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Há futuro para a leitura no Brasil?

Em meio ao aumento do uso de internet e das redes sociais, os livros perderam a atratividade entre os brasileiros. Mas o futuro pode estar nas bibliotecas comunitárias

REPORTAGEM
Vitória Pacheco
opacheco.vitoria@gmail.com

Arte: Luisa Guazzelli Sirangelo

É verdade que os homens mais antigos, os primeiros bibliotecários, usavam uma linguagem assaz diferente da que falamos agora; é verdade que algumas milhas à direita a língua é dialetal e que noventa andares mais acima é incompreensível.
A Biblioteca de Babel, Jorge Luiz Borges

Em setembro de 2020, foi lançada a quinta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, e os resultados foram, em parte, preocupantes. De 2015 a 2019, o país perdeu cerca de 4,6 milhões de leitores, e boa parte deles nas faixas etárias de 14 a 17 anos e de 18 a 24, chegando a oito pontos percentuais de diferença. Mas o que isso quer dizer para o futuro da leitura no país?

A pesquisa realizada quadrienalmente pelo Instituto Pró-Livro (IPL) é dedicada a avaliar o comportamento do leitor brasileiro, buscando contribuir para  discussão e promoção de políticas públicas que estimulem o hábito da leitura. O estudo apontou que o número de leitores no país caiu de 56% para 52% — totalizando os 4,6 milhões. Ele considera como leitor toda pessoa que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos três meses antes da aplicação da entrevista. Os dados apontam que o brasileiro lê, em média, cinco livros por ano — mas apenas dois e meio completos.

Na apresentação dos resultados, promovida pelo Itaú Cultural, Zoara Failla, coordenadora da pesquisa, afirmou que a internet, redes sociais e aplicativos, como o WhatsApp, ganharam muito espaço entre as atividades preferidas no tempo livre entre todos os entrevistados. Enquanto, em 2015, 47% alegaram utilizar internet no tempo livre, na atual pesquisa esse número aumentou para 66%. Já entre os entrevistados que relataram utilizar o WhatsApp, o aumento foi de 15 pontos percentuais.

É possível perceber a queda na porcentagem de pessoas leitoras na maioria das faixas etárias e o aumento do uso da internet e Whatsapp entre os anos de 2015 e 2019 | Fonte: Retratos da Leitura no Brasil.

Esses dados estão relacionados, principalmente, com as faixas etárias que tiveram maior queda percentual de leitores. Thobias Pontes Barcelos, de 16 anos, morador de Gravataí e estudante da Escola Estadual de Ensino Médio José Maurício, conta que o que mais gosta de fazer em seu tempo livre é ficar no celular ou no computador consumindo vídeos e podcasts, além de jogar em consoles. Apesar de gostar de ler, faz isso com pouca frequência. “O último livro que li faz uns dois meses, chamado O homem de giz, afirma o estudante, que está cursando o segundo ano do Ensino Médio. A obra da escritora inglesa C.J. Tudor tem uma trama de suspense e assassinatos.

O poder das influências

Manuela Petri, de 14 anos, se considera uma leitora voraz e conta que sua irmã mais velha foi um dos seus exemplos para gostar de ler. Além disso, destaca que compartilhar a leitura com as amigas fez com que o hábito se tornasse mais frequente. Manuela mora em Porto Alegre e está no nono ano do Ensino Fundamental. Ela conta que lê mais de 15 livros por ano. 

Esse é um dos grandes fatores que influenciam a leitura: o incentivo de outras pessoas. Cerca de 34% dos entrevistados para a pesquisa do IPL disseram que alguém os estimulou a gostar de ler, sendo a família e os professores os mais citados como influenciadores.

O professor de Português e Inglês Dêner Ramos, de 27 anos, sempre vê seus alunos consumindo conteúdos ligados à cultura pop. “Cultura pop é tudo que tem alguma lógica midiática por trás. Eu os vejo consumindo muito mídias visuais, como animes, filmes e séries.  Muitos jogam videogame no celular ou nos próprios consoles e computadores”, explica o professor, que leciona em uma escola municipal em Porto Alegre.

“Para incentivar os alunos a ler, é necessário partir do contexto deles e do que eles gostam para então fazer relações com literatura ”

DÊNER RAMOS, professor de Inglês e Português na Escola Municipal de Ensino Fundamental Recanto da Lagoa, em Porto Alegre

Já o interesse pela leitura é baixo. Dêner relata que poucos de seus alunos, que estão entre o sexto e o nono ano do Ensino Fundamental,  já têm o hábito de ler livros. Quando se refere a livros, destaca que não se trata somente de livros com textos escritos, mas também de livros com textos visuais, como mangás e histórias em quadrinhos. O professor explica que os alunos só conseguem ter interesse pela leitura se aquilo que leem faz sentido em suas vidas. “Para incentivar os alunos a ler, é necessário partir do contexto deles e do que eles gostam para então fazer relações com literatura”, explica. Nesse sentido, para estimular o hábito da leitura entre seus alunos, Dêner desenvolveu um projeto na escola que foi bem aceito. 

É através da intertextualidade entre grandes obras literárias e os conteúdos de interesse dos alunos que Dêner constrói, de alguma forma, o vínculo das crianças com a leitura. Após a realização do seu projeto de análise de fanfiction, um dos alunos lhe procurou pedindo mais indicações de leitura. “E eu me senti muito, muito, muito bem, porque foi sensacional saber que fiz um trabalho que permitiu que aquele aluno construísse a possibilidade de, na vida dele, entrar no mundo da leitura”, comemora. 

Ataque aos livros

Mas além de o Brasil estar perdendo leitores para as redes sociais e internet, é possível que perca ainda mais pelos elevados valores dos livros no mercado. Todo o processo de produção possui altos custos, e dois movimentos do governo federal que estão em andamento podem prejudicar muito o comércio de livros: a unificação do Pis e Cofins, que ocasionará, se não revista, uma consequente taxação no produto — proibida na Constituição Federal de 1988; e a privatização dos Correios. 

Correios são o meio de envio de milhares de livros no país | Foto: Freepik

Este segundo ponto, apesar de não impactar diretamente no valor do livro em si, poderá aumentar os custos da logística de envio. Segundo Tomaz Adour, presidente da Liga Brasileira de Editoras (Libre), existe um tipo de entrega que só é aplicada para livros, chamada de Registro Módico. Ele permite que um livro chegue em qualquer lugar do Brasil com o mesmo valor e num prazo relativamente rápido. “Por exemplo, eu posso enviar um livro para São Paulo e ele chegar em dois dias. Esse mesmo livro enviado para Rondônia poderá chegar em três dias e será pago de R$10 a R$12, dependendo do peso”, explica. Com o Registro Módico, o valor das duas entregas utilizadas como exemplo pelo presidente da Libre atualmente é o mesmo, independente do local de entrega.

Tomaz também questiona como uma empresa privada irá entregar um livro em uma pequena cidade de Rondônia, por exemplo, com o mesmo custo de uma entrega em uma grande capital. Na sua opinião, a empresa privada avaliará primeiro qual o custo de cada envio e o lucro que irá obter nas entregas, e aí calculará o valor que precisa cobrar para em cada uma delas. “Talvez em um livro para Rondônia o consumidor tenha de pagar R$ 50 de frete, por exemplo, que é mais que o valor do próprio livro”, completa.


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A importância da leitura

Em seu canal no Youtube, em um vídeo, o médico Drauzio Varella comentou sobre a importância da leitura. Acompanhado desde a infância por esse hábito, o médico, que é amplamente conhecido no país por suas participações na televisão e por ter escrito obras como Carandiru e Prisioneiras, começou com a leitura de gibis e grandes autores da língua portuguesa. “A leitura é o mais completo de todos os exercícios intelectuais. Quando você está lendo, estimula diversas áreas do cérebro”, afirma no vídeo. Para o médico, é através da literatura que se tem acesso a uma experiência de vida inacessível de outras formas.


Arte: Talia Prates da Luz

As bibliotecas comunitárias

Mas há alternativas para este cenário preocupante? Na contramão dos índices de leitura que estão diminuindo e das dificuldades de acesso aos livros no Brasil, estão as bibliotecas comunitárias, espaços que propõem não só a garantia de acesso à leitura, mas à cultura e à informação para pessoas que, em grande parte das vezes, não possuem outras oportunidades.

Ainda segundo a pesquisa do IPL, 7% das pessoas acessam hoje livros através de bibliotecas públicas ou comunitárias. No país,  existem diversas bibliotecas geridas e organizadas pela sociedade civil. A Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC),  por exemplo, reúne 115 bibliotecas em todo território brasileiro, subdivididas em outras 11 redes locais nos estados do Pará, Maranhão, Ceará, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Trata-se de um movimento pela democratização do acesso ao livro, à leitura, à literatura e às bibliotecas. Francine Conde Cabral, presidente da ONG Colaí Movimento de Cultura, mediadora na Biblioteca Comunitária Marginal Ilha do Saber,  localizada no bairro Arquipélago, em Porto Alegre, diz que a rede trabalha em comunidades de extrema vulnerabilidade social, não só cuidando do acesso à leitura, mas também como um apoio social, distribuindo cestas básicas e fornecendo aulas de reforço e wi-fi. Francine é também participante do conselho gestor da RNBC.

Em novembro de 2020, a rede lançou uma ferramenta para conectar os leitores às bibliotecas comunitárias: um Mapa da Leitura. A funcionalidade permite que as pessoas encontrem as bibliotecas espalhadas pelo Brasil, possibilitando o contato virtual com espaços de leitura dos mais diversos cantos do país, além de ter a possibilidade de acessar o fórum do mapa e trocar experiências com as bibliotecas.

Mapa da Leitura | Fonte: RNBC

O mundo da Lua

Com 12 anos, Lua de Oliveira, hoje com 14, fundou a Biblioteca Comunitária Mundo da Lua, em Duque de Caxias, cidade da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Tudo começou após perceber, em uma visita à Bienal do livro do Rio, que crianças de comunidades, assim como ela, que visitavam o espaço em passeios do colégio, saíam de lá sem livros por falta de dinheiro para adquiri-los. Hoje, sua biblioteca já tem espaço próprio, e ela ajudou a fundar outras 33, sendo três fora do estado do Rio de Janeiro. Além disso, a Mundo da Lua oferece uma série de atividades culturais, como aulas de dança, música, teatro, palhaçaria e artesanato.

Lua, de 14 anos, idealizou uma biblioteca para sua comunidade e, com o apoio dos pais, hoje apoia outras 33 bibliotecas | Foto: Facebook Lua Oliveira/Reprodução

Fátima Regina Nunes de Oliveira, de 60 anos, mãe de Lua e grande apoiadora do projeto, conta que, no começo,  era difícil atrair as crianças para a biblioteca. Mas as oficinas extras e o lanche literário incentivaram a adesão à leitura. “A gente está sempre inventando uma forma da criança ser atraída para a biblioteca, e as crianças gostam muito disso, elas se sentem acolhidas e protegidas dentro da biblioteca, então agora elas vão para o espaço mesmo tendo ou não tendo lanche”, afirma. 

Lua já participou de diversos programas de televisão e rádio divulgando a sua iniciativa e hoje está escrevendo um livro para contar a história da Biblioteca Mundo da Lua. 

O futuro e o presente dos livros

Márcia Cavalcante, coordenadora colegiada da ONG Cirandar, de Porto Alegre, diz que as bibliotecas comunitárias não são apenas o futuro, mas também o presente para o acesso aos livros no Brasil. Trabalhando com bibliotecas há mais de 20 anos, compreende que o cenário era muito diferente do atual. “Hoje o livro e a leitura estão cada vez mais presentes não só no imaginário, possuindo um valor simbólico, como também fazendo parte do dia a dia das comunidades”, afirma. A Cirandar tem, entre outros, o objetivo de promover a leitura entre crianças e jovens. 

Além disso, para Márcia, atualmente há uma maior diversidade editorial: temos publicações de todos os tipos, para todos os gostos, com uma pluralidade muito grande, e isso permite que as pessoas também se enxerguem e se reconheçam na literatura. Márcia afirma que, apesar da situação econômica vivida pelo país, as bibliotecas seguem resistindo e sendo um território fértil para semear o amor aos livros. “Vejo aí um movimento muito bonito de bibliotecas em outras cidades fora de Porto Alegre , como Eldorado do Sul, Alvorada, Cachoeirinha, Caxias do Sul, Canoas, Alegrete. Uma rede grande assim de bibliotecas que vão se espalhando por iniciativas comunitárias e que confirmam o interesse, curiosidade e amor ao livro e a leitura”, diz.

Apesar da força da internet e das dificuldades de acesso aos livros, o trabalho de professores, bibliotecários, profissionais da saúde e voluntários tem sido fundamental para manter o interesse pela leitura por pelo menos parte dos brasileiros. Como diz o professor Dêner, quando o leitor percebe conexão entre a leitura e a sua vida, ela passa a fazer sentido, e a construção de conhecimento passa a ser natural e prazerosa. E esse é um direito de todos, independente do lugar onde se vive, ou da condição social.


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4 comentários em “Há futuro para a leitura no Brasil?”

  1. Muito obrigada pela informações preciosas sobre Literatura no Brasil contemporâneo. É uma alegria saber que existem professores que fazem a DIFERENÇA e tornam-se Exemplos de incentivo a leitura.

  2. Excelente matéria!!!Um informativo muito importante que deve chegar até os gestores públicos, profissionais da educação e professores que trabalham nas duas primeiras etapas da Educação Básica, principalmente dos alfabetizadores. Sou professora e palestrante, tratando com vários temas relacionados a currículo, letramento, alfabetização, leitura e escrita e essa matéria tá perfeita pra enriquecer meu trabalho.

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