A tendência da estação é o verde

Alternativas sustentáveis e menos agressivas ao meio ambiente são apostas do setor têxtil para o futuro 

REPORTAGEM
Caroline Oliveira

carolineoliveirasva@gmail.com

ILUSTRAÇÕES
Nícolas Mollardi
Talia Luz (capa)

Não tem como fugir. Seja em maior ou menor escala, todos nós somos clientes dela: a indústria da moda. Acima de questões estéticas e culturais, o vestuário é uma das necessidades humanas elementares, embora as condições socioeconômicas sejam um fator limitante e, muitas vezes, excludente no consumo de roupas. Ou seja, o gosto dos consumidores esbarra no valor das peças. 

Aqueles com maior poder econômico usam as roupas como um elemento de confirmação do seu status social, exibindo peças de grifes que chegam a custar milhares de dólares. Alimentada pelo anseio de novidades e pela busca de pertencimento social, a indústria têxtil vem jogando milhares de toneladas de roupas no mercado e, consequentemente, no meio ambiente. Numa quantidade maior do que a que conseguimos consumir. 

“Cerca de 30% de todas as roupas produzidas no mundo nunca serão vendidas”, afirma Mariana Santiloni, diretora de serviços ao cliente da consultoria de tendências WGSN. Segundo levantamento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), divulgado em 2019, nos últimos 15 anos, o consumo de peças cresceu 60% no mundo, e o tempo de permanência dos itens no roupeiro caiu pela metade. 

Esse ritmo de produção agride os recursos naturais do planeta. Dados do Pnuma apontam que o setor ocupa o segundo lugar no consumo de água e é responsável por cerca de 10% das emissões de gases-estufa, ultrapassando o transporte marítimo e aéreo juntos. Ao ano, a indústria libera 500 mil toneladas de microfibras sintéticas nos oceanos, as quais demandam 70 milhões de barris de petróleo para serem produzidas e levam mais de 200 milhões de anos para se decompor. Mesmo materiais naturais, como o algodão, consomem recursos hídricos: uma camiseta precisa de 2,7 mil litros de água para ser produzida, aponta um estudo do World Wildlife Fund

De outro lado, a indústria da moda está avaliada em cerca de US$ 2,4 trilhões e emprega mais de 75 milhões de pessoas no mundo. O sistema de produção de moda atual, chamado fast fashion, prioriza a fabricação em massa e o consumo constante, além de ocultar os impactos ambientais do ciclo de vida dos produtos e os aspectos sociais da produção que envolvem mão de obra mal remunerada e, em alguns casos, condições de trabalho análogas à escravidão. Na contramão, surge um movimento para repensar a maneira do consumo hoje, mas já com os olhos no futuro. 

Slow fashion: devagar para ir sempre

O slow fashion é uma alternativa de produção e consumo mais sustentável tanto nos aspectos ambientais quanto sociais. A prática prioriza o consumo local, a redução de resíduos na produção, o uso de materiais menos agressivos ao meio ambiente e a remuneração justa dos trabalhadores. 

Além do apelo socioambiental, repensar o modelo de produção do setor fashion é uma questão financeira. A ONU Meio Ambiente estima que cerca de US$ 500 bilhões sejam perdidos ao ano em descarte de roupas que vão para aterros e lixões. Em contrapartida, o slow fashion pode trazer benefícios econômicos. Um estudo publicado pela Bloomberg, em janeiro de 2020, mostra que a revisão de práticas de descarte de resíduos e consumo de água, energia e produtos químicos pela indústria têxtil pode aumentar o lucro do setor em cerca de € 110 bilhões ao ano.

No Brasil, o mercado de peças de segunda mão, conhecido como second hand, cresce mais do que a indústria de luxo. Entre 2018 e 2019, seis em cada 10 brasileiros compraram algum item do segmento, segundo um levantamento feito pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). 

É nesse nicho de mercado que as irmãs Carolina e Camila Dutra, de Porto Alegre, resolveram apostar. Juntas elas criaram a Loop for Good, uma plataforma online de aluguel de roupas para bebês de zero a dois anos com assinatura mensal. Os clientes escolhem as roupas e o tempo que pretendem ficar com elas. O valor mínimo mensal cobrado é de R$ 50, e a plataforma reúne peças entre R$ 7 e R$ 38. 

Além de empreendedoras, as irmãs são mães e passaram pela experiência de ver os filhos crescerem numa velocidade que as roupas não conseguiam acompanhar. Como conta Carolina: “Tem peças que a gente usa uma única vez e outras às vezes a gente nem tem tempo de usar. Quando pisca, a criança já cresceu cinco centímetros, ou seja, nem de perto as roupas são aproveitadas em todo o seu potencial”, conta Carolina. 

“Além de financeiramente irracional, acarreta numa série de outros problemas, como, por exemplo, as toneladas de resíduos têxteis, que são produzidas anualmente no mundo e que não são corretamente descartadas ou recicladas”

CAROLINA DUTRA, uma das proprietárias da Loop for Good

As roupas adquiridas nos primeiros dois anos de vida das crianças têm um ciclo médio de uso de três meses. “Além de financeiramente irracional, acarreta numa série de outros problemas, como, por exemplo, as toneladas de resíduos têxteis que são produzidas anualmente no mundo e que não são corretamente descartadas ou recicladas”, explica Carolina.

A empresária ressalta que a preocupação com o meio ambiente é um dos pilares da Loop for Good, por isso, não utilizam plásticos nas embalagens, usam produtos veganos e biodegradáveis para a higienização das peças, além de priorizarem marcas brasileiras a fim de fomentar a economia local. As peças que não se enquadram mais na plataforma são doadas para comunidades carentes. “A gente sabe que é superdifícil ser 100% sustentável, mas a gente está nesse caminho”, afirma Carolina.


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Descrição: Duas costureiras estão de pé em um ateliê de costura. Uma delas segura uma placa em que está escrito “Eu costurei sua roupa”.
Costureiras responsáveis pela confecção da Levi Thai Clothing participam da ação #QuemFezMinhasRoupas, promovida pelo Fashion Revolution Brasil | Foto: Levi Thai Clothing / Divulgação

Brechó: a última tendência

Dentro do mercado second hand, o segmento de vendas de roupas, calçados e acessórios usados ou seminovos vem crescendo, impulsionado pela tecnologia. Entre 2013 e 2016, o número de brechós cresceu 23% no Brasil, conforme mostra pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). De acordo com o levantamento da CNDL, os principais canais de compras são os sites especializados e as redes sociais, que correspondem, respectivamente, a 69% e 54% na preferência do público. 

A psicóloga Ana Paula Deon, de 26 anos, faz parte desses clientes. Moradora de Casca, no interior gaúcho, ela é consumidora de brechó desde os 13 anos, quando começou a trabalhar em um. “Como eu trabalhava lá, adquiri algumas roupas de lá. Aí, eu vi que era muito mais barato do que nas lojas normais e que as roupas eram boas”, lembra Ana. Além dos preços, a curadoria é um diferencial dos brechós. “Geralmente as roupas que eu compro no brechó são únicas. Gosto de saber que aquela roupa tem uma história, que ela não é só mais uma peça”, conta. 

De consumidora a brecholeira, a jornalista Gisele Ramos, de Porto Alegre, criou o Brechó XL, especializado em tamanhos grandes, depois de fazer uma cirurgia bariátrica, perder peso e medidas e precisar dar um destino para o seu guarda-roupa cheio de peças que não serviam mais. “A ideia foi baseada na minha necessidade, porque eu passei grande parte da minha vida sendo obesa, usando tamanhos grandes. Vi que já era difícil de encontrar em lojas convencionais e, em brechós, era simplesmente impossível. E sempre pensei como seria legal ter um brechó plus size, onde eu pudesse encontrar roupas do meu tamanho”, relata. 

Captura de tela da página com produtos do Brechó XL, como blusas, coletes e calças jeans.
Em formato online, o Brechó XL é especializado em roupas de tamanhos grandes | Foto: Brechó XL / Divulgação

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Sustentabilidade: a próxima fase da moda

Para definir a sustentabilidade dentro do mundo fashion, é preciso considerar três dimensões: ambiental, social e econômica. A primeira está relacionada com o uso de produtos não nocivos, com o baixo desperdício, a reutilização de materiais, além da gestão consciente e eficiente de água e energia. A dimensão social está ligada ao bem estar do consumidor, à busca pela criação de laços afetivos entre produtor e cliente, bem como às condições de trabalho digno para todos da cadeia produtiva. Por último, é preciso avaliar se os preços são adequados aos produtos, qual o porte da empresa e se ela possui uma comunicação transparente sobre suas ações.

A coordenadora do Núcleo de Moda Sustentável da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Evelise Anicet, ressalta a importância da ética e da transparência com os consumidores e alerta para o uso da sustentabilidade apenas como uma ferramenta de marketing. “O princípio que permeia a sustentabilidade é o da transparência e da ética, no sentido de ter aquilo que eu falo. O importante é dar o passo conforme as pernas”, comenta Anicet. 

Apesar das dificuldades de uma empresa ser sustentável em qualquer parte do mundo, a pesquisadora avalia que no Brasil estamos em um nível atrasado. Recém chegamos na fase consensual, ou seja, da tomada de consciência dos problemas e da necessidade de mudança. Apesar disso, o país tem condições para se destacar na moda orgânica e sustentável, já que possui toda a cadeia produtiva dentro das suas fronteiras, desde a plantação das matérias-primas até a venda. 

Um dos grandes obstáculos do slow fashion está no custo das peças em relação às indústrias fast fashion, que, devido ao formato de produção em larga escala, conseguem baratear os valores dos produtos. A professora do curso de Moda da Faculdade do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) de Porto Alegre Débora Elman destaca a importância de leis que incentivem um preço competitivo e que ofereçam suporte para aumentar a produção da indústria slow fashion. Para Débora, que é doutora em Comunicação pela UFRGS , esse é um dos meios de furar a bolha e expandir um consumo sustentável para o grande público. 

A professora ressalta também a necessidade de repensarmos o consumo. É preciso refletir, na hora da compra, se a peça será utilizada ou se serve apenas para saciar a vontade de consumir algo. “A pandemia fez nos darmos conta que é preciso e possível ter menos e usar cada peça com mais criatividade, aumentando a vida útil dela”, observa. 


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O futuro será verde ou não será

Raquel Chamis e Laura Madalosso, de Porto Alegre, já tinham experiência na área da moda e compartilhavam o desejo de transformação do setor. Assim, criaram a Cora Design, uma consultoria estratégica para sustentabilidade nos negócios de moda. “Temos duas frentes principais: de um lado, auxiliar empresas que têm um modelo convencional, ligado à lógica linear de extrair-produzir-descartar, a fazer transição para a sustentabilidade, ligada ao modelo circular. De outro, construir novos negócios que já nascem guiados pela sustentabilidade e que, por exemplo, se responsabilizam pelo que lançam no mundo, propondo sistemas de logística reversa”, explica Raquel. 

“Existe uma cobrança dos consumidores por produtos mais sustentáveis. Então é um caminho que, cedo ou tarde, precisa ser trilhado pelas empresas”

RAQUEL CHAMIS, uma das proprietárias da Cora Design

A empreendedora conta que a maior necessidade dos clientes está na criação de soluções que tenham impacto positivo dentro de um mercado guiado pelo lucro e pela produtividade. Além da organização de uma cadeia produtiva que envolva fornecedores alinhados aos princípios da sustentabilidade, da matéria-prima até a venda. 

Para Raquel, o futuro do setor está nas práticas sustentáveis. “Existe uma cobrança dos consumidores por produtos mais sustentáveis, assim como metas globais pelo desenvolvimento sustentável — a Agenda 2030 da ONU. Então é um caminho que, cedo ou tarde, precisa ser trilhado pelas empresas — para além de tendências do mercado”, conclui. 


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Uma das ações mais significativas para o futuro da moda está na pactuação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Nele, os países signatários assumem a responsabilidade de assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis com redução de produtos químicos e de resíduos por meio da prevenção, da reciclagem e do reuso, além de promover campanhas de educação ambiental e consumo consciente. 

Outra ação de impacto mundial é a campanha Quem Fez Minhas Roupas, promovida pelo movimento Fashion Revolution, que leva consumidores a perguntarem para as marcas quem são os responsáveis pela confecção das suas peças. O objetivo é trazer transparência sobre as etapas de produção e consumo de roupas, além de reivindicar condições dignas de trabalho para quem está empregado no setor da moda. O Fashion Revolution busca conscientizar os consumidores sobre o verdadeiro custo da indústria da moda. O movimento promove anualmente uma semana para debates e reflexões: neste ano, o evento foi virtual e teve início no dia 19 de abril. 

Arte: Nícolas Mollardi

Os exemplos apresentados, do slow fashion ao second hand, mostram que as tendências para o futuro da moda passam obrigatoriamente por uma mudança de olhar e de práticas tanto para o formato de produção das empresas quanto para o nosso próprio consumo. Para que haja um futuro, é preciso repensar nossas escolhas no presente. 

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