Catarina Alvarez Hermann estava sentada à sua mesa pensando no desenho que faria ao chegar em casa quando a professora de português, Silvana Peixoto, entrou na sala do sexto ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Gilberto Jorge, em Porto Alegre. A educadora, então, interrompeu o devaneio da artista, pedindo para que os estudantes daquela turma desenhassem uma HQ de até seis quadrinhos sobre qualquer coisa que acontecia na escola.
Ao fim do tempo estipulado, com a folha preenchida, Catarina entregou seu quadrinho e não voltou a pensar nele até, meses depois, receber a notícia de que ele havia sido indicado para um prêmio. “A professora deu o tema. Só que estava todo mundo fazendo sobre briga, não sei o que deu naqueles piá. Estavam fazendo de briga e se batendo, aí eu fiz sobre bullying, porque isso acontece na escola”, conta a aluna de 12 anos, que foi uma das vencedoras da categoria de História em Quadrinhos do concurso literário (Re)Conta Poa 2025, promovido pela Secretaria Municipal de Educação. No projeto, os alunos da rede municipal de diversas faixas etárias são premiados pela produção de gêneros textuais. Na história da jovem desenhista, uma narradora conta sobre os impactos negativos de casos de gordofobia, homofobia e racismo que já ocorreram no colégio.
Depois que criou essa narrativa, Catarina escreveu outras HQs no tablet, mas o seu principal passatempo, desde os oito anos, é desenhar. “Eu misturo várias coisas que eu gosto e que me chamam atenção nas histórias”, explica.

Amante dos universos de fantasia e ficção científica, ela cria personagens no papel e no tablet, pensando em rostos e figurinos para as histórias que ela nunca termina, pois logo fica ansiosa para dar vida a outras criações. No aplicativo de desenho, é frequente que suas ilustrações demorem mais de 24 horas para ficarem prontas, o que reforça quanta dedicação e capricho há em cada obra: “É que eu sou um pouco viciada. Quando tem feriado, eu desenho mais”.
“É uma boa idade para explorar técnicas diferentes sem muita perfeição, sem muito realismo e tal, deixar eles livres”
LUISA CREPALDI, professora e ilustradora
Em cada traço, fica evidente a influência que os animes e mangás, como One Piece e Blue Lock, têm na produção de Catarina: seus desenhos têm cores vivas, os personagens têm olhos grandes e arredondados e expressões faciais dramáticas. Atualmente, Catarina não tem nenhuma atividade extracurricular relacionada à arte. Sua evolução no desenho acontece pela frequência da prática: traceja no intervalo da escola, durante a aula e em casa.

A mãe, Carolina Alvarez, se surpreende com a paixão que Catarina e a irmã mais velha, Nina, têm pela arte, já que ela mesma confessa não cultivar nem o hábito da leitura e nem do desenho. Porém, o orgulho pelo trabalho das filhas é inegável: dada a oportunidade, ela mostra os desenhos nas fotos guardadas na sua galeria e nos quadros espalhados pela casa.
Para Luisa Crepaldi, ilustradora e educadora artística, a infância é o período em que os artistas conseguem experimentar e criar muito mais. “É uma boa idade para explorar técnicas diferentes sem muita perfeição, sem muito realismo e tal, deixar eles livres”, explica. “Eles dificilmente imitam as coisas, se a gente não fala para eles imitarem as coisas. Eles fazem o que eles gostam.”
Além de dar aulas para o Ensino Fundamental em Porto Alegre, Luisa realiza oficinas de artes para crianças e já trabalhou no Centro de Desenvolvimento da Expressão (CDE), uma instituição voltada para a educação artística infantil localizada na Casa de Cultura Mario Quintana. Ela ressalta que a arte lhe ajudou a entender seus sentimentos e organizar os próprios pensamentos, e se orgulha do progresso da filha, também artista. “Agora ela desenha melhor do que eu, e eu não ensinei, sabe? Tem coisas que ela simplesmente aprendeu e sabe fazer.”
Do lápis à caneta digital
Abaixo de um beliche, em uma escrivaninha, Coraline Crepaldi, de dez anos, está sentada em frente a diversos lápis coloridos e muitos dos seus brinquedos e mangás favoritos. Além de todos esses objetos, um detalhe se destaca: resquícios de borrachas espalhadas pela madeira embranquecida da pequena mesa. Ela está aficionada pelo papel em que desenha e procura o apontador, que está atrás do seu tablet. O aparelho contém mais de 300 desenhos e animações realizadas ao longo de dois anos, sem contar os diversos que ela já apagou.

Filha da ilustradora Luisa, Cora, como gosta de ser chamada, sempre foi incentivada pelos pais a desenvolver seu lado artístico: o tablet que usa para desenhos e animações digitais era de seu pai, que abriu mão do dispositivo para que ela tivesse acesso aos aplicativos de desenho. Entre os usos que faz do aparelho, os principais são criar animações no ProCreate, jogar Roblox e postar vídeos no seu canal de YouTube, chamado Cora Desenhista, com mais de mil inscritos. Ali, ela compartilha conteúdos sobre Roblox, reviews de doces japoneses e gravações de tela das suas obras digitais.
Sobre os desenhos realizados no ProCreate, Cora não sabe explicar muito bem como descobriu boa parte das funções e ferramentas do aplicativo. Somente por mexer nele, chegou a descobrir coisas que nem mesmo sua mãe, que fez um curso para conhecer o app, sabia usar.
Além das produções digitais, Cora gosta muito de desenhar no papel: na Escola Estadual Helena Litwin Schneider, em Porto Alegre, a menina fica boa parte das aulas rabiscando, alheia ao conteúdo. “Todos os momentos que ela tem livre, ela passa desenhando, na escola e aqui também. Só que ela tem altas habilidades. Então, ela não estuda, ela fica desenhando e vai bem nas provas”, conta Luisa.

Cora, que é entusiasta do canal de YouTube Mundo Torajo, da artista virtual Hatsune Miku e dos animes do Demon Slayer, Spy x Family e Pokémon, tem notado algumas diferenças e melhora no próprio traço, mas se cobra muito em relação aos seus desenhos: “Se eu errar alguma coisa, tipo fazer um olho igual o outro, daí eu fico com raiva”.
Mas, mesmo com a raiva que surge durante seu processo criativo, muito do seu prazer vem de conseguir criar novos personagens e modificar outros pré-existentes, colocando roupas diferentes e mudando as cores deles: “Eu boto mais coisa no personagem para ele não ficar tão sem graça”.




Superando o maior desafio
Quando se chega na pré-adolescência, começa a despontar uma maior autocobrança e uma perda da ingenuidade, que permitia explorar novos caminhos artísticos. Luisa observa isso entre os seus alunos: “Eu estou trabalhando muito o autorretrato, e eles simplesmente não aceitam os desenhos deles. Eles não aceitam porque está feio, porque está horrível, porque está engraçado, e eles não entendem que não precisa ser perfeito. É muito difícil tirar isso da cabeça deles”.
O desafio, então, se torna persistir na arte, mesmo diante da possibilidade de errar ou de fazer algo que não seja bom o suficiente. Na pré-adolescência, um período em que a educadora percebe que os alunos não conseguem expressar o que gostam, surge uma autocrítica forte, que pode impedir o amadurecimento como artista. É importante superar essa fase.
“Na adolescência, a gente tem essa mania de querer que o desenho saia perfeito e não sai”, relembra a ilustradora. “Eu vi uma frase na internet esses dias, que dizia: um artista é uma criança que insistiu.” Catarina e Cora estão insistindo.
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