QUAIS SÃO OS ENCONTROS POSSÍVEIS ENTRE UM ARTISTA NEGRO E O CAMPO DA EDUCAÇÃO?


Dor Fantasma 2014 Aquarela e lápis sobre papel 109 x 75 cm

Sidney Amaral :Dor Fantasma 2014 Aquarela e lápis sobre papel 109 x 75 cm

Num país estruturalmente racista como o Brasil, para um homem negro apenas o fato de estar vivo e ter chegado à fase adulta já pode ser considerado um feito e tanto. Contrariando as estatísticas e os alarmantes números da violência no país, onde são assassinadas em média 130 pessoas negras por dia, na sua maioria homens entre os 15 e os 29 anos (IPEA, 2019), tenho o privilégio e a responsabilidade de estar vivo. E, aos 41 anos de idade, sendo 22 deles dedicados à educação, considero que atingi o auge: sou professor em um Instituto Federal.

Estando-se vivo, é possível pensar nas condições desta existência. No meu caso, sou artista e professor, o que me traz ao assunto foco deste texto: “quais são os encontros possíveis entre um artista negro e o campo da educação?” Para cada um destes dois papéis sociais que desempenho foi necessária uma formação. Assim, o primeiro encontro possível é na própria formação: antes de atuar no campo da educação como professor, fui estudante, aspirante à professor. E para ser artista, é preciso fazer uma graduação? Não, há muitos artistas que foram autodidatas ou fizeram outras formações, como o Atelier Livre da Prefeitura, no caso dos artistas de Porto Alegre, e até cursos técnicos como o que há no Instituto Federal do Maranhão (IFMA) Campus São Luís – Centro Histórico: curso técnico em artes visuais integrado ao ensino médio.

Não se pode falar em formação, seja ela uma graduação universitária ou um curso técnico em instituições federais, como são os IFs, sem pensar no acesso, nas políticas de ingresso destas instituições, o que certamente nos levará ao assunto das cotas. Assim, outro ponto possível para pensarmos entre um artista negro e o campo da educação é o acesso: é preciso aperfeiçoar as políticas de reserva de vaga e também de permanência, para que possam surgir mais artistas negros e negras, com diploma, e professores negros e negras.

Na presente conjuntura, onde os direitos humanos em geral estão sob ataque, mas que ainda temos a nosso favor a legislação, e contamos com o Estatuto da Igualdade Racial, que garante uma série de direitos conquistados com muita luta nos últimos 20 anos, o/a artista negro/negra transcende o encontro com o campo da educação: ele ou ela é o próprio assunto da aula, do projeto, da pesquisa! A obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro brasileira e africana no Ensino Básico, determinada pela lei 10.639/2003, com a ampliação para todos os níveis de ensino a partir da Resolução 1/2004 do Conselho Nacional de Educação (CNE), faz parte de um conjunto de políticas públicas criadas no período compreendido entre 2003 e 2016 que visam a valorização dessas culturas e o devido reconhecimento enquanto constituintes da cultura e identidade brasileiras. Isso me remete diretamente ao belíssimo material “Arte Negra na Escola”, criado pelo Departamento de Educação e Desenvolvimento Social da UFRGS (DEDS), coordenado pela educadora Rita Camisolão, com curadoria de Eduardo Veras. Ainda hoje, há pouco material sobre arte negra e isso cria um problema, pois não tivemos formação sobre as relações étnico-raciais no ensino médio e nem na graduação: de onde viria a segurança para trabalhar com um tema delicado como esse? Imagino o medo que professores e professoras brancas tem de tocar nesse assunto, o que nos leva ao tema da branquitude. Branquitude é a identidade branca que, ao se considerar hegemônica, arrogantemente não permite que seus pertencentes percebam que essa hegemonia é construída em cima do racismo estrutural. A branquitude é a falsa normalização de que não haja negras e negros no cinema, no museu, no restaurante, no shopping, a não ser atuando como serviçais de limpeza ou segurança. E está aí a importância de uma educação antirracista, de uma educação para as relações étnico-raciais, das políticas de cotas e permanência, da inclusão e da diversidade na escola e nas universidades: é preciso abalar a branquitude e com isso construir a equidade.

Infelizmente ainda em 2019, um professor negro além de fazer tudo o que outros professores tem de fazer, precisa estar sempre alerta, “ser resistência”, ensinar todas e todos sobre racismo (inclusive para seus pares), pois o racismo estrutural está presente o tempo todo, em todas as instâncias das instituições. Ao artista negro resta existir, estar vivo e trabalhando, para que sua trajetória possa um dia romper as bolhas dos sistemas da arte (que em geral são racistas e elitistas) pela persistência, como o fazem Leandro Machado (1970), Pelópidas Thebano (1934) e Carlos Alberto Oliveira, o Carlão (1951-2013), os três artistas eleitos para figurarem no referido material “Arte Negra na Escola”.

Quando falo sobre racismo por aí, em minhas aulas, cursos e palestras, é comum as pessoas brancas ficarem quietas, tímidas, com receio de falar. Certa vez, ao convidar uma turma para participar de atividades da Semana da Consciência Negra, ouvi de uma estudante branca que ela não participaria pois não era certo tirar o lugar de fala das pessoas negras. O Renato Noguera, professor de filosofia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), me ajudou a responder:

Ubuntu pode ser traduzido como “o que é comum a todas as pessoas”. A máxima zulu e xhosa, umuntu ngumuntu ngabantu (uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas) indica que um ser humano só se realiza quando humaniza outros seres humanos. A desumanização de outros seres humanos é um impedimento para o autoconhecimento e a capacidade de desfrutar de todas as nossas potencialidades humanas. O que significa que uma pessoa precisa estar inserida numa comunidade, trabalhando em prol de si e de outras pessoas.

Ou seja, não adianta as pessoas negras ficarem debatendo entre si o racismo, pois as pessoas negras não oprimem nem assediam a si mesmas, não são elas que exercem o racismo, mas sim as pessoas brancas. É preciso que as pessoas brancas assumam a sua responsabilidade sobre o racismo estrutural, desçam do pedestal da branquitude e comecem a refletir criticamente e debater sobre seu protagonismo na perpetuação do racismo estrutural para que possamos ter um avanço maior que leis como a 10.639 e a das cotas.

Por Estevão da Fontoura Haeser

(estevao.haeser@osorio.ifrs.edu.br)

É professor de arte no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, campus Osório. Artista multimídia, mestre em Informática na Educação pelo IFRS, especialista em Pedagogia da Arte pela Faculdade de Educação da UFRGS (2009) e Licenciado em Artes Visuais (2018) e Bacharel em Artes Plásticas (Habilitação em Desenho) pelo Instituto de Artes da UFRGS (2003). Foi curador das mostras brasileiras nas trienais Eksperimenta! 2014 e 2017, em Tallinn, Estônia.

Referências

BRASIL. Lei n. º 10.639, de 09.01.03. Altera a Lei 9394/96 para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e culturaafro-brasileira”. Disponível em     <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm>. Acesso em: 22 de julho de 2019.

CNE/CP. Resolução 1/2004. Diário Oficial da União, Brasília, 22 de junho de 2004, Seção 1, p. 11. Disponível em          <http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/res012004.pdf> Acesso em: 22 de julho de 2019.

NOGUERA, Renato. Ubuntu como modo de existir: elementos gerais para uma ética afroperspectiva. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), v. 3, n. 6, p. 147-150, 2012.

VERAS, E.; MARQUES, A. S. ; FONTOURA, E. ; VIEIRA, G. S. ; MORESCO, L. ; CINEL, N. ; SANTOS, P. X. ; LOPES, V. N. ; CAMISOLAO, R. S. . Arte negra na escola. UFRGS, Prorext, v. 1, n. 1. 2018


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