliada da educação antirracista, mas e quando isso não acontece? Uma das opções é os pais procurarem conteúdos que sejam disponibilizados na internet para que possam tratar dessa temática dentro de casa. Um dos principais projetos que fala sobre o assunto hoje é o Criando Crianças Pretas, idealizado pela comunicadora Débora Bastos, de 37 anos, que vive em Jundiaí, no interior de São Paulo. O projeto nasceu junto com José, o filho de Débora, que hoje tem três anos. Ela sentiu que precisava ensinar para o seu o filho que ele tinha identidade racial.
“Levei muito tempo da minha vida para entender o que é ser uma pessoa preta politicamente. Eu sempre soube que a minha pele é escura, sempre soube que eu era uma mulher negra, mas eu não sabia o que isso significava”, explica Débora. Quando José nasceu, ela decidiu que não iria permitir que ele chegasse na vida adulta sem saber sua origem e o que significava ser uma pessoa preta no Brasil. A partir disso, em 2018, ela começou a produzir conteúdos de educação antirracistas no Instagram, para ensinar seu filho, mas também para inspirar outras famílias.
“Eu não posso sentar e dizer ‘filho, vem cá e vamos conversar sobre o que é o racismo’, mas eu posso dar um mundo plural para ele como referência”
DÉBORA BASTOS, comunicadora

Um dos principais pilares da disciplina positiva é respeitar a criança como o indivíduo que ela é. Entender que ela tem gostos, desgostos, vontades e que ainda está aprendendo, ao invés de impor expectativas e projetar nelas o que, como pais, esperamos que façam ou queiram. Débora adotou essa prática desde que seu filho ainda estava na barriga, e, conforme ele foi crescendo, ela foi mostrando referências que o faziam lembrar de si mesmo e de sua família, fazendo com que ele enxergasse beleza naquilo que muitas gerações passadas viam apenas como algo que não era desejável para si. “O José tem três anos. Eu não posso sentar e dizer ‘filho, vem cá e vamos conversar sobre o que é o racismo’, mas eu posso dar um mundo plural para ele como referência.” Ela conta que já vem notando os efeitos dessa educação. “Esses dias a gente estava saindo do mercado e tinha uma mulher preta, retinta, em um outdoor da farmácia. E ele falou: ‘mamãe! olha que mulher linda!”
RESGATANDO A ANCESTRALIDADE
A doula Mariana Adas viveu até seus oito anos em uma comunidade indígena no extremo sul da Bahia, em território Pataxó, com sua família materna, onde participava das atividades da aldeia e ajudava a cuidar da plantação, da colheita e dos animais. Ela e os pais tiveram que se mudar para Belo Horizonte após sua mãe ficar doente e precisar de um tratamento médico. Mesmo não vivendo mais na comunidade, Mariana era incentivada por sua mãe a ter uma rotina que lembrasse o antigo lar através de histórias, da culinária e dos cuidados com a terra. “Nossa casa tinha um quintal grande, então a gente continuava plantando”, lembra. Hoje, aos 25 anos, ela reproduz os passos de sua mãe e ensina as suas origens para sua filha, Pérola. “Eu tento incluir algumas palavras da língua, histórias de criação e divindades, fauna e flora do território, além da alimentação típica também estar sempre presente. Vou entrando em mais detalhes à medida que ela puder entender.”
“Comecei a integrar espaços da militância materno-infantil e aprendi muita coisa sobre criação neurocompatível, criação com apego e afins. Fez muito sentido para mim”
MARIANA ADAS, doula, nascida em território Pataxó

Quando Pérola nasceu, Mariana não pensava muito sobre criação positiva, mas, por conta de sua profissão, ela passou a ter mais contato com o assunto. “Comecei a integrar espaços da militância materno-infantil e aprendi muita coisa sobre criação neurocompatível, criação com apego e afins. Fez muito sentido para mim, e, a medida que ela foi crescendo, comecei a aplicar.” Pérola tem quatro anos e é autista. Segundo Mariana, ela é uma criança muito confiante, que não tem medo de pedir ou usar o que quer. Ela já consegue demonstrar o que mais gosta da cultura da sua origem. “Ela tem preferência pela comida tradicional e gosta muito do contato com a terra. Também gosta de usar os acessórios de penas. Prefere mais que laços e outros acessórios não-indígenas”, conta Mariana.
Em setembro de 2021, a cozinheira, produtora (e agora escritora) Fabiana Sasi, de 40 anos, lançou o livro infantil O Fio da Memória, que fala sobre a cultura oral africana que transmite os saberes e as histórias. O livro conta a história de Lia, uma menina bem “perguntadeira”, que se surpreende ao perceber que sua tia Bibi está começando a ficar grisalha. Em busca de respostas, Lia recorre à avó e com ela descobre o valor de cada fio branco como fonte de sabedoria e de memórias preciosas. “Esse livro, no fundo, é também um reflexo das minhas buscas identitárias enquanto mulher negra. É buscar uma reconexão com essa ancestralidade, com esse passado, com essa memória.” Fabiana contava essa história para os filhos de suas amigas, na Bahia. Morando em Porto Alegre há quase 20 anos, hoje ela faz questão de contar essas e outras histórias para o filho Inácio, de cinco anos.
Livros infantis com representatividade

Autora: Fabiana Sasi / Ilustração: Sílvia do Canto 
Autor: Donaldo Buchweitz / Ilustração: Ina Carolina 
Coleção Virtual do projeto Leia Para Uma Criança do Itaú 
Autor:César Obed / Ilustração: Taísa Borges 
Autor: Emicida / Ilustração: Aldo Fabrini
UMA QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA
A educação positiva e antirracista é uma ferramenta poderosa, mas sua discussão ainda é muito recente. Apesar de estar sendo disseminada nas redes sociais, ela ainda fica dentro de uma pequena bolha. Na percepção da professora Leni, esse tema no ambiente escolar ganhou mais força apenas em 2017, logo após o fim da sua pesquisa. Para a comunicadora Débora, o motivo dessa proposta tocar pouquíssimas pessoas, mesmo tendo um potencial tão grande, é que os adultos ainda reproduzem a educação tradicional pela qual passaram. E a mudança só pode vir por parte deles. “É muito lugar que esse adulto tem que revisitar para começar a tratar as crianças de uma maneira positiva, com uma educação não violenta. E as pessoas não estão preparadas. Há um sopro de esperança, mas eu tenho os dois pés na realidade para saber que isso ainda é distante. A realidade é que as pessoas ainda desrespeitam muito as crianças. E eu vou dando um passo de cada vez”, diz Débora.
Outro motivo que levou Débora a criar José de maneira mais positiva é a saúde mental do seu filho. “Todas nossas perebas estão na infância. Tudo o que a gente gasta hoje na terapia, se deu na infância. E sei que ele vai ter [os traumas dele], mas se eu puder diminuir o impacto de alguns, pelo menos os que ficaram em mim…”, reflete. É por isso que ela decidiu criar o José assim. “É uma responsabilidade enorme criar um filho para o mundo. Não quero criar mais um homem que crie um desserviço na sociedade.”

De acordo com Marcos Kisil, professor na Faculdade de Saúde da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista para o Jornal da USP, a neurociência tem trazido evidências de que as experiências passadas pela criança na primeira infância, de zero a seis anos, vão moldar os circuitos cerebrais, que são a base do desenvolvimento humano. “Todos nascemos com potencial, a questão é saber se vamos contribuir para o desenvolvimento ou teremos ações humanas para impedi-lo”, declarou.
Essas ações humanas às quais o professor se refere são a pobreza extrema, abuso físico e emocional recorrentes, negligência crônica, depressão materna grave, violência familiar, entre outras situações que geram o chamado estresse tóxico, comprometendo o desenvolvimento infantil. A educação positiva e antirracista é uma questão de saúde pública, que deveria ser discutida desde o pré-natal, nas entrevistas de adoções e na preparação de profissionais da educação. Ensinar o respeito pelo outro na prática, começando pelo respeito à criança como indivíduo dentro de casa é o primeiro passo rumo a uma sociedade mais igualitária.
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Um comentário em “A força da criação com afeto”