O combinado é claro: Heitor Adão Dutra, de seis anos, só joga videogame nos finais de semana e com limite de tempo. Mas nesta semana é diferente. É sexta-feira de manhã, e ele senta no sofá amplo da sala, com o controle branco na mão. Ele está pronto para mostrar como é que ele brinca. O jogo escolhido é uma simulação de voo. Ele se vira para a mãe, sentada à sua direita, e pergunta: “Onde fica Dubai?” A mãe entende de geografia, mas não tanto daquele videogame. Então o pai, do fundo da sala, caminha em direção ao filho para ajudá-lo. Juntos, encontram a cidade no mapa e clicam.
Essa escolha, que poderia passar despercebida, carrega uma história. A mãe explica que uma amiga de Heitor, a Júlia, se mudou de Porto Alegre para Dubai. Enquanto ouvimos essa explicação, ele voa pelas ruas da nova cidade de Júlia e comenta sobre os prédios. “É esse que tem as fontes?”, a mãe pergunta. “Não, é o mais alto”, Heitor responde. Ele sabe, porque Júlia contou que já foi lá, quando conversaram por telefone. E, claro, ele também passou pelo mesmo prédio minutos antes, com o avião em constante turbulência.
A mãe de Heitor, Sabrina Fernanda Adão, de 36 anos, é psicóloga infantil. Ela observa que, durante a brincadeira, as crianças acessam o próprio mundo interno e comunicam o que estão sentindo. “O brincar é a linguagem da criança”, afirma. No mundo interno de Heitor, ele não precisa do videogame para voar. Ele também passeia com aviões de madeira e de plástico. E, além de passar por cidades que já existem, constrói outras. Faz isso com blocos de MDF, Lego e, às vezes, até miniaturas dos personagens de Pokémon. Ele nos mostra todas essas brincadeiras, mas responde que a preferida é ler. Então sobe na cama e pega, sorridente, o livro do momento.

Em grupo ou a sós
Sabrina destaca que é importante brincar com outras crianças e também sozinho. “Quando a criança brinca junto com outras crianças, ela exerce habilidades sociais e de gerenciamento de conflitos”, explica. Além disso, brincar em grupo contribui para a sensação de pertencimento, que é importante para a constituição psíquica e a formação da identidade.
Por outro lado, brincar sozinho na infância cria uma autossuficiência saudável. É o que permite que a pessoa saiba que ela se basta. Dessa forma, a criança também tem tempo para elaborar as emoções sem a interferência de outras pessoas.
Se a brincadeira é tão importante, o que os adultos podem fazer para auxiliar? Sabrina diz que as crianças brincam naturalmente. Em vez de ajudar, é preciso que os adultos não atrapalhem. “No brincar da criança, o adulto é um convidado”, propõe. Para ela, eles devem interferir apenas quando a criança corre risco. Caso contrário, é importante deixar as crianças resolverem os próprios conflitos.
“Todo dia pode ser o mais legal do mundo para elas”
TALITA TEN KATHEN, fisioterapeuta e mãe
Sabrina entende que os adultos ficam ansiosos, mas ressalta a importância de ficar em silêncio e observar, dar liberdade para que a criança explore a própria imaginação. O que os adultos podem fazer é oferecer tempo, espaço e condições para que as crianças brinquem.
Ela também alerta para a necessidade de os adultos gerenciarem o uso de telas das crianças e estarem disponíveis para a brincadeira no mundo real. “Eu duvido muito que uma criança que tenha adultos disponíveis ou outras crianças para brincar com ela ainda assim escolha a tela”, avalia.
Corpo que brinca
O mundo de Gabriel Ten Kathen Alessio é uma praça perto de casa. Ele tem apenas quatro anos, mas já anda de bicicleta sem rodinhas a pleno vapor. Não parou de correr desde o momento em que chegamos lá. Na verdade, mal notou a nossa presença: estava ocupado brincando.
A praça que frequentam, na capital gaúcha, funciona como um espaço de comunidade, onde as famílias compartilham ensinamentos e criam vínculos. As crianças não precisam de muito para se divertir por horas. Segundo Talita Ten Kathen, de 38 anos, mãe de Gabriel, elas se entretêm por mais tempo quando inventam as próprias brincadeiras: “Todo dia pode ser o mais legal do mundo para elas”.
Talita é fisioterapeuta e entende que as brincadeiras são fundamentais para o desenvolvimento motor das crianças: “Cada etapa do processo, desde engatinhar até andar, acontece por um motivo. É importante que as famílias confiem no processo e estimulem os movimentos, mas sem pular etapas”.

Gabriel pilotou uma moto no balanço-prancha, rolou na grama com os amigos Samuel e Francesco, subiu em árvores, imitou animais e fez uma breve pausa para ganhar colo da mãe enquanto respondia às nossas perguntas enfadonhas. Ao ser perguntado sobre a coisa mais legal da praça, respondeu: “o balanço azul!”. Seu verdadeiro fascínio, porém, são os trens, e os pais já incorporaram isso à rotina: nos finais de semana, costumam andar de Trensurb, e o aniversário de quatro anos já tinha um tema definido há bastante tempo.
No fim, já cansado da nossa presença, saiu correndo animado para ver algo inédito: “o cachorro-policial”, um cão que andava com uma luz vermelha em formato de sirene nas costas apareceu de repente e era a nova coisa mais legal do mundo.
Em dose dupla
As meninas Teresa e Olívia Bender, de seis anos, têm companhia constante nas brincadeiras. As duas são gêmeas e estão acostumadas a passar o tempo juntas. Quando chegamos para a entrevista, Emília Bender, de 38 anos, mãe das meninas, abriu a porta da casa enquanto elas subiam correndo para o quarto. No topo do beliche, brincavam em um espaço só delas, criando histórias com seus Sylvanian Families, miniaturas de animais com textura aveludada.

Apesar de idênticas na aparência, as duas têm diferenças perceptíveis nas brincadeiras que mais gostam. Enquanto Teresa mostrava seus livros, entre eles um da Turma da Mônica com seu nome, Olívia exibia os desenhos que fez. “Eu gosto de desenhar coisas fofinhas que vejo no celular do vovô”, contou. Ao mostrar as bonecas, Teresa apresentou a Chelsea mágica. “Ela tem todos os poderes.” Já Olívia se divertia com a Chelsea esportiva, que sabe jogar basquete e andar de skate.
Aprender e reaprender
Na sala 101 da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os adultos podem brincar. As paredes são cobertas por estantes com brinquedos de todos os tipos: bichos de pelúcia, blocos de montar, letras e números, bonecos articulados e tantos outros. Para completar, do lado esquerdo tem um recuo com araras cheias de fantasias e acessórios. Ao lado delas, nichos de estante com livros e gibis. Essa sala é a Brinquedoteca Universitária.






Marília Forgearini Nunes, professora da UFRGS e coordenadora da brinquedoteca, conta que o acervo é formado por doações. Qualquer pessoa pode doar. Adultos e crianças da comunidade universitária podem brincar no espaço e pegar brinquedos emprestados. “Funciona como uma biblioteca, só que de brinquedos”, ela esclarece.
Lá, os adultos relembram a infância. “Não tem um adulto que venha aqui e não diga: ‘nossa, eu brincava com isso quando era criança!’”, diz Marília. Até ela está incluída nessa experiência. Todos os dias na brinquedoteca ela encontra Beijoca, sua boneca da infância, que doou para o espaço.

Doutora em educação, Marília defende que brincar é essencial para o aprendizado. Ativa ações cognitivas, como observar diferenças, comparar, criar e estimular a memória. Tudo isso ajuda na absorção das matérias. “Se é um brincar relacionado ao conteúdo, tem uma intencionalidade, que é aproximar a pessoa do conhecimento de uma maneira mais divertida”, explica. No entanto, ela também ressalta que deve existir espaço nas escolas para brincadeiras que não sejam relacionadas ao conteúdo das aulas.
Para ela, é possível que o mundo seja mais sensível, que os adultos continuem brincantes e não desapeguem da criança que existe dentro deles. “Só é utopia se a gente não acredita.”
Heitor, de seis anos, durante a entrevista para esta reportagem se interessou pela fotografia. Veja as fotos dele aqui.
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