Victoria Santa Cruz: existência e escuta das mulheres negras em arte e educação


Fonte: https://hammer.ucla.edu/radical-women/artists/victoria-santa-cruz/

Fonte: https://hammer.ucla.edu/radical-women/artists/victoria-santa-cruz/

O encontro entre educação e arte é múltiplo. Assume um espectro amplo que pode ir do ensino das artes visuais, aquele feito em escolas, à educação como prática artística, como vem fazendo a artista cubana Tania Bruguera, com a Escola de Arte Útil. Nessa multiplicidade, a confluência entre educação e arte gera um espaço fundamental para prestarmos atenção à composição da sociedade e dos campos que constituem a docência em artes visuais. Além de produzir, publicizar e ensinar o que as pessoas produzem para o mundo e que tem a forma de arte, “educação + arte” é uma excelente combinação para movimentar as ideias que circundam as relações com o mundo e com o conhecimento.

Ao dedicar esse texto à Victoria Santa Cruz, queremos introduzi-lo tocando em uma questão inadiável:

Em quase todo o mundo, mesmo em países em que a constituição e as leis o proíbem expressamente (como é o nosso caso brasileiro), é negada às mulheres a verdadeira igualdade de oportunidades de participar da vida pública, em condições igualitárias, justas, democráticas e mesmo dignas. Parte significativa dessa negação envolve a experiência de diferenciadas formas de violências e de violação de direitos às quais as mulheres estão recorrentemente submetidas.” (MATOS, 2018, p. 27. Grifo nosso).

Hoje, a desigualdade entre os gêneros é mais comentada e mensurada quanto ao mundo do trabalho e da participação política, porém estamos distantes de começar a reparação dos danos que a preponderância masculina impôs à constituição social. Não se trata apenas das mulheres ocuparem os postos onde estão os homens, mas trata-se de observar que muitos modos de agir e organizar o mundo vêm de um olhar desigual em origem, patriarcal e de propriedades, cuja naturalização impede que mulheres e homens transformem o mundo. Ademais, dentre as mulheres, a injustiça e as várias formas de violência são mais dirigidas às mulheres negras. Se somos nós, viventes, que criamos mundos pelas inúmeras culturas e saberes existentes, por que motivo abriríamos mão de pensar conjuntamente sobre a perversidade de certos traços de seu funcionamento? Indagar o “funcionamento das coisas” na vida, na educação e nas artes visuais é justamente destinar cuidado à vida, à arte e à educação. Admitir as feridas sociais históricas que precisam ser tratadas é o começo de uma atitude que não seja a do silêncio e nem a do apagamento.

Foto: Reprodução/YouTube

Foto: Reprodução/YouTube

A partir dessas questões, vamos seguir com Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra, que foi uma poeta, compositora, coreógrafa, professora e ativista. Ela teve uma importante trajetória de vida, com uma atuação que abrangeu diversas áreas do conhecimento e temas vinculados à cultura afroperuana. Conhecida como Victoria Santa Cruz, nasceu no ano de 1922, em Lima, em uma família que por gerações vem redefinindo a vertente negra na cultura peruana por meio de poesia, pintura, composição e interpretação musical, dramaturgia e dança.

Fonte: reprodução do youtube

Fonte: reprodução youtube

Seu intento inicial, quando jovem, foi criar um grupo de teatro negro. Com seu irmão, o poeta, pesquisador e jornalista Nicomedes Santa Cruz, criou em 1958 o grupo Cumanana, tendo em vista recuperar e divulgar a cultura musical afroperuana. Nesse grupo ela trabalhava integrando todas as áreas: composição musical, direção cênica, coreografia, desenho e confecção de figurinos.

Exposição em homenagem a Victoria e Nicomedes Santa Cruz, em 2016. Fonte: http://musicacriolla.pe/2016/02/todo-es-ritmo-exposicion-homenaje-a-nicomedes-y-victoria-santa-cruz.html

Exposição em homenagem a Victoria e Nicomedes Santa Cruz, em 2016. Fonte: http://musicacriolla.pe/2016/02/todo-es-ritmo-exposicion-homenaje-a-nicomedes-y-victoria-santa-cruz.html

“Certa Servidão”, musical escrito pela artista (ao centro, dançando) para a televisão. Fonte: https://cosas.pe/el-arte-de-ser-peruano/114173/victoria-santa-cruz/

“Certa Servidão”, musical escrito pela artista (ao centro, dançando) para a televisão. Fonte: https://cosas.pe/el-arte-de-ser-peruano/114173/victoria-santa-cruz/

Em 1961, a multiartista recebeu uma bolsa do governo francês para estudar na Universidade do Teatro das Nações e na Escola de Estudos Coreográficos, em Paris. Ao retornar para o Peru, no ano de 1966, fundou a companhia Teatro y Danzas Negras del Perú, o primeiro grupo a fazer um programa completo de música afroperuana. Ao chamar candidatos mestiços e negros para fazer teatro, Victoria reuniu um elenco de 300 artistas em um grupo que a teve como professora e intérprete principal. A companhia trabalhou para a restituição e a recriação de danças, como a Zamacueca e o Alcatraz, esta uma dança erótica, a partir da memória dos corpos e também das aquarelas do pintor afroperuano Pancho Fierro. A memória corporal e as imagens eram como um ponto de partida para a criação dos movimentos das coreografias como, por exemplo, a que partiu do detalhe de um lenço amarrado na cintura dos personagens da imagem.

Devido ao destaque na cena cultural peruana, o Teatro y Danzas Negras del Perú representou seu país nas Olimpíadas de 1968, no México. A projeção internacional proporcionou ao grupo uma excursão pelos Estados Unidos em 1969 e, no mesmo ano, Victoria tornou-se uma das poucas mulheres negras latino-americanas a exercer a docência na Universidade Carnegie Mellon, localizada no estado da Pensilvânia. Seu livro, Ritmo: el eterno organizador (2004), foi recentemente disponibilizado em edição bilíngue (espanhol e inglês) no site daquela universidade, além de receber uma reimpressão no seu país de origem. Dessa obra, trazemos algo da sua experiência como artista, professora e mulher negra na defesa de uma conexão profunda, íntegra e presente, capaz transformar a ordem externa das relações:

A educação deve ser reformada! O que é educação? Onde inicia e até onde vai? De onde nasceram as especialidades e os especialistas? Pode-se estruturar um currículo desconhecendo o elo que conecta uma especialidade em outra? Pode um professor ou professora guiar seu aluno sem ter experimentado um processo interior que lhe permita detectar a origem do conflito que impede a comunicação entre ambos? Por que o especialista não se aprofunda em sua especialidade reencontrando a coluna vertebral da educação? Por que, com o passar do tempo, o abalo do meio pela meta dá lugar a especialistas e especialidades? Não é isso o sintoma de uma divisão? Se o meio, como tal, cumpre sua função, desenvolverá o orgânico movimento nos seres humanos, que irão alcançando graus de conhecimento, de acordo com seus respectivos processos de evolução. (SANTA CRUZ, 2004, p. 81. Tradução nossa).

Victoria Santa Cruz ganhou muitos prêmios, como o de Melhor Folclorista no Primer Festival e Seminario Latinoamericano de Televisión, em 1970, por seu trabalho com arte popular. Em 1973, foi nomeada diretora do Conjunto Nacional de Folclore do Instituto Nacional de Cultura (INC) do Peru, posição que assumiu sob uma atmosfera de desconfiança e preconceito, por ser mulher e negra, exercendo a função até 1982. Não obstante, e sempre afirmando com convicção “Hoy sé quién soy”, ministrou diversos workshops nos Estados Unidos e na Europa, vindo a falecer aos 91 anos em Lima, no dia 30 de agosto de 2014. Sua contribuição é reconhecida pela investigação e recriação do chamado “folclore afroperuano” de raízes rítmicas e corporais ancestrais, o que realizou por mais de cinco décadas.

Seu nome é muito associado ao poema Me gritaron negra. Emblemático e contundente, o poema cantado trata de um episódio passado por ela aos cinco anos. Impossível de ser descrito, recomendamos fortemente o exercício de atenção e escuta da artista, em performance com seu grupo, no vídeo a seguir.

Vídeo legendado: https://www.youtube.com/watch?v=RljSb7AyPc0 . Transcrição do poema: https://www.geledes.org.br/me-gritaron-negra-a-poeta-victoria-santa-cruz/

Vídeo legendado: https://www.youtube.com/watch?v=RljSb7AyPc0 . Transcrição do poema: https://www.geledes.org.br/me-gritaron-negra-a-poeta-victoria-santa-cruz/

O poema cantado recusa a rejeição social dirigida às pessoas negras. Ritmado, faz isso dando voz, resposta e reivindicação de espaço e existência. Victoria nos organiza, porque nos desaloja de uma suposta isenção, oferecendo duas posições: uma no coro ou, outra, na escuta. Tomar qualquer distanciamento só é possível na condição de uma forte blindagem. Em que posição nos encontramos?

A dura experiência infantil de Victoria demonstra como se dá o processo de construção de identidades desumanizadas e que tem agentes brancos de fundo. Também anuncia como a artista construiu com as artes um espaço de existência e afirmação cultural em um campo que é hegemonicamente masculino, branco e, ainda hoje, de cunho colonizador e civilizatório. 

Me gritaron negra expõe pela arte o violento embate cotidiano e a cegueira social e política da América Latina. Rejeita amenizar a evidência negra da pele, do cabelo e da cultura, pois toda diminuição tende a contribuir ao branqueamento e ao extermínio simbólico e, provam as estatísticas, da vida. A escultura de Flávio Cerqueira, “Antes que eu me esqueça” pode dar continuidade a essa inadiável questão. 

Antes que eu me esqueça, 2013 : Flávio Cerqueira

Antes que eu me esqueça, 2013 : Flávio Cerqueira

Em entrevista a Eugenio Barba, no filme Victoria Negra e Mulher (1978), ela diz: 

Ser negra era algo meu e que tinha que compreender e sair dali sozinha. Em um momento de minha vida, odiei, odiei […] e não aconselho isso a ninguém. Com o tempo, fui compreendendo que aquilo também era importante, porque hoje não seria o que sou. O negativo também cumpre uma função: não cair com aquilo, mas [saber] o que fazer com aquilo. Compreendi que sou negra, mas não como disseram, sou negra e tomo parte desse mosaico que compreende o homem negro, branco, amarelo, vermelho. Enquanto não se derem conta que entre o negro, o branco, o amarelo e o vermelho existe um homem só, jamais poderão descobrir quem é esse homem. […] Se o branco não abrir os olhos ao índio e ao negro, irá desaparecer. E com a sua desaparição, acontece a nossa desaparição também, pois somos parte deles e, eles, parte de nós. Se não fosse assim, não me teriam agredido, me agrediram porque são parte de mim.

O tema da mulher negra nas artes da América do Sul tem enorme importância e deve estimular paralelamente o pensamento sobre a ausência de pessoas negras que fazem, ensinam ou pesquisam arte no próprio campo artístico e na educação das artes visuais. Para tal, estejamos alerta para abordagens que tipificam as pessoas negras pela exotização e por atitudes pautadas pelo colorismo das peles. A pintura A Redenção de Cã (1895), de Modesto Brocos, fala de modo agudo sobre o embranquecimento da população negra no Brasil e sobre o ímpeto colonizador que ainda é vigente. Isso deve incentivar o necessário reconhecimento da branquitude como a norma dos cânones artísticos e, por decorrência, dos exemplos levados à escola.

Por isso, pensemos juntos:

Quais são as imagens, os discursos e existências que levamos conosco quando compomos uma aula? De que forma as pessoas negras estão representadas nessa composição? Que imagens, que artes, que pessoas reiteramos? Qual é o lugar dos estudantes –negras e negros, mas também indígenas e trans – em nossas escolhas?

Em se tratando de educação e arte, estamos em uma época onde o apreço pelas narrativas da arte não deve superar o senso de responsabilidade política condizente com os processos educativos. O zelo pelo conhecimento histórico sobre a arte, grandemente reivindicado na formação docente, precisa ser igualmente praticado quanto aos critérios de escolha nessa arena, pois o que é propagado em arte e educação também pode reiterar a hegemonia cultural. Outro risco é naturalizar práticas que têm como critério de fundo o apagamento ou a estigmatização das pessoas negras, seja pela ausência, seja pelo estereótipo.

Tragicamente, no Brasil, em cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negras e mais de 60% da população carcerária tem pele negra. Nosso país viu agentes do estado executarem Marielle Franco, uma mulher negra, vereadora, socióloga, lésbica e defensora dos direitos humanos. Admitir que existe o racismo, que ele está nas estruturas e exaltar mulheres negras latino-americanas são posturas impreteríveis e inadiáveis inclusive nas esferas da arte e da educação. É necessário, contudo, aprender a desocupar o lugar de quem historicamente tem tido a propriedade da voz:

O centro do problema é a divisão do ser humano que, por estar cortado, separado, de seu processo interior, debate-se em uma luta estéril, frente ao conflito que sua mesma divisão e hipnose fabricou, ao não poder transformar seu exterior. Classismo, racismo, violência, contaminação, enfermidade, miséria, ódio, desemprego, guerra, etc., etc. […] Estamos nos multiplicando sem crescer e é aí onde reside o centro do problema. O que é crescer? … Crescer é devir… O que é devir? … Devir é iniciar-se no processo de ação… O que é ação? (SANTA CRUZ, 2004, p. 79. Tradução e grifos nossos).

 

 

Referências:

AFROFÉMINAS. Victoria Santa Cruz: Hoy sé quién soy, hoy nadie me puede insultar. Disponível em: <https://afrofeminas.com/2018/07/30/victoria-santa-cruzhoy-se-quien-soy-hoy-nadie-me-puede-insultar/>.

 BARRÓN, Josefina. Victoria Santa Cruz: con este meneo no hay quien me queme. Disponível em <https://cosas.pe/el-arte-de-ser-peruano/114173/victoria-santa-cruz/>.

BLACK AND WOMAN. Eugenio Barba entrevista Victoria Santa Cruz. Documentário realizado pela Odin Teatret. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=p6Frs9rDWx8>.

 GAMARRA, Victoria S. C. Ritmo: El Eterno Organizador. PETROPERU Ediciones COPÉ, Departamento De Relaciones Públicas De PetroPerú, 2004. Disponível em: <https://kilthub.cmu.edu/articles/Ritmo_El_Eterno_Organizador/8321321>.

 MATOS, Marlise (Org.). Pedagogias feministas decoloniais: a extensão universitária como possibilidade de construção da cidadania e autonomia das mulheres de Minas Gerais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018. 

 

Transcrição do poema Me gritaron negra. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/me-gritaron-negra-a-poeta-victoria-santa-cruz/>. 

 

TV PERÚ. SUCEDIÓ EN EL PERÚ – Los Santa Cruz: Victoria y Nicomedes. 2013. Parte 2/4. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=zrxxnkIc2ko>.

 

WETHAL, Torgeir. Black and Woman. Documentário. 1978. Disponível em três partes: 

Parte 1: <https://www.youtube.com/watch?v=Fx4ZiluO6gE>

Parte 2: <https://www.youtube.com/watch?v=5d1oabypXQc

Parte 3: <https://www.youtube.com/watch?v=oBRInWFPlj0>

 

Outras sugestões:

 

História da Psicologia e as Relações Étnico Raciais. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=kWxksk-c_0I&list=LLK1TRrc-Nc5PY69bJKTBBag&index=3&t=0s>.

 Me gritaron negra em LIBRAS. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=JgvlxGkfguw>.

CAPRA, Carmen Lúcia. Objetos Comuns, Conversas Compartilhadas, com Fernanda Bastos, Priscila Pasko e Betina Guedes. 2019. Disponível em: <https://wp.me/p6PUuC-Yp>.

 Performance no bandejão da USP com o poema Me gritaron negra. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=3z0qktEln2c>.

Viviane Ferreira – Diálogos Ausentes (2016). Disponível em: <https://m.youtube.com/watch?v=MOJ3nJPSW9A>.

Texto e pesquisa: Carmen Lúcia Capra e Mayra Coorêa Marques

Revisão e edição: Ágda Céu Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

 

 

 

 

 

 

 

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