YEGUAS DEL APOCALIPSIS: CORPOS EM ECLOSÃO E CRIAÇÃO DE NOVOS MUNDOS


1990/ Instalamos pajaritos como palomas con alambritos

1990/ Instalamos pajaritos como palomas con alambritos

 

Não sabemos como e quando exatamente se iniciou a relação apocalíptica e insurgente de Pedro Lemebel com o artista Francisco Casas, e muito pouco temos informações sobre como surgem as Yeguas del Apocalipsis, em que os artistas incorporam versões femininas dos cavaleiros bíblicos do Apocalipse se autorretratando em diversas composições e personificações, numa eclosão artístico-estético-política, em Santiago, no Chile, por volta de 1987, período de ditadura militar e intenso caos político. Os artistas se deslocavam por diversas cidades com intervenções, ações e performances, sendo que muitas delas não foram registradas ou documentadas por terem acontecido espontaneamente e sem aviso prévio.

O corpo presente no espaço, as tensões que corporalidades não normativas causam nos espaços de aparição envolvem as produções artísticas das Yeguas aos posicionamentos políticos de resistência ao qual Pedro Lemebel e Francisco Casas estavam intensamente envolvidos na época. Os artistas também se posicionavam de forma contrária aos sistemas e correntes artísticas, para criar juntos novas formas de burlar, romper com institucionalizações e modos de validação, consequentemente ocupando espaços públicos e alternativos para realização de suas ações. 

1990/ Estrellada II

1990/ Estrellada II

 

O vídeo documentado em Calle San Camillo no Chile ‘’La ultima cena’’, em 1989, mostra a vida de travestis e mulheres transsexuais no prostíbulo ‘’Casa Particular’’. Pedro Lemebel e Francisco Casas fizeram um processo de imersão no espaço onde as mulheres trabalhavam para fazer uma intervenção com as travestis do local. Pedro Lemebel inclusive escreve em uma de suas crônicas sobre os processos de desumanização e exclusão aos quais corporalidades trans que viviam no Chile estavam condicionadas, junto das dificuldades que passavam as que também viviam enquanto soropositivos.

1989/ La última cena

1989/ La última cena

‘’Inspirados en un tapiz que colgaba en una de las habitaciones del prostibulo y que reproducía el cuadro de Leonardo Da Vinci ‘’La última cena’’ en versión kitsch, Pedro Lemebel e Francisco Casas convocaran a las travestis del lugar a escenificar la última cena cristiana. Una de las travestis conocida como ‘’la Doctora’’ (la regenta del prostíbulo), ubicada en el lugar de Cristo tomaba un trozo de pan y una copa de vino mientras anunciaba: ‘’Esta es la última cena, la última cena de este gobierno. Este es mi cuerpo, esta es mi sangre’’. Luego tenía lugar una fiesta y la interpretación de Francisco Casa de una versión del tango de Libertad Lamarque, ‘’Malena canta el tango’’. Esta escenificación de ‘’La última cena’’ luego fue incorporada el video de Gloria Camiruaga, titulado ‘’Casa particular’’, que incluye además testimonios de las travestis en la cena, en bares y locaciones cercanas. Esta producion fue exhibida un año más tarde, en la sección ‘’Video Arte’’ de la exposición ‘’Museo Abierto’’, la primera gran exhibición colectiva realizada en el Museo Nacional de Bellas Artes durante la apertura democrática. El material generó una polémica en el público de la exposición que presionó por la censura y el retiro del video de la sala de exhibición.

Disponível em: http://www.yeguasdelapocalipsis.cl/1989-la-ultima-cena-video-casa-particular/

Em 1959, os artistas levam para o espaço público e cultural os questionamentos e as vivências sobre homossexualidades, no contexto de ‘’transição democrática’’. A ação-performance-teatro intitulada ‘’De que se rie presidente’’, foi realizada no Teatro Cariola em Santiago, no Chile.

1989/De que se rie presidente

1989/De que se rie presidente

 

‘’(..) El 21 de agosto de 1959, Pedro Lemebel y Francisco Casas, intervinieron un ato que tenía lugar en el Teatro Cariola en el que se presentaban las políticas culturales que el gobierno de Patricio Aylwin promovería en su futuro gobierno. El encuentro con el candidato a la presidencia de los partidos de la Concertación en el contexto de la ‘’transición democrática’’ en Chile, se tituló ‘’Encuentro de Aylwin con los Artistas‘’ (…) 

‘’Las Yeguas del Apocalipsis con abrigos, tacos y mallas de ballet irrumpieron en el escenario fuera de programa, interrumpieron del discurso de la actriz y premio nacional Ana González, y desplegaron un lienzo con la consigna: ‘’Homossexuales por el cambio’’

 

Disponível em: http://www.yeguasdelapocalipsis.cl/1989-de-que-se-rie-presidente/

 

Na performance ”Las dos Fridas” realizada em Santiago no Chile, em 1989, os artistas encenam e realizam uma ”pintura ao vivo” do autorretrato da pintora mexicana, trazendo para discussão e questionamentos o imagem de Frida como um objeto-fetiche que gera lucro ao mercado da arte, já no final dos anos 80.

 

Registro: Pedro Marinello

Registro: Pedro Marinello

Disponível em: http://www.yeguasdelapocalipsis.cl/1989-las-dos-fridas/

Em 1988, os artistas realizam uma performance ‘’Bajo el puente’’ no Centro Cultural Mapocho em Santiago no Chile. Na ação-performance as Yeguas apareceram nus, em um quarto escuro iluminado apenas por uma lanterna, onde faziam carícias, gestos, toques golpes e cobriam seus corpos com sal, referindo-se a violência a homossexualidade.

‘’En 28 de ouctubre de 1988, las Yeguas del Apocalipsis realizaron una intervención que comézo en las puertas de la Casa Central de la Universidad Católica, continuó en el paso bajo nivel del Cerro Santa Lucía que funcionaba como zona de prostitución masculina, y terminó con una ‘’performance’’ en el Centro Cultural Mapocho, donde tenía lugar el Festival Corazones Duros.’’

Disponível emhttp://www.yeguasdelapocalipsis.cl/bajo-el-puente/

 

Fonte: http://www.yeguasdelapocalipsis.cl/biografia/

Fonte: http://www.yeguasdelapocalipsis.cl/biografia/

As Yeguas também estavam ligadas a alianças políticas, marchas, coletivos de resistência, onde faziam intervenções com movimentos de trabalhadores e segmentos da população em condições precárias e insalubres. 

Os artistas estiveram presentes em ações como

  • Día del sida en Concepción, 1991

As Yeguas foram convidadas a participar das atividades do ‘’Dia da AIDS’’ promovido pelo governo chileno e pela Organização Mundial da Saúde. Os artistas participaram das marchas pelas ruas, onde ergueram um slogan escrito ‘’Dia mundial da AIDS, compartilhando o desafio”, junto da ação houve uma homenagem a Sebastián Acevedo. 

  • II Marcha del Informe Rettig – II Marcha del Movimiento Homossexual, 1993

Em 1993 foi realizada uma Marcha de descontentamento em relação a medida de reparação e conciliação criada pelo governo de Patricio Aylwin em relação a impunidade e injustiças cometidas a vítimas de assassinatos, torturas, agressões no contexto de ditadura militar. As Yeguas nessa ocasião se juntaram aos manifestantes, com seus rostos nus e seus próprios slogans, junto delas eclodiu também um grupo de travestis e mulheres trans para a manifestação.

  • Comemoración de los 25 años de la Rebelión Stonewall – ILGA, 1994. 

Revolta que aconteceu por volta dos anos 60, em um contexto de forte hostilidade a corporalidades consideradas desviantes, ou seja, os segmentos LGBTQIA+ da população. As Yeguas viajaram para Nova Iorque e participaram da marcha com uma tela que dizia ‘’Não + repressão no Chile’’

 

Pedro Lemebel e Francisco Casas também estiveram em diversas exposições e bienais pelo mundo. Dentre elas, podemos citar:

  • ‘’Crisisss: América Latina, arte y confrontación’’, 1910-2010, com curadoria de Germano Mosquera no Museo del Palacio de Bellas Artes, Ciudad de México, México. Entre as obras expostas, estavam as fotografias  ‘’La conquista de América’’ de 1989, ‘’Las dos Fridas’’ de 1989 e ‘’Tu dolor dice’’ de 1993.
  • ”Dios es marica, 31° Bienal de São Paulo, Como falar das coisas que não existem”, com curadoria de Miguel López, realizada no Parque do Ibirapuera em São Paulo, as obras incluídas na exposição, inclui a fotografia ‘’Las dos Fridas’’ de 1989 e o vídeo-documentário ‘’Casa Particular’’ de 1989. 

 

Com uma vasta produção artística, política, las Yeguas del Apocalipsis trazem questionamentos bastante pertinentes para pensarmos sobre corporalidades anti-normativas, pois é a partir de representações e apresentações públicas que os artistas evocavam possibilidades múltiplas de ser e estar no mundo. É sobre ocupar espaços que não são acessados por pessoas que estão fora de uma normatividade e a partir da arte e das manifestações artísticas públicas, criar novos mundos e formas outras de se relacionar com os outros e consigo.

 

De que modo o trabalho das Yeguas del Apocalipsis pode ajudar a escola a se pensar como um espaço para múltiplas possibilidades de ser e estar no mundo? Que espaço estético e político há para corpos em eclosão em nossas práticas pedagógicas?

 

Referências: 

http://www.yeguasdelapocalipsis.cl/biografia/

http://www.memoriachilena.gob.cl/602/w3-article-96708.html

https://www.artistasvisualeschilenos.cl/658/w3-article-86978.html

http://www.bienal.org.br/post/1584

 

Texto e pesquisa de Ágda Céu Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

Edição e revisão de Ágda Céu Rocha e Luciana Gruppelli Loponte


 

 

 

 

 

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