O trabalho do amanhã

Tendências atuais, como o home office e a utilização crescente de recursos digitais, indicam caminhos possíveis para o cenário trabalhista dos próximos anos

REPORTAGEM
Lilian Dias
lica_cia@hotmail.com

Arte: Maria de Fátima Martins

Em escritórios, fábricas, comércios e diversos outros estabelecimentos, as mudanças nas formas de trabalhar impulsionadas pelas tecnologias e por novos modelos de negócio já são sentidas há anos. A flexibilização dos contratos trabalhistas e a crescente digitalização nas organizações já acontecem nos dias atuais.

De acordo com a professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Clarice Speranza, as condições de trabalho na atualidade estão se transformando e tornando-se cada vez mais instáveis e precárias, com a desconstrução de diversos direitos trabalhistas conquistados ao longo do século 20 pelos trabalhadores brasileiros. “O que a gente vive hoje em termos de tendência, tanto no Brasil quanto no mundo, é uma precarização das condições de trabalho que foi acelerada pelo contexto da pandemia”, afirma Clarice.

Na visão da professora, que pesquisa a área da história do trabalho, a Reforma Trabalhista de 2017 trouxe inúmeras modificações nos tipos de contrato, oficializando modelos como trabalho intermitente, temporário, remoto e autônomo. Tudo isso contribuiu para essa precarização. Somadas a isso, as altas taxas de desemprego registradas no país e a crise econômica tornaram o mundo do trabalho um espaço complexo e de grande vulnerabilidade.

Aceleração dos novos modelos de trabalho

Além de todas as dificuldades apontadas, a pandemia acelerou ainda mais essas transformações nos modelos de trabalho, fazendo com que práticas como o home office e, consequentemente, a utilização de recursos digitais, passassem a fazer parte da rotina de muitos profissionais e empresas devido à necessidade de isolamento social.

Na foto, visão de cima de uma mulher digitando no notebook.
Home office e utilização de recursos digitais já são parte da rotina de muitos profissionais | Foto: Unsplash / Avel Chuklanov

Essa mudança repentina foi sentida pelo músico gaúcho Alexandre França, morador de Porto Alegre. “A pandemia mudou drasticamente o meu trabalho como músico profissional. Eu sou guitarrista e tinha uma agenda de shows que da noite para o dia foi simplesmente liquidada. Foi um susto muito grande”, conta ele.

Além disso, Alexandre também trabalhava com produção de eventos e dava aulas particulares de música. Quando a agenda de shows e eventos ficou suspensa e sem previsão de retorno, ele passou a oferecer aulas remotas . “As aulas online acabaram se tornando o carro chefe, as únicas atividades as quais eu permaneço exercendo atualmente.”

Para conseguir atender seus alunos nesse contexto, teve que realizar diversas adaptações na metodologia de ensino e precisou adquirir equipamentos para o seu estúdio caseiro. Ele conta que pretende continuar com aulas remotas mesmo após a pandemia, mas vai retomar as presenciais. “Eu tenho muita saudade de estar junto com o aluno. Além de ser algo que traz uma resposta mais imediata na questão do resultado, de ver o aluno melhorando.”

Apesar dos desafios e da saudade do contato direto com seus alunos, Alexandre destaca que trabalhar em casa possibilita um melhor aproveitamento do tempo que era gasto com deslocamento. “O maior bem que a gente pode ter é o tempo. De repente eu me dei por conta que eu estava ganhando esse bem, eu estava tendo essa vantagem. E aí eu procurei aproveitar esse tempo para tentar me qualificar melhor dentro desse universo de aulas online e até estudar outras coisas”, afirma ele.


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Rumos para o futuro

Um homem branco, de cabelos curtos e escuros olha para a cãmera com os braços cruzados sobre um violão. No seu braço esquerdo há uma tatuagem de uma carta de baralho. Ao fundo da imagem há outro violão e dois quadros.
Alexandre precisou adaptar suas aulas ao modelo remoto na pandemia | Foto Arquivo pessoal

Assim como Alexandre, muitas empresas que migraram para o home office no último ano não pretendem mais abandonar o modelo remoto . De acordo com um estudo da consultoria imobiliária Cushmam & Wakefield, 56% das empresas que não adotavam o sistema remoto de trabalho antes da pandemia e que o fizeram para cumprir a determinação de isolamento social planejam adotar um sistema híbrido daqui para frente.

Para Luís Fernando Guedes, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA) com ampla experiência em inovação aplicada aos negócios, o modelo híbrido oferece o melhor do presencial e o do online. “É o melhor do mundo do online, porque você tem redução da necessidade de deslocamento, a qualidade de vida aumenta e há maior oportunidade de ficar próximo da família”, diz ele.

“Mas também tem problemas. O problema de ergonomia, de infraestrutura das comunicações, do ruído que tem na casa, porque eventualmente você não mora sozinho e tem os filhos e tem as pessoas que moram com você. Enfim, a falta de um lugar adequado para você trabalhar. E isso pode ser contornado com ir ao escritório em alguns dias da semana.”

Além disso, para quem trabalha em casa, existem todos os custos que envolvem essa alternativa, como o de luz e da manutenção dos equipamentos, que normalmente não são bancados pelas empresas. Para as mulheres que são mães, existe também a sobreposição do trabalho com as tarefas da casa e dos cuidados com os filhos. Fora o fato de que a interação social do ambiente de trabalho fica prejudicada.


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Equipes diversas e flexibilizações

Essa possibilidade de trabalhar fora do local tradicional também abre possibilidades de formação de equipes de trabalho mais diversas no futuro, compostas inclusive por pessoas de regiões bastante distantes.

“No mercado de trabalho, a gente estava atrelado até então pela geografia e isso está para mudar. Então a formação das equipes vai mudar. Isso não é nem uma evolução, é uma revolução”, afirma Luís Fernando.

Na foto, um notebook aberto em uma tela de videochamada com diversas pessoas.
O trabalho remoto abre possibilidades de formação de equipes cada vez mais diversas no futuro | Foto: Unsplash / Chris Montgomery

Além disso, é cada vez mais usual empresas optarem por profissionais temporários para projetos específicos em picos de demanda. Em 2020, a mão de obra temporária com carteira assinada atingiu em outubro a maior marca de contratações desde o início da série do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em 2008.

Entretanto, o sociólogo e professor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) Diego Monte Blanco ressalta que não é possível analisar o mundo do trabalho de forma homogênea, pois o surgimento de novos modelos e tecnologias não significa sua implementação por todos os setores.

“Da mesma forma como a gente tem trabalhos hoje mais ligados a essa lógica de pesquisa, desenvolvimento e inovação, com trabalhadores que vão trabalhar nessas lógicas de engajamento por projetos, tem trabalhadores que estão na indústria ainda com a carteira assinada, com uma perspectiva tradicional de trabalho de médio a longo prazo”, destaca ele.

Novos espaços

Quanto aos locais de trabalho no futuro, o professor Luís Fernando entende que os ambientes deverão emular cada vez mais a experiência e o conforto doméstico, principalmente para os trabalhadores do conhecimento. Outra tendência são os espaços compartilhados, que tiveram um aumento de 57% em junho de 2020, segundo a plataforma brasileira BeerOrCoffee.

Na foto, um ambiente de trabalho compartilhado com várias mesas de escritório.
Procura por espaços compartilhados de trabalho cresce durante a pandemia | Foto: Unsplash / Austin Distel

“Toda tarefa repetitiva, seja ela qual for, vai ser automatizada. E não resta dúvida sobre isso. A dúvida não é se, mas quando”

LUÍS FERNANDO GUEDES, professor da Fundação Instituto de Administração

Habilidades e profissionais do futuro

Os especialistas concordam que os trabalhos operacionais, repetitivos e que requerem tarefas simples serão os mais ameaçados pela ascensão de tecnologias como a Inteligência Artificial (IA) e podem desaparecer em poucos anos. “Toda tarefa repetitiva, seja ela qual for, vai ser automatizada. E não resta dúvida sobre isso. A dúvida não é se, mas quando”, afirma Luís Fernando.

“Essas tecnologias devem tirar os seres humanos dos trabalhos repetitivos. O que pode ser uma coisa boa, porque o trabalho repetitivo em alguma medida desumaniza quem o executa, mas pode ser uma coisa ruim se a única coisa que a pessoa sabe fazer é aquilo”, complementa o professor.


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Quanto a esse aspecto, o sociólogo Diego ressalta que a tecnologia em si não é ruim, mas é preciso pensar em como, dentro de um processo de desenvolvimento tecnológico, garantir que haja trabalho, emprego e renda digna para a maioria da população. Para isso, é essencial ter foco em desenvolvimento tecnológico, ou seja, investir em ciência, inovação, tecnologia, pesquisa, em parceria com o setor produtivo. Dessa forma seria possível gerar empregos mais qualificados, trabalhadores mais bem remunerados e produtos com maior valor agregado.

Por outro lado, há duas tendências de trabalho que se mantêm fortes para o futuro: as profissões high tech e as high touch. As high tech dependem da tecnologia para dar resultados e contam com profissionais altamente especializados que não precisam estar necessariamente no ambiente de trabalho. Já as high touch são baseadas no contato humano, por isso, é essencial que os profissionais estejam fisicamente presentes.

“As atividades que têm muita proximidade humana vão continuar sendo humanas. E não precisa ser uma atividade intelectualmente muito sofisticada. Pode ser um barbeiro ou uma cabeleireira, por exemplo. São atividades de alto contato humano, como psicoterapia, enfermagem e tantas outras”, diz Luís Fernando.

À medida que máquinas e softwares passam a assumir tarefas repetitivas e operacionais, teoricamente a expectativa em relação às pessoas aumenta, assim como a demanda por profissionais qualificados, com capacidade de comunicação, empatia, flexibilidade e habilidade de tomar decisões complexas em cenários diversificados. A grande questão é como, no Brasil, garantir o trabalho para pessoas que construíram a vida a partir de funções mais braçais e menos valorizadas socialmente.

Os profissionais do futuro, que não se enquadram nessa categoria, terão que combinar familiaridade com as inovações tecnológicas, habilidades comportamentais e capacidade analítica. “Dentre as habilidades técnicas, eu vejo que data science está no centro dessa discussão”, diz o professor Luís Fernando. Data science é a ciência que envolve a geração de conhecimento a partir da análise de dados. “Então, aprender a manusear dados em grande quantidade e contar uma história a partir deles é uma competência que será valiosa para quase qualquer formação”, prevê o professor.

Quanto às habilidades comportamentais ou soft skills, a capacidade de aprender a aprender (no inglês life long learning) é uma das mais mencionadas por especialistas e deve permanecer no futuro. Isso porque a tecnologia vai acelerar tanto as mudanças que estar em constante aprendizado será essencial. Além disso, a adaptabilidade, a inteligência emocional e coletiva e o mindset digital, ou seja, a mudança de mentalidade em relação ao novo mundo digital, também serão necessários aos trabalhadores.

Trabalho para todos?

Para além dessa parcela de profissionais especializados ou ligados à tecnologia, também é preciso pensar nos trabalhadores que prestam serviços comuns, como domésticas, vendedores, lixeiros, entre outros. Será que essas pessoas conseguirão se adaptar aos novos modelos de trabalho?

Atualmente, já é um desafio para muitos conseguirem se inserir no mercado. De acordo com os dados apurados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 13,9 milhões de pessoas na fila do desemprego.

Arte: Eliseu Sauthier

Nesse cenário, os modelos de contratação temporária, intermitente, remoto e híbrido trazem ainda mais complicações para os trabalhadores, que muitas vezes ficam em situação de vulnerabilidade. “Essas mudanças vão aos poucos transformando as relações de trabalho e fazendo com que o trabalho se torne cada vez mais instável, cada vez com menos direitos e com condições cada vez mais precárias, com o aumento da jornada, o acúmulo de funções, entre outras coisas”, afirma a professora Clarice Speranza.

Sobre o futuro desses trabalhadores, o sociólogo Diego Blanco destaca que nem todos conseguirão se adaptar e que as mudanças não devem impactar todas as atividades da mesma forma. “Tem pessoas que têm facilidade de trabalhar com essas lógicas, mas tem pessoas que passaram a vida se preparando para exercer uma atividade mais previsível, com mais segurança”, destaca ele.

Os especialistas concordam que não há como prever exatamente quais serão os desdobramentos desse quadro. Contudo, apontam que a saída inevitavelmente passa por políticas públicas que tenham como foco a educação, a capacitação para atuar nesse contexto tecnológico e a geração de empregos.

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