Sextante

Corpos e almas livres

A incrível e turbulenta jornada em busca do amor-próprio

REPORTAGEM
Mariane Venditi da Rosa
marianevenditi@gmail.com

Arte: Tamires de Oliveira Gonçalves

Cansei de ficar decepcionada
com a casa que me mantém viva
estou exausta de tanto gastar energia
odiando a mim mesma

Chega de ódio, Rupi Kaur

Quando li pela primeira vez o trecho acima, escrito pela poeta indiana Rupi Kaur no livro Meu corpo minha casa, foi como sentir um soco no estômago. Em meus 24 anos de vida, em nenhum momento eu não estive acima do peso recomendado para meu índice de massa corporal, e a relação que tenho com meu corpo é como uma montanha-russa, cheia de altos e baixos. Foram dietas malucas, limão em jejum, academia, injeção de enzimas que prometem diminuir a gordura localizada e até a bendita noz-da-Índia – semente totalmente proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que promete acelerar o metabolismo e causa uma diarreia absurda. As palavras de Rupi Kaur ecoaram na minha mente por dias. Por que gastar energia odiando um corpo que me mantém viva?

Depois de um tempo, decidi quebrar uma barreira que me segurava na minha batalha por autoaceitação. Furei uma bolha nas minhas redes sociais. Fiz uma limpa e deixei de seguir contas feitas por pessoas que só mostravam corpos e vidas perfeitos. Todo mundo tem imperfeições, né? Comecei a acompanhar hashtags e perfis com conteúdos reais, com um olhar especial para aqueles voltados ao body positive e aos corpos livres. Encontrei até um perfil só com essa temática: o Movimento Corpo Livre, criado pela jornalista Alexandra Gurgel. Com mais de 400 mil seguidores, a influenciadora realiza uma curadoria de notícias, postando curiosidades e conteúdos que buscam a equidade entre todos os corpos, defendendo que todos os corpos merecem direitos, inclusão, acessibilidade e respeito. 

Nessa jornada pessoal de abraçar meu corpo e aprender a amar cada individualidade minha, encontrei mulheres incríveis. Mas antes de apresentá-las, preciso fazer uma pergunta para você, leitor, ou leitora: você conhece o body positive? No fim dos anos 1990, Connie Sobczack e Elizabeth Scott fundaram o The Body Positive Institute, que tem o objetivo de promover a autoaceitação e equidade de todos os corpos. Impulsionado pelas redes sociais, o movimento busca enaltecer todas as belezas, principalmente as que não se encaixam nos padrões, como corpos com deficiência, gorduras, estrias, vitiligo, queimaduras, celulite, cabelos brancos, rugas, cicatrizes, narizes grandes e mais uma infinidade de particularidades.   

“Se você aceitasse que a perfeição é inatingível, de que insegurança você abriria mão?” – Rupi Kaur

Criar uma rede de apoio para mulheres que buscam amar seus corpos: este foi o objetivo de Hilda Rodrigues, de 20 anos, ao começar a compartilhar conteúdos sobre a temática no Instagram. “Eu decidi falar sobre amor próprio quando eu buscava criar uma boa relação com o meu corpo. Quando comecei a desabafar, muitas pessoas se identificaram. Eu gosto de compartilhar histórias reais para que as pessoas se sintam abraçadas”, conta. 

Hilda decidiu falar de amor próprio no Instagram | Foto: Arquivo pessoal

Hilda mora em Recife, em Pernambuco, e descreve a relação com seu corpo como conflituosa, já que ela sempre foi considerada fora dos padrões por não ser magra: “Há 10 anos eu fazia de tudo para mudar e eu não gostava dele. Não que eu me ame 100% hoje, porque é uma eterna aprendizagem, mas foi uma relação dolorosa. Eu chorava bastante, com baixa autoestima, me sentia mal porque via pessoas falando sobre meu corpo e isso me dava um gatilho emocional altíssimo”. Hoje, felizmente,  ela entende que o padrão de beleza é uma construção social, e  tudo bem não estar inserido no que se espera.  Ela também sabe que seu corpo não é errado, e é inaceitável que outra pessoa queira ditar regras para ele. 

A página do Movimento Corpo Livre também foi fundamental neste processo de Hilda. “Eu via muitas mulheres que mostravam seus corpos do jeito que eles são, que iam à praia, coisa que eu sempre me privei. A partir do momento que eu me senti segura naquela rede, desencadeou uma vontade imensa de ser livre também, de querer me amar da forma como as pessoas estavam se amando ali.”  A inclusão de corpos plurais em publicidade, redes sociais, novelas, revistas e outras mídias é fundamental para aumentar a autoestima de milhares de mulheres. 

“Ver pessoas parecidas comigo fez desencadear esse processo e mudar minha forma de olhar para mim mesma”

HILDA RODRIGUES, influenciadora digital

Segundo a jornalista e doutora em Comunicação Caroline Pilger, as redes sociais têm um impacto positivo para o empoderamento feminino: “Esse processo das mulheres mostrarem seus corpos para outras verem é essencial. O empoderamento é de dentro para fora, mas ele só funciona se eu me empodero e trago respostas para o coletivo”. Em sua pesquisa de doutorado, Caroline estudou as representações de corpos gordos na revista Donna, voltada ao público feminino. Para a pesquisadora, o corpo em si é só uma parte da autoestima: “Nós também temos autoestima intelectual, profissional, mental, emocional, espiritual, e a gente esquece que a nossa intelectualidade, por exemplo, pode falar da nossa autoestima. É um combo”, afirma. A jornalista ainda vai além e reflete sobre a função social pedagógica exercida pela mídia: “A representatividade midiática é imprescindível. Pensar de uma forma interseccional sobre representatividade, gênero, raça e classe deveria ser obrigatório em todos os cursos de comunicação, pois esses olhares vão ajudar a construir as narrativas sobre o outro”. 

Allana não vê o corpo queimado representado na mídia | Foto: Arquivo pessoal

Para Allana Krysna, de 21 anos, ser incluída em diferentes cenários é essencial. Ela fala sobre uma campanha recente da revista Vogue, que, embora trouxesse uma pluralidade de corpos,  não fez com que ela se sentisse representada. “Você não vê o queimado em campanhas de publicidade, campanhas femininas. Tem todos os tipos de corpos, menos o nosso. Essa é a minha luta: que a gente seja visto e incluído na sociedade, o que é muito difícil.” 

 Com menos de dois anos de idade, ela passou por um acidente doméstico e teve 47% do corpo queimado: “Eu estava com a babá e me queimei com um fósforo. A roupa de bebê é feita de algodão e é totalmente inflamável, então qualquer faísca pode ocasionar um grande acidente. Eu fiquei 93 dias internada no [Hospital Regional da Asa Norte], hospital referência de queimaduras aqui em Brasília, onde eu moro”. Allana conta que sua infância foi muito conturbada, dividida entre estudos, internações e tratamentos para a queimadura. Fora isso, ela ainda enfrentava casos sérios de bullying na escola, o que desenvolveu agressividade e bloqueio para a criação de amizades. “Eu comprava as pessoas na escola para serem meus amigos. Comecei a fazer estágio com 14 anos, e, todo o dinheiro que eu tinha, eu comprava um lanche pra pessoa ser minha amiga, para eu ter alguém pra andar comigo. Eu era muito inteligente, mas não tinha mais vontade de ir pra escola”, desabafa. A relação com o corpo também afetou os relacionamentos da influenciadora: “Foi tudo muito diferente pra eu conseguir me relacionar com as pessoas. Eu não confiava. Achava que as pessoas estavam comigo por pena, então acabava sendo muito fria”. 

Não são apenas conflitos internos que nos afastam do amor-próprio. Comentários externos só dificultam essa luta diária. Hilda compartilha que é preciso reconhecer seus limites e não dar ouvidos para o que as pessoas pensam: “Eu recebo mais [críticas] principalmente de pessoas que são próximas a mim, sabe? Falam que eu romantizo a obesidade, que não é bonito uma mulher ter a virilha escura. Não que eu não ligue, mas hoje em dia eu sei lidar e entender que aquele comentário não vai me acrescentar em nada, então não adianta eu colocar isso pra dentro da minha cabeça”. Para Allana, não é diferente: “Já faz 20 anos que eu me queimei e pouca coisa mudou. Muitas pessoas não mudaram o comportamento, o jeito de me tratar, então eu ainda sofro, mas eu aprendi a lidar com isso”.


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“Você põe tudo a perder quando não ama primeiro você, e ganha tudo quando se ama” – Rupi Kaur

As fotografias foram grandes aliadas na descoberta do amor próprio para ambas. Quando começou a criar conteúdos sobre corpos livres, Hilda passou a fazer fotos do seu próprio corpo. Vendo imagens suas na praia, sentada, sem esconder os braços ou a barriga, ela passou a realizar um exercício diário, tentando se enxergar com mais carinho e menos apreensão: “ A partir do momento que eu comecei a fazer minhas próprias fotos sem precisar colocar Photoshop, sem precisar encher de edição, eu percebi que era dessas fotos naturais que eu gostava”. Além disso, a influenciadora reconhece a importância de ter uma rede de conteúdos positivos ao seu redor para se manter bem. “Ver pessoas parecidas comigo fez desencadear esse processo e mudar minha forma de olhar para mim mesma”, conta. 

Para Allana, foi quando sua foto em uma praia do Rio de Janeiro viralizou no Twitter que ela percebeu que tinha nascido para criar conteúdo e compartilhar sua história com mais pessoas. Atualmente, a meta da influenciadora é ensinar as pessoas a se amarem e aceitarem suas próprias realidades: “Acho que a função é essa, não adianta eu querer ser alguém que eu não sou. Não adianta eu buscar a perfeição, nem de vida e nem de corpo perfeito”, reflete. 

É preciso ter muita resiliência para conhecer nosso corpo, nossa mente e nossas limitações. Os corpos mudam, e nada nos dá o direito de comentar a mudança corporal alheia. Afinal, todos nós envelhecemos, criamos estrias, celulite, podemos engordar ou estar sujeito a acidentes, por exemplo. Respeitar o corpo alheio é, literalmente, fazer o mínimo; amar seu próprio corpo é liberdade, revolução e autocuidado. Pelas palavras de Naomi Wolf, em O mito da beleza: “Sai ganhando a mulher que se considera linda e que desafia o mundo a se transformar para poder realmente vê-la”. Acompanhar mulheres como Hilda, Allana, Caroline, Alexandra, Kéren, Lorena e tantas outras é um exercício que me ajuda nessa trilha da autoaceitação. O caminho é sinuoso, confesso, mas pode apostar que fica mais fácil a cada novo dia, story ou desabafo compartilhado. 


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Conheça outras mulheres que lutam pelo empoderamento feminino

Por experiência própria, sei que acompanhar pessoas que falam sobre empoderamento feminino ajuda (e muito!) na construção de uma relação saudável com o próprio corpo. Pensando nisso, aqui vão algumas sugestões de perfis que abordam o body positive e temas relacionados. Divirta-se!

Duda Buchmann

Lorena Eltz

Kéren Paiva

Alexandra Gurgel

Helen Ruth Elam

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