Sextante

A cor da esperança

Após o traumático evento das cheias em Porto Alegre, duas moradoras da Vila dos Ferroviários narram o processo de reconstrução de suas casas

REPORTAGEM
Anselmo Berté | Giulia Moreira
ildoberte@gmail.com • gifogamo@gmail.com

Arte: Luísa Karling
Ouça a reportagem

As casas de duas vizinhas que moram uma na frente da outra, na Vila dos Ferroviários, em Porto Alegre, sempre tiveram em comum o fato de serem verdes. Thaís Ferreira Silva, de 34 anos, e Ana Paula Teixeira, de 44, também compartilham uma mesma história: precisaram sair de suas casas às pressas em maio de 2024, pela primeira vez em suas vidas, devido à maior enchente da história da cidade. 

O bairro Humaitá, onde a vila em que moram fica localizada, foi inundado. A reconstrução de seus lares, no entanto, não está ocorrendo no mesmo ritmo. Enquanto Thaís teve sua casa pintada novamente de verde pelo projeto Colorindo Vidas, da ONG Misturaí, Ana Paula ainda aguarda para apagar as marcas da água em seu lar.

Thaís é estudante de publicidade e mora junto com a mãe, o pai e a avó. “Veio com tudo a água quando arrebentou o dique. Meu pai saiu daqui com a água batendo na canela”, conta a estudante. Ana Paula, diarista, dona da outra casa verde, mora com seu marido e sua filha, Isabelly. Para proteger a menina, que tem medo de chuva, Ana não esperou a água subir. Saiu de casa assim que recebeu a notícia de que outros bairros na zona norte da cidade estavam alagando. As vizinhas passaram mais de dois meses fora de casa, abrigadas por parentes e amigos. 

“Eu gosto daqui porque é tudo perto e eu conheço bastante gente, todo mundo se ajuda”

Thaís Ferreira, moradora da Vila dos Ferroviários

Segundo dados da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade, o Humaitá foi o quarto bairro mais afetado pela enchente. Ao todo, 12.617 pessoas e 1.377 edificações foram atingidas pelos 461 milímetros de chuva do mês de maio. Na Vila dos Ferroviários, todas as 186 residências ficaram embaixo d’água.

A falta de infraestrutura e os estragos que a enchente provocou na vila ainda são perceptíveis. Na comunidade, formada por duas longas ruas, é visível o acúmulo de lixo, bueiros entupidos, falta de pavimentação e casas que perderam a cor. Mesmo com todos os prejuízos, Thaís mantém o carinho pelo bairro: “Eu gosto daqui porque é tudo perto e eu conheço bastante gente, todo mundo se ajuda”. Agora, a comunidade tenta se reerguer com o auxílio de doações e de projetos sociais.

As duas casas 

Quando Thaís e Ana Paula puderam finalmente voltar para seus lares depois da enchente, o que encontraram foi um cenário de destruição. “Estava tudo revirado. Uma cadeira que estava na cozinha foi parar no quarto da minha avó”, relembra Thaís. As paredes ficaram todas marcadas pela água, como uma lembrança da tragédia. 

Ana Paula também lamentou ver sua casa destruída, e agora verde não apenas pela cor da tinta das paredes, mas pelo mofo persistente após tanta umidade. Sua maior dor foi ver que todos os seus pertences, e até mesmo os brinquedos da filha, já não tinham mais salvação. “Aquela água podre, fedida. A única coisa que sobrou foi esse patinete”, relata, enquanto a filha pede pelo brinquedo. O patinete foi salvo porque ficou em cima de um colchão, que boiou na água. 

Cores que ressignificam 

Com o objetivo de apagar as memórias físicas da enchente nos lares do Humaitá, o projeto Colorindo Vidas, da ONG Misturaí, promoveu mutirões para pintar 150 casas até o Natal de 2024. A ação iniciou no dia 19 de outubro na Vila dos Ferroviários, e a casa de Thaís foi uma das beneficiadas. 

A família da estudante recebeu tintas, materiais de pintura e o esforço de voluntários para recolorir seu lar. “Vai ser bom para recomeçar, a gente está vendo a casa nova, uma pintura nova, uma história nova, então vai ser bem importante para gente”, afirma Thaís.

Na opinião de Mara Nunes, presidente da Misturaí, a pintura das casas é essencial. “Quando tu entra em casa, depois de ter passado por isso, ver a marca da água sempre vai te lembrar disso.  Então pensamos em colorir as casas, tanto por fora quanto por dentro”, explica. Para isso, a ONG recebeu 500 mil reais dos recursos arrecadados no festival Salve o Sul.

A Misturaí teve o apoio da Associação Beneficente Cultural e Esportiva dos Ferroviários (ABCEFer) para mapear as casas beneficiadas. A instituição realizou um sorteio entre os moradores cadastrados após a enchente em quatro comunidades no Humaitá: Vila dos Ferroviários, Vila Arco Íris, Vila Santo Antônio e Vila Campos Verdes. Aproximadamente 80 das 186 casas da Vila dos Ferroviários foram contempladas. Ao todo, a ação conseguiu atender 150 casas, o que significa 11% das edificações afetadas pela enchente no bairro Humaitá. Mara entende que este é apenas o começo: “Acredito que muita gente vai nos procurar para pintar o restante das casas, e são muitas. Mas o pontapé inicial são essas 150”.

Se a casa de Thaís foi renovada com tinta verde, do outro lado da rua, Ana Paula não foi contemplada pelo projeto Colorindo Vidas. “É difícil lembrar que tu trabalhou, lutou e de repente tu perdeu tudo. Eu tinha um carro, não está mais aqui. Ou eu arrumava meu carro ou minha casa, e minha prioridade é a casa. É tirar essas marcas feias das paredes, pela minha filha, porque ela olha e relembra.” 

 “A gente não pode achar que as ONGs vão resolver um problema que é estrutural. A sociedade civil é um apoio” 

Karla Moroso, mestre em Arquitetura e Urbanismo

De fato, dentro da casa de Ana Paula, ainda é possível ver as marcas da enchente: na fechadura do banheiro, na parede da sala e no quarto de Isabelly. Apesar de ter recebido doações, ela segue reconstruindo seu lar, tendo como prioridade as necessidades da filha. “Estou até hoje sem TV. Ela pede para assistir, mas eu preciso de um aparelho que eu não tenho”, diz Ana Paula. Isabelly também tem na ponta da língua o que ainda falta em seu quarto: “Um roupeiro”, afirma a menina.

Isabelly ainda precisa de um roupeiro

Álvaro Pedrotti, arquiteto e urbanista que participou da montagem da primeira Secretaria Especial de Habitação do Governo do Estado do RS, explica que, historicamente, são sempre os mesmos moradores que sofrem com as enchentes. “As partes baixas e mais suscetíveis a alagamentos geralmente são ocupadas pela população menos favorecida, normalmente são lotes mais baratos. Esses bairros sofreram demais com a enchente de maio.” Ou seja, as famílias mais atingidas são justamente as que têm menos recursos para reconstruir seus lares.

A arquiteta e urbanista Karla Moroso, mestre em planejamento urbano e regional, entende que, em um contexto de desigualdade social, o Estado tem papel fundamental na garantia dos direitos dessas comunidades. “A gente não pode achar que as ONGs vão resolver um problema que é estrutural. A sociedade civil é um apoio”, diz a arquiteta. Para Mara, presidente da Misturaí, o poder público falha no seu papel. “Às vezes não sei se o governo se faz de cego ou se [acha que] as pessoas são invisíveis.”

Um novo distrito para quem?

O Humaitá é um dos cinco bairros que fazem parte do 4º Distrito de Porto Alegre. Nos últimos anos, a região se tornou a joia da coroa da especulação imobiliária da cidade. Em 2022, a prefeitura de Porto Alegre, sob a administração do prefeito agora reeleito Sebastião Melo (MDB), aprovou um novo plano diretor para a área, o Programa +4D de Regeneração Urbana.

As marcas da enchente ainda persistem nos muros da Vila dos Ferroviários | Foto: Giulia Moreira

O programa permite a utilização de dinheiro público para a pintura de fachadas de prédios abandonados e de imóveis particulares de “relevante interesse para recuperação da paisagem”. Também define como prioridade a melhoria do sistema de drenagem urbana e a recuperação da infraestrutura de contenção de cheias, que falhou na enchente de maio de 2024. Ana Paula, que ainda está com sua casa deteriorada, tem críticas à forma como essa verba vem sendo aplicada na região. “Não adianta vir comércio. Botam isso, aquilo, mas a infraestrutura do bairro não é mexida em nada”, comenta.

Para o arquiteto Álvaro, o aumento da qualidade de vida depende da forma como os investimentos são planejados. “Numa comunidade carente, a conquista da colocação de uma rede de água potável formal, ou de uma praça infantil, ou da pavimentação de uma rua, reforça o senso de comunidade e produz uma enorme autoestima”, explica.

Quando eu não estiver mais aqui 

Thaís explica a escolha da cor verde para sua casa: “Meu pai achou uma cor bonita, sabe? Esperança. Ele gosta, foi ele que pintou a maior parte da casa”. A estudante relembra também que, em seu quarto, duas paredes eram pintadas de lilás, sua cor favorita, agora cobertas pelo branco de uma nova história.

Ana Paula agradece pelas doações que está recebendo:  “Tudo que eu tenho dentro da minha casa eu ganhei”. Seu desejo é que Isabelly possa presenciar transformações efetivas na Vila dos Ferroviários. “Se eu não estiver mais aqui, que ela tenha essa melhoria, não passe pelo que passei desde pequena vendo as ruas alagarem”, diz ela, que ainda tem esperança de apagar as marcas da enchente no verde da sua casa. 

LEIA MAIS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.