Sextante

Uma casa que abraça

As moradias das avós habitam o imaginário de gerações e são espaços concretos de pertencimento, liberdade e carinho na vida delas e na de seus netos

REPORTAGEM
Dominique Monticelli | Pablo Melo
dominiquemonticelli@gmail.com • pablomelosr@gmail.com

Arte: Daniela Pechansky
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“Eu gosto quando ela faz sacolé”, conta Vicente Olgim Bernardes Barcellos, de oito anos, sobre o que mais gosta na casa da avó. As casas das avós são espaços em que quase tudo é possível: as comidas têm um gosto especial, os jardins parecem mais coloridos e o afeto perpassa gerações. Essenciais para a constituição de diversas famílias, são consideradas o segundo lar de muitos netos e netas. A casa da professora da rede municipal Helena Santos dos Santos, de 65 anos, em Porto Alegre, é uma delas. “A época de férias fico praticamente inteira na casa da vó. Todo verão a gente vai umas cem vezes na piscina. Bem pouquinho, né?”, brinca Vicente, neto de Helena. A casa se torna ainda mais atrativa durante o recesso escolar, mas é frequentada pelos netos durante o ano inteiro.

Na entrada da casa, as hortênsias já são sinal de boas-vindas e do espaço acolhedor que a avó Helena constrói. Vicente tem uma relação especial com o lugar, seja pelas atividades que a avó proporciona e pelas brincadeiras no pátio, seja pelo conforto do convívio com ela nesse espaço, em que se sente à vontade como em nenhum outro. Para a avó, a presença de Vicente e de seus outros netos, Rael, de um ano, Júlio, dez, Nathália, 22, e também do bisneto Benício, de um mês, significa muito. “Eu nunca imaginei que ser avó seria tão maravilhoso e me dedico a eles com tudo que posso, porque sempre tive o sonho de ter avó e não tive. Eu disse: ‘Um dia, quando eu for avó, vou tentar ser a melhor avó que eu conseguir’”.

Vicente conta sobre como se sente quando viaja com a avó

As refeições na casa de Helena são momentos de proximidade, quando todos se sentam em torno da mesa junto à cozinha. Os netos adoram a comida da avó. “A vó gosta de inventar, né?”, ela conta, rindo. Cada um pede o que quer, e Helena tenta acomodar as diferenças. “Eu me disponho a fazer uma coisa para cada um, a gerenciar desavenças. Aquele controle e o educar, que temos muito com os filhos, chega na parte de ser avó e a gente já fica um pouco mais liberal.” Quando os netos estão presentes, ela se dedica a eles. Contudo, ser avó não impede Helena de manter sua independência: “Mas a vó também gosta de passear. ‘Que tanto tu passeia, vó?’ É meu tempo”.

À frente da casa de Helena, o jardim cheio de vida acolhe seus netos Júlio, Rael e Vicente | Foto: Dominique Monticelli

Entre aromas e enfeites

“Casa da vovó” é como o estudante universitário Pedro Scarpellini Fogliatto, de 29 anos, sempre se referiu aos lares que Ana Maria Westphalen Scarpellini, de 76 anos, dona de casa, habitou ao longo do tempo. Naturais de Cruz Alta, também já moraram em Novo Hamburgo e, atualmente, residem em Porto Alegre. Pedro é próximo da avó desde pequeno, quando a mãe estudava e ele passava o turno inverso da escola na casa de Ana Maria. “Ela esteve comigo em todos os momentos importantes: escola, faculdade, mudanças.” Seu irmão, Cícero Fogliatto, de oito anos, também frequenta a casa da avó, mas Pedro observa que as relações já se alteraram: “O que ele passa aqui é muito diferente do que eu passei, porque a casa da vovó, para ele, é uma casa sem regras. Ele faz o que quer, brinca com o que quer, às vezes faz argila com ela”.

A avó é parte essencial do núcleo familiar, conta Pedro

A principal lembrança que Pedro tem da avó é seu trabalho com cerâmica. “Com a vovó, tive um contato inicial com as artes. Ela fazia muito artesanato, então acho que devo isso à convivência com ela. Ela também sempre esteve muito na cozinha, mas nunca teve paciência de me ensinar.” Quando dispunha-se a aprender, a avó dizia: “Não, me dá aqui que eu faço”. Rindo, Pedro conta que somente observava. “Penso muito na cozinha, porque tem essa memória afetiva, de gostar de ficar lá sempre.” À medida que Ana Maria passou a cozinhar cada vez menos para se dedicar ao artesanato, Pedro começou a assumir esse espaço.

Arte: Daniela Pechansky

“Minha casa é aconchegante. E meus netos completam esse interior”

ANA MARIA WESTPHALEN SCARPELLINI, avó de quatro netos

As diferenças entre o lar da avó e o do neto vão além do ambiente cheiroso por difusores e dos adornos de cerâmica que Ana Maria expõe em cada cômodo. Onde mora, Pedro nunca teve o hábito de cozinhar. Já no apartamento da avó, que segue frequentando depois de adulto, para estudar ou fazer companhia a ela, Pedro adquiriu o costume de preparar pães, tortas e, justamente, doces típicos de avó. “Vovó não podia comer, porque ela é diabética, mas ela sempre comia”, ele conta, entre risos. “A cozinha [dela] é muito mais aconchegante. E é muito parecida com a minha, o que não faz sentido. Então, acho que é uma questão de atmosfera.”

A reciprocidade marca essa relação entre eles, trazendo aprendizado mútuo e confortando ambos. Mesmo quando estão em ambientes diferentes da casa, Pedro faz questão de ir até a avó e passar um tempo conversando com ela. “Isso me acaricia muito, porque o amor que eu tenho por eles [netos] é incondicional”, diz Ana Maria. São gestos atenciosos assim que reforçam a proximidade e o carinho duradouros nesse espaço que é construído também pelos netos, como conta a avó: “Minha casa é aconchegante, ela abraça. E meus netos completam esse interior”.

A sala da casa de Ana Maria é um ponto de encontro com os netos Pedro e Cícero | Foto: Dominique Monticelli

Casas floridas, casas livres

A artista visual e jornalista Anna Ortega, de 24 anos, iniciou sua trajetória artística fotografando as mulheres que a criaram: a mãe, a tia e a avó. Esse tipo de núcleo familiar não é uma história pessoal, mas coletiva. Mais da metade dos lares do país, ou seja, 38,1 dos 75 milhões totais, são liderados por mulheres, segundo dados de 2023 do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). “O Brasil é muito criado pelas suas mulheres. E as avós, em especial, têm um papel na criação das pessoas no país”, reflete Anna. Ela retratou a casa que dividia com a família em Porto Alegre e o cotidiano das relações que ocorrem nessa intimidade. Seu primeiro projeto Não há casa sem flores foi inspirado na avó, Seles, figura central em sua vida e arte. “Minha vó tinha o hábito de sempre ter flores em casa. É uma coisa que ela foi nos ensinando, porque acreditava muito em cultivar a vida.”

A criação seguinte surgiu depois que Seles faleceu. “Além de me interessar pelo papel da minha avó na minha vida, eu também tinha um interesse muito genuíno em ouvir sobre a relação de outras pessoas com as suas avós.” Em locais como espaços de arte e escolas, Anna expôs a instigação que intitula o projeto Qual é o nome da sua vó? Cativadas pela pergunta, as pessoas são convidadas a escrever o nome da avó e refletir sobre o que ele guarda. Por meio da iniciativa, ouviu crianças e adultos contarem suas histórias sobre afeto com a casa e a comida da avó, sobre as avós de hoje serem um pouco diferentes daquelas de antigamente, sobre conforto e referência, sobre estereótipos de avós que não se concretizam e mesmo sobre relações que não são de proximidade ou alegria.

O projeto de Anna Ortega aciona memórias e afetos | Foto: Anna Ortega

A convivência das crianças na casa das avós ganha relevância devido à vida cada vez mais corrida dos pais, explica Sabrina Pereira Jardim, psicopedagoga e professora na Escola Municipal Governador Ildo Meneghetti, no bairro Rubem Berta em Porto Alegre. “Aquele cuidado das avós tem sido cada vez mais importante para que as crianças tenham noção do que é um lar, especialmente na fase de desenvolvimento”, ensina. As avós muitas vezes propõem atividades alternativas às tecnologias excessivamente presentes no dia a dia das crianças, outro benefício apontado por Sabrina. Ela já foi professora e coordenadora pedagógica na rede privada e, em todas as experiências profissionais, notou a necessidade de as crianças terem em quem se espelhar em casa e como respeitam as avós, que também sabem dizer não.

Ao mesmo tempo em que se pode aprender limites com as avós, é possível descobrir nelas uma liberdade singular. “As crianças falavam muito disso: ‘Com a minha vó eu conversava de tudo, tinha liberdade para falar o que eu pensava, o que eu sentia’”, relata Anna. E avós como Ana Maria percebem isso nos netos: “Eles sabem que podem conversar tudo comigo, porque aqui fica”. Helena aprendeu, com a proximidade dos netos, a reconhecer quando precisam ser ouvidos. “Sempre muita conversa. É uma relação de confiança”, conta. As avós podem ser um refúgio, como uma casa acolhedora. O que constrói esses espaços íntimos e essas relações únicas depende da convivência de cada avó com cada neta ou neto, mas Helena resume: “É porque na casa da vó é diferente”.

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Um comentário em “Uma casa que abraça”

  1. Eu precisava vir aqui dizer isso. Chorei como nunca antes com esta reportagem! Linda, sensível! Meus parabéns, queridos.

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