O feminismo é um movimento que precisa ser entendido no plural: feminismos. Dessa forma, estamos afirmando a multiplicidade das mulheres que moldam esse movimento através de diferentes perspectivas. Delineado pelos direitos humanos, o feminismo não é o oposto do machismo, já que o machismo é uma construção social que naturaliza as violências e opressões sofridas pelas mulheres. Os feminismos, por sua vez, compõem um movimento social que luta pela igualdade. Embora o debate sobre essas temáticas venha aumentando, não são todas as mulheres que se identificam com o movimento, e ele não chega de forma igual em todos os cantos do Brasil. Nas cidades do interior, a caminhada para conscientização sobre as reivindicações feministas ainda está no início.
A pesquisa Mulheres, Violência e Feminismo, de 2019, feita pelo Jornal Folha de S. Paulo e pelo Instituto de Pesquisas Datafolha, mostra que 38% das mulheres com 16 anos ou mais se consideram feministas no Brasil, enquanto a parcela que rejeita se associar ao movimento é de 56%. “Quem criou a maioria das narrativas das histórias sobre feminismo e as feministas ao longo da história foram autores machistas, então não me surpreende que as mulheres se sintam pouco representadas pelo feminismo”, explica Joanna Burigo, comunicadora social. Mestre em Gênero, Mídia e Cultura, ela também é fundadora da Casa da Mãe Joanna, um projeto de mídia coletiva que tem a proposta de apresentar e representar a multiplicidade de discursos feministas, distribuindo conteúdos originais e curados em um website e nas redes sociais.
No artigo O avanço dos corpos que formam o Brasil, sobre as eleições de 2020, é apresentada uma análise que indica que esse foi um pleito histórico, resultando na maior diversidade nos quadros de representação política institucional no Brasil. Joanna, uma das autoras, conseguiu perceber com esse estudo que o feminismo está chegando, timidamente, nas pequenas cidades, principalmente pela internet. “As mulheres do interior estão de uma maneira ou de outra se articulando. O atravessamento que as redes sociais fizeram na comunicação social nos últimos tempos deu uma diminuída nessa distância que muitas pessoas tinham do conhecimento formal feminista”, explica.
O mapeamento realizado pela professora de Ciências Sociais da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Rayza Sarmento, que resultou no artigo Ativismo Feminista Online: mapeando eixos de atuação, aponta também para a importância das redes sociais para o movimento feminista. A pesquisa indica que a forma de circulação desses debates no campo da internet, sob a perspectiva do online, alterou de forma significativa a agenda feminista. Antes das redes, muitas mulheres só tinham contato com os conceitos e com o vocabulário do feminismo quando deixavam suas cidades do interior para estudar nas capitais, principalmente nas universidades.
Rayza traçou sua trajetória acadêmica com ênfase na pesquisa em comunicação, política e gênero. Para entender como o ativismo online chega até os pequenos centros, confira no vídeo abaixo a entrevista que a cientista política concedeu à revista Sextante.
Os feminismos aos poucos ecoam nas ruas e bairros das pequenas cidades do país. No estado mais ao sul do mapa, fica o município de Butiá, com cerca de 22 mil habitantes, localizado a 84 km de Porto Alegre. Ali, mulheres descobrem brechas e colocam os feminismos como tema central do debate. Foi a partir da criação de grupos de discussão que mulheres butiaenses passaram a trocar experiências e se apoiarem. Elas querem criar seus filhos com uma perspectiva de igualdade de gênero, e querem também compartilhar suas próprias vivências, ampliando sua visão sobre como as mulheres pretas e as mulheres trans, por exemplo, são atravessadas pelo machismo, mas também pelo racismo e pela transfobia.
Sonho antigo
“O único feminismo possível, dentro de um conceito de igualdade, é a gente poder perceber as diferenças e os pontos de partida de cada mulher e de cada homem, porque feminismo não é sobre mulheres, é sobre pessoas, é sobre como educar homens e mulheres, como educar as crianças”, diz a psicóloga Renata Pfütze. A ativista do movimento feminista, de 41 anos, cresceu em Butiá, mas, como outras mulheres, só foi ter o primeiro contato com o tema quando ingressou na faculdade de Psicologia, em 1998, na Ulbra, em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre.
Para Renata, o processo de entendimento do que é o feminismo veio através do estudo, dentro da universidade. Depois de ter contato com conceitos como o de direitos humanos, ela fez o movimento de retorno. Em 2006, decidiu se conectar com outras mulheres butiaenses e propor esse debate na sua cidade natal.
“Se tu não olhar embaixo do tapete, tu não vai varrer nunca, porque tu não sabe que está sujo. Esse é o movimento, a gente está levantando o tapete e está apavorada com a sujeira que tem lá embaixo”
RENATA PFÜTZE, ativista feminista
Levar um tema tão complexo para Butiá era uma meta antiga da psicóloga. O grupo Movimento Debate Feminista foi criado, em 2018, na tentativa de institucionalizar essa discussão. “Se tu não olhar embaixo do tapete, tu não vai varrer nunca, porque tu não sabe que está sujo, esse é o movimento, a gente está levantando o tapete e está apavorada com a sujeira que tem lá embaixo”, diz Renata.
O grupo, no entanto, ainda não conseguiu articular um debate mais amplo com a comunidade da cidade. Até agora, as discussões são feitas somente entre as sete mulheres que compõem o movimento criado por Renata, e a pandemia dificultou mais ainda a expansão do grupo. Elas ainda não contam com uma periodicidade certa para os encontros, mesmo que virtuais. A maior parte das discussões é feita a partir de situações que vivenciam ou assuntos que irrompem nas redes sociais. A solução encontrada para manter o debate são as conversas por trocas de mensagens no grupo do WhatsApp, em que essas mulheres encontram um espaço de escuta e acolhimento.
Ainda que exista esse espaço de troca, o movimento na forma literal da palavra fica em segundo plano. “É muito difícil o engajamento das mulheres para também serem parceiras no sentido de levar o debate. Eu não posso fazer uma revolução sozinha e não vejo, ainda, muita perspectiva de parceria”, lamenta Renata. Mas ela não está sozinha, pois várias mulheres de Butiá estão tendo contato com os feminismos e levando os ensinamentos do movimento para suas vidas.
Fora da bolha
Mirella Sant’ana, de 28 anos, também viveu uma transformação em sua vida quando saiu de Butiá para estudar Educação Física na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS), em Porto Alegre. “Eu comecei a ter contato com o feminismo quando eu saí da minha bolha do Butiá, quando eu comecei a estudar, quando eu comecei a conhecer pessoas de outros lugares, com estilo de vida completamente diferentes do meu, mas que se combinavam em algumas coisas”, lembra.
Foi na diversidade de pessoas e estilos de vidas que tinham algumas similaridades com sua vivência que se acendeu a luz do feminismo dentro da professora de natação. “Eu comecei a refletir sobre os esforços que a mulher tem que fazer, sobre as coisas que a gente tem que pensar mais. Por exemplo, estudar de noite era meio tenso, porque você sempre está em uma situação que sente mais receios por ser mulher”, comenta.

A conexão com os feminismos aflora a partir dos pensamentos e conceitos sobre o movimento que são passados na oralidade, principalmente por pessoas do seu convívio. “Eu tenho buscado muitas referências de mulheres que trabalham essa pauta, ou mulheres que incentivam outras mulheres a começar a pensar em uma perspectiva mais ampla, o que é ser mulher, dos nossos desafios, mas, principalmente das nossas potencialidades”, explica Mirella.
A leitura de obras de intelectuais feministas também aproximaram Mirella do conceito e do entendimento das questões de gênero. “Recentemente eu iniciei uma leitura de uma mulher feminista que demorou muitos anos para ser reconhecida como uma mulher com uma fala potente, que tinha outras questões a serem apresentadas”, diz a professora. Their Eyes Were Watching God, escrito pela antropóloga estadunidense Zora Neale Hurston, teve sua primeira publicação em 18 de setembro de 1937, nos Estados Unidos. Só em 2021 foi traduzido e lançado no Brasil, pela Editora Record, com o título Seus Olhos viam Deus. “É o meu livro de cabeceira”, completa.
Mirella enxerga o feminismo como um divisor de águas na sua vida para que passasse a valorizar a sua liberdade. “Se sentir uma mulher livre é uma coisa muito forte e, a partir disso, você se abre pra sonhar, se olhar no espelho e se reconhecer”, encerra.
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Liberdade e afeto
Ainda antes de conhecer o movimento feminista, Fernanda de Oliveira, de 33 anos, também de Butiá, passou por momentos em que precisou se impor para ter seus direitos preservados. “A primeira situação em que uma mulher precisa ser feminista é quando ela sofre a primeira decepção amorosa, o primeiro relacionamento abusivo. Óbvio que eu passei por isso, como muitas mulheres passaram, e ali eu decidi, passou o primeiro e deu”, lembra. Saiba como ela rompeu esse ciclo de violência no áudio abaixo.
Após o término com seu primeiro namorado, com quem vivia uma relação abusiva, Fernanda, à época com 16 anos, levou tempo para conseguir superar o que havia passado. “Eu tive outros namorados depois desse término, mas eu sofri muito até pra conseguir estruturar uma nova relação”, relembra. Aos 18 anos, conheceu seu atual marido, Roger Oliveira Marinho, com quem tem três filhos: Manuella , Pietro e Kael.
O empoderamento sempre esteve presente em sua vida, mas os feminismos, como conceitos que estão englobados pelos direitos humanos, começaram a fazer parte do vocabulário da cabeleireira depois de superar as violências que aprendeu a desnaturalizar. “Um dia eu saí de mini-blusa e minissaia – que nem era tão minissaia -, e ele [o marido] simplesmente disse pra mim que eu tinha que trocar de roupa, e eu disse: ‘não, no meu corpo sou eu quem mando, eu uso o que eu quiser”, conta. Quando aconteceu esse episódio, ela e Roger ainda namoravam, e Fernanda tinha 18 anos. A força que ela conquistou a partir do seu primeiro relacionamento fez com que ela não aceitasse mais comportamentos machistas, e ela até conseguiu mudar o pensamento do seu atual marido. “O Roger é muito cabeça dura, mas comigo não tem essa, o corpo é meu”, exclama.
Fernanda procura educar seus filhos, tanto os meninos quanto a menina, para crescerem feministas. Ela começou dentro de casa, designando responsabilidades iguais para os três. “Eu trabalho, principalmente com os guris, essa questão. A gente conversa sobre a estrutura de casa. Eles têm que lavar as cuecas, lavar a louça, fazer um arroz, varrer a casa”, conta.
A sua preocupação é com a filha, que tende a tomar toda a responsabilidade para si. Por ser bem organizada, Manuella quer fazer tudo a seu modo. Ainda assim, Fernanda insiste que todos devem realizar suas tarefas. “Ela fala: ‘sai daqui que eu vou fazer o arroz, e eu falo: ‘não, todo mundo vai fazer, nós vivemos em uma comunidade familiar”, completa. O pai trabalha durante a semana em Pantano Grande, a 42,5 km de Butiá, mas, sempre que está em casa, nos finais de semana ou feriados, também é introduzido nessa comunidade e contribui com os afazeres domésticos para não só cobrar dos filhos a participação na organização da casa, mas também ser um exemplo para eles.
Construção de si
“Eu não sou perfeita, estou aprendendo ainda, praticamente nasci em 2019, mas tenho 40 anos.” É assim que Helena Medeiros, metalúrgica e uma mulher trans, se apresenta. Moradora de Butiá, ela precisou passar por um processo de autoconsciência para se aceitar e se reconhecer.
“Uma coisa que eu morro de medo é algum dia ir num shopping e não poder ir ao banheiro”
HELENA MEDEIROS, metalúrgica e mulher trans
O seu primeiro contato com o feminismo foi quando ela se assumiu como uma mulher trans, há três anos. Até então, esse debate não era o centro da conversa com os amigos, no trabalho e nos espaços em que circula. “Eu fiquei totalmente assustada, porque eu não tinha essa visão de como o mundo é machista e agora tenho”, conta. Helena percebe o preconceito que existe com as mulheres, e mais ainda com as mulheres trans, em situações banais, do dia a dia. “Uma coisa que eu morro de medo é algum dia ir num shopping e não poder ir ao banheiro”, diz.
Associar a palavra trans a sua existência também não foi um processo fácil. Lidar com o preconceito da sociedade com as pessoas da comunidade LGBTQIAP+ foi um desafio para aceitar a si própria. “Veio tudo ao mesmo tempo. Eu segurei minhas emoções por tanto tempo que tem dias que eu fico insuportável”, brinca. “Eu demorei muito pra me tornar essa mulher madura. Eu não passei pelas fases que todas vocês passaram, que levaram anos. Eu tive que, em meses, lidar com todas as fases”, relata.

Particularidades, interseccionalidade e confronto
Os feminismos como movimento plural são formados por diversos pontos de convergência e outros de divergência. “O que existem são perspectivas. Dentro dos feminismos, existe uma diversidade bem grande tanto acadêmica quanto de existência, de experiência de vida, e nenhuma dessas experiências é menos feminista do que as outras”, aponta a pesquisadora Joanna.
“Existem intersecções e colaborações muito profícuas dentro dos feminismos, mas existem também intersecções que geram embates bastante problemáticos, como alguns feminismos, por exemplo, que excluem trabalhadoras sexuais e mulheres trans”
JOANNA BURIGO, pesquisadora e fundadora da Casa da Mãe Joanna
Os feminismos que se confrontam causam atritos que dividem as mulheres e fogem do propósito de lutar pelos direitos humanos. “Existem intersecções e colaborações muito profícuas dentro dos feminismos, mas existem também intersecções que geram embates bastante problemáticos, como alguns feminismos, por exemplo, que excluem trabalhadoras sexuais e mulheres trans. Essas intersecções nem sempre são levadas adiante de forma a beneficiar todas as mulheres e, às vezes, elas geram atritos entre os grupos feministas”, diz Joanna.
A igualdade está no olhar para as diferenças. Ao falar em mulher ou no feminino, o debate se concentra na multiplicidade das pessoas e nas diversas condições. O lugar de cada um na pirâmide social é diferente, e é por isso que ninguém parte da mesma condição. “O oceano é o mesmo, mas está cada um em um barco diferente. Tem uns num iate, tem uns num navio e tem gente a nado ainda. O pessoal que está a nado vai ficando para trás de uma forma que, se a gente realmente se diz feminista, defensora dos direitos humanos, não pode deixar essas pessoas a nadar enquanto a gente tem remo, enquanto a gente tem motor”, exemplifica a ativista Renata. O que essas mulheres butiaenses têm feito é remar, tentando resgatar as mulheres, principalmente as que vivem longe dos grandes centros, que ainda não perceberam o quanto os feminismos podem ser importantes para as suas vidas.

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Estou muito orgulhosa de ti Mirela, sei de toda a tua trajetória e o quanto você lutou para chegar aonde está, uma menina negra, pobre, que entrou em uma universidade particular, fez a graduação com muito sacrifício, mas venceu, estar na tua formatura, foi uma alegria e um imenso orgulho…..