Lorenza Böttner: a potência de um corpo que perturba


15- Lorenza Böttner, Sin título, (sin fecha), fotografía en blanco y negro. Cortesía: La Virreina Centre de la Imatge

Lorenza Böttner, Sin título, (sin fecha), fotografía en blanco y negro. Cortesía: La Virreina Centre de la Imatge

 

Uma recente exposição em Barcelona, no Centre de la Imatge La Virreina, intitulada “Requiem por la norma”, coloca luz sobre a obra da artista Lorenza Bottner que, segundo o curador Paul Preciado, “aparece hoje como uma contribuição indispensável a crítica da normalização do corpo e do gênero ao final do século XX”. Antes, a obra da artista havia sido apresentada na Documenta 14, em Kassel, em 2017. Paul Preciado, intelectual conhecido por suas discussões teóricas em torno das questões de gênero, como o “Manifesto Contrassexual”, indaga:

Em que marco de representação pode um corpo fazer-se visível como humano? Quem tem direito a representar? Quem é representado? Pode uma imagem conceder ou recusar agência política a um corpo? Como pode um corpo construir uma imagem para converter-se em sujeito político? Há alguma diferença estética entre uma imagem feita com a mão e uma feita com o pé, ou essa diferença traduz uma posição de poder?

 

Com Paul Preciado e impactante obra e vida de Lorenza, continuamos indagando: O que pode um corpo que se encontra fora de uma normatividade? Pode um corpo existir à margem da experiência corpórea binária e normativa? O que acontece quando um corpo desestrutura os códigos das expressões de masculinidade e de feminilidade? Como reconhecer as minúcias veladas da exotificação, do silenciamento e da exclusão?

Lorenza Böttner, Face Art, Kassel 1983.

Lorenza Böttner, Face Art, Kassel 1983.

Pintar. Desenhar. Fotografar. Dançar. Se autorretratar e se restabelecer enquanto um corpo múltiplo que extrapola a possibilidade de estar dentro ou fora de uma norma para reivindicar seu direito de existir e viver sua corporalidade e subjetividade. Através da dança e de uma produção artístico-política desenvolvida a partir do corpo, da boca e dos pés, a artista se opõe ao lugar de invalidez que foi constantemente submetida.  

Lorenza Böttner, untitled (n. d.), three black-and-white photographs mounted on cardboard, 34.9 × 45.7 cm overall

Lorenza Böttner, untitled (n. d.), three black-and-white photographs mounted on cardboard, 34.9 × 45.7 cm overall

No lugar em que ocupa dentro de uma sociedade de des-subjetivação e encerramento de vidas trans e com funcionalidades corpóreas diversas, Lorenza Böttner se manifesta e explora a imensidão e a in-dimensão de um corpo bailarino, artista, transgênero, esmiuçando sua performatividade em possibilidades diversas. Seu trabalho se compõe a partir do questionamento dos lugares de exclusão em que se encontra o seu corpo, para construir a sua experiência enquanto um corpo fora de uma normatividade compulsória.  

Lorenza Böttner, untitled (n. d.), six black-and-white photographs mounted on cardboard, 34.7 × 49.8 cm overall

Lorenza Böttner, untitled (n. d.), six black-and-white photographs mounted on cardboard, 34.7 × 49.8 cm overall

 

Nascida em uma família alemã no ano de 1959 em Punta Arenas no Chile, aos oito anos de idade a artista sofreu um acidente que acarretou a amputação dos seus dois braços devido a um choque elétrico. Em consequência do acidente, Lorenza se mudou para Lichtenau, na Alemanha, em busca de melhores condições médicas, sendo sua adolescência marcada por diversas operações plástico-cirúrgicas, internações e exclusões somadas a mesma institucionalização que sofriam os chamados ‘’Filhos da Talidomida’’ ou ‘’Crianças Contergan’’ – crianças nascidas com diferenças morfológicas causadas no útero pelo uso da Talidomida.

Diante de todo o estigma, a institucionalização normatizante submetida ao seu corpo, a recusa ao usar braços protésicos, a artista ingressa na Universidade de Kassel para estudar Arte, onde começa a experimentar a linguagem da pintura, desenho, o uso do próprio corpo em espaços públicos para apresentações artísticas,  e também entra em contato com mundo da dança onde experimenta o ballet clássico, jazz e sapateado.  Enquanto graduanda na Universidade de Kassel, passa a explorar em sua pesquisa os artistas que, assim como ela, pintavam com a boca e os pés, onde concluiu sua tese intitulada  “Behinderter?” (“Deficiente?”).

Entretanto, a artista passa a expressar sua identidade feminina se entendendo enquanto uma pessoa transgênera, adotando o nome Lorenza Böttner. Em 1980, Lorenza se muda  para Barcelona, lugar onde estabeleceu conexões com outros artistas e onde personificou a mascote Petra, projetada por Javier Mariscal, nos jogos Paraolímpicos de 1982.  Ainda viajou para diversos lugares explorando sua experiência artística, corpórea, sexual, fluida. Em 1994, aos 36 anos de idade, a artista morre por complicações relacionadas ao HIV.

Lorenza Böttner, ‘Untitled’ (1980), acrylic on canvas

Lorenza Böttner, ‘Untitled’ (1980), acrylic on canvas

A criação de si e a ocupação de espaços de desejo e assujeitamento

‘’Por que nossos corpos deveriam terminar na pele? Ou por que, além dos seres humanos, deveríamos considerar também como corpos, quando muito, apenas outros seres também encapsulados pela pele?’’ Donna Haraway, A manifesto for cyborgs

Lorenza se manifesta retratada em desenhos, pinturas e registros fotográficos para documentar o seus processos de transição e as minúcias cotidianas da construção-experiência de ser trans e ter um corpo que possui uma outra possibilidade de funcionalidade. A artista vive sua fluidez corpórea e criativa atravessada por suas obras, onde explora seu desejo de ser em possibilidades femininas múltiplas para reconfigurar o esperado de uma feminilidade ideal.

 

‘’Se pensamos realmente no corpo como tal, não existe nenhum possível contorno do corpo como tal. Existem pensamentos sobre a sistematicidade do corpo, existem codificações que atribuem valores ao corpo. O corpo como tal não pode ser pensado e eu, certamente, não posso acessá-lo.’’ Gayatri Chakravorty Spivak, “In a tvord” entrevista com Ellen Rooney 

 

Sua produção artística tensiona o gênero e a condição de invalidez atribuída pelo discurso médico, para o lugar de alguém que movimenta e ultrapassa a capacidade de criação de si enquanto um sujeito que experimenta diversas formas de expressar sua corporalidade, sua poética,e a sua relação com o mundo.

Lorenza adentra as suas profundezas e o íntimo de seu desejo, sexualidade,  autonomia, multiplicidade, para restabelecer com as normas o lugar de incapacitação e dessexualização, para ocupar e  se apropriar dos espaços com uma presença que consequentemente descentraliza estruturas normativas inscritas no corpo e no gênero. Essa desestruturação que o corpo não normativo causa nos espaços de aparição pode ser notada na necessidade da artista de se autorretratar, em diversos momentos, enquanto um ‘apenas ser’, onde se desconecta de papéis, padrões, controles sobre sua existência. Nesse deslocamento, canaliza essa expressão-expansão através da arte e na fluidez do corpo.   

‘’Os desenhos e auto-retratos de Lorenza como mulher, roupas femininas projetadas para corpos sem braços, e sequências fotográficas que documentam esse processo de transformação funcionavam como tecnologias performativas para criar uma subjetividade sem braços e transgênero (como visto na performance de Vênus de Milo, primeiramente encenada em Kassel em 1982, posteriormente levada para Nova York e São Francisco).’’  Vidas e obras de Lorenza Böttner por Paul B. Preciado

 

Sua produção problematiza o lugar que seu  corpo ocupa e os disparadores dos mecanismos de captura que consideram corpos trans com funcionalidades diversas como corpos ininteligíveis e ‘’desviantes’’, também reconfigura ideias normativas sobre um ‘viver trans’ para negar de alguma forma o que seria considerado ‘’normal’’ e até mesmo o considerado dissidente dentro de uma sociedade de controle.

 

 Para pensar corporalidades diversas e transgeneridade na educação

Por rejeitar o lugar de invalidez,  a espetaculização e o ‘’freak’’ que divide seu corpo entre ‘’exótica e fascinante’’, ‘’monstruosa e perturbadora’’, a obra e a vida de Lorenza atravessam o tempo, o  espaço, corpo e gênero, desejo e sexualidade, construindo em si mesma a necessidade de sobre-viver e ser. Existir a partir de um fluxo constante de questionamentos sobre si mesma e se deslocando, se reverberando,  agindo sobre os lugares de exclusão, silenciamento e violência. Esses lugares que desde sempre categorizam, aliciam, encarceram corpos dentro de espaços normatizantes, nos convidam a refletir sobre a possibilidade de existência de corpos como o de Lorenza em espaços escolares.

 ‘’Porque não existe uma única expressão de Lorenza, se não múltiplas e diversas assim como as técnicas que usa para expressar sua arte: desenhos, pastéis sobre papel na rua, fotografia… Lorenza chegou a redefinir o termo de ‘pintura bailada’ como uma forma de criar pinturas na rua enquanto dançava e pintava com os pés” trecho extraído do blog Domestika, 2018

Quais corpos e quais vidas a escola tem abrangido dentro do seu projeto pedagógico de ‘’inclusão’’?

É possível a existência de corpos trans e com funcionalidades corpóreas diversas em espaços escolares sem que ocupem o lugar de ‘’incluído’’ onde esse mesmo lugar se sustenta carregado de estereótipos, marcas, limitações que dificultam sobrevivência desses corpos no espaço?  

 

Com esses questionamentos, através de uma vasta produção artística e de reivindicações bastante pertinentes até os tempos atuais, Lorenza Böttner nos deixa uma infinidades de tensionamentos para pensarmos a própria concepção de ‘’inclusão’’ dentro de espaços escolares. 

 (…) Além disso, a norma, ao mesmo tempo que permite tirar, da exterioridade selvagem, os perigosos, os desconhecidos e os bizarros, capturando-os e tornando-os inteligíveis, familiares, acessíveis, controláveis, ela permite enquadrá-Ios a uma distância segura a ponto que eles não se incorporem ao mesmo. Isso significa dizer que, ao fazer de um desconhecido um conhecido anormal, a norma faz desse anormal mais um caso seu. Dessa forma, também o anormal está na norma, está sob a norma, ao seu abrigo. O anormal é mais um caso, sempre previsto pela norma. Ainda que o anormal se oponha ao normal, ambos estão na norma. É também isso que faz dela um operador tão central para o governo dos outros; ninguém escapa dela. (p. 29) - Alfredo Veiga Neto

Corpos como o de Lorenza não estão compatíveis com os modelos normativos aceitáveis e, ao mesmo tempo, são marcados como presenças passíveis de ódio, exotificação e fetichização. Esse corpo é inscrito como o ‘’Outro’’ dentro de um espaço que não é ocupado para a possibilidade de se expandir, vibrar,desejar e transmutar na sua interação interpessoal. Em consequência, constrói-se esse ‘aluno-corpo-educado’ que passa pela educação de forma opaca e distante de novas dimensões e perspectivas  que ainda lhe são desconhecidas.

A artista evoca a possibilidade de ser outra e poder se construir e reconstruir como um ser singular e legítimo na sua singularidade, ou seja, se perceber um indivíduo existente por si só e não sendo ‘’o mesmo’’. Existir a partir de um incômodo dentro de uma ordem normativa, para ser capaz em alguma medida de se desvincular dessa mesma ordem governante que exclui, reforça estereótipos, limita os fluxos-trânsitos e segrega manifestações corpóreas diversas.

 

Há quem possa interessar, extraímos o documentário sobre Lorenza Böttner que, infelizmente, conta apenas com legendas em inglês, disponível no Youtube. 

 

Referências:

https://pousta.com/los-ojos-en-lorenza-bottner/

https://www.domestika.org/pt/blog/1591-lorenza-bottner-la-creadora-transgenero-sin-brazos-que-convirtio-el-arte-en-una-extension-de-su-cuerpo   

https://www.documenta14.de/en/south/25298_lives_and_works_of_lorenza_boettner

https://www.dw.com/pt-br/lorenza-b%C3%B6ttner-e-o-corpo/g-39641583

NETO, Alfredo Veiga. Incluir para saber. Saber para excluir. Pro-posições, v. 12, n. 2-3 (35-36). jul.-nov. 2001. Disponível em <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/proposic/article/viewFile/8643993/11442>

LOURO, Guacira Lopes. (Org.) O corpo educado: Pedagogias da Sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. Disponível em <https://core.ac.uk/download/pdf/30353576.pdf>

PRECIADO, Paul. Manifesto contrassexual. Práticas subversivas de identidade sexual. N-1, 2017

 

Saiba mais:

Programa da Exposição “Requiem por la norma”, do Centre de La Imatge Virreina, Barcelona: http://ajuntament.barcelona.cat/lavirreina/es/exposiciones/requiem-por-la-norma/236

 

Texto e pesquisa: Maria Céu Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

Edição e revisão: Maria Céu Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

 

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