Meus silêncios não me protegeram. Seu silêncio não vai proteger você.
Audre Lorde

Fonte: https://mariagraciadepedro.com/regina-jose-galindo-2015/


A imagem da casa como lugar de proteção, afeto e bem-estar é imperante em nossa cultura. Nessa imagem, desfilam os ideais de família, amor romântico e de segurança frente a uma realidade sabidamente violenta como a do Brasil. Entretanto, essa imagem do “lar doce lar” seguro e feliz, evidentemente, não leva em conta que, para um grande segmento da população, esse pode ser o lugar mais perigoso para se estar. Cabe lembrar que, de acordo com os dados do Atlas da Violência de 2019, é na própria residência onde acontece a grande maioria dos assassinatos de mulheres.
Como sabemos, a conjuntura da pandemia jogou boa parte da população em um confinamento no lar, como a medida mais eficaz contra a transmissão do coronavírus. Esse confinamento e o decorrente aumento do tempo de convivência em família, tornou nítida uma realidade que muitos insistiam em não ver: a da persistência da violência contra mulheres no ambiente doméstico, a despeito dos avanços legais na coibição e punição dessa violência.
Phumzile Mlambo Ngcuka, diretora executiva da ONU Mulheres, chama de “pandemia invisível” o paradoxo da quarentena, onde o isolamento para proteger as pessoas, aproxima ainda mais as mulheres e meninas de seus agressores aumentando os fatores de risco para a vida delas.
Na live Violência Doméstica em tempos do Covid 19, a promotora de justiça do Paraná, Valéria Scarance, informou ter observado uma diminuição de boletins de ocorrência, mas um aumento de cerca de 20% nos feminicídios. Embora sejam dados bastante recentes para conclusões, é necessário prestar muita atenção a eles já que, conforme os índices, como a maior parte dos agressores vive dentro de suas casas, as mulheres podem estar com ainda mais dificuldade de denunciar.
Se todas as mulheres estão vulneráveis à violência doméstica, é importante enfatizar que as vítimas mais frequentes são mulheres negras, aquelas que residem em periferias e aquelas que se encontram nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, conforme os dados do Mapa da Violência de 2015 e do Atlas da Violência de 2019. Ainda, também lembrar de muitas formas de isolamentos para além da quarentena.
No documentário Sozinhas (2017) sobre mulheres do campo no oeste catarinense observamos a situação de isolamento geográfico em um contexto rural, sob a dimensão da complexidade de conflitos que envolvem sair de uma situação violenta. Situações práticas, materiais e sentimentais diante do afastamento das redes de apoio.
No site do ARTEVERSA já tratamos um pouco das ressignificações feitas por muitas artistas mulheres, do ambiente da casa relegado às mulheres como lugar do trabalho de reprodução, para um lugar de criação e possibilidade de existência. Precisamos ainda, e urgentemente, falar também de quando a casa não é sequer um lugar seguro para manter-se viva, a casa como lugar de violências mantidas por silenciamentos e invisibilização.
Mas será que é possível falar de violência doméstica através da arte?
Que tipo de vozes e visibilidades podem ser criadas para ajudar a transformar a situação das mulheres vítimas de violência dentro de suas casas?
O que a arte pode diante daquilo que é insuportável para muitas pessoas?
Como as artistas têm abordado o problema da violência doméstica?
Frente ao silêncios, os que podem, devem falar e abrir caminhos de para aquelas que não podem. Os que podem mostrar, tem o compromisso de não omitir. A arte, nesse sentido, é um campo com diversas possibilidades de fazer ecoar vozes e produzir novas visualidades.


Uma das vozes que ecoam em imagens é a de Panmela Castro. A artista, que teve uma biografia marcada pela experiência da violência doméstica – seja enquanto criança que vivia em um lar violento, seja enquanto adulta em seus relacionamentos pessoais – tem tematizado por meio de performances, pinturas, grafittes e instalações essa brutal realidade a qual muitas mulheres estão submetidas.
Outra artista que fala da violência doméstica em primeira pessoa é a estadunidense Nan Goldin. Seu trabalho é conhecido por acompanhar o cotidiano e a violência perpetrada contra grupos homossexuais, transexuais, travestis e de prostitutas. A certo momento, no entanto, a câmera volta-se para si mesma, expondo intimamente sua realidade. Trata-se de um autorretrato realizado após uma agressão que sofreu do próprio companheiro.

Na medida em que as artistas, como mulheres suscetíveis à violência, vocalizam seus medos e suas experiências pessoais, produzem imagens que se convertem em símbolos de silêncios rompidos. Resta-nos suspeitar:
Os apagamentos e os obstáculos colocados à criação artística feminina ao longo da história não teriam sido uma forma de sufocar a denúncia ao patriarcado, ou manter velado tais experiências da violência?
As narrativas masculinas da história da arte (aquelas em que há lugar apenas para a arte feita por homens) não seriam também instrumento de manutenção desse estado de coisas?
A violência contra as mulheres não iniciou na quarentena
Ainda que vistos com ares de novidade ou de surpresa por certas pessoas, a partir de estudos de diversas autoras e artistas, podemos argumentar que a violência contra mulheres possui uma longa história e que, mesmo que pareça óbvio, ainda é preciso dizer que o isolamento na quarentena não é a causa da violência, como insinuam declarações recorrentes proferidas inclusive por chefes de Estado, do Brasil e de outros países. A quarentena é apenas um agravante dos fatores de risco que já existiam e que advém de uma cultura de violência estruturada.
Lembramos que a vida no lar sempre esteve vinculada ao campo do privado, o que implicou em um denso manto de invisibilidade, negligência e impunidade, no âmbito das políticas públicas e da sociedade, quanto às inúmeras formas de violência que ali se desenrolaram. Afora isso, a violência que geralmente era praticada por homens nesse ambiente, foi socialmente tratada com condescendência e banalidade, sob o argumento de ela ser resultado de uma natureza masculina imutável, quando não, atribuída ao comportamento da própria mulher, desdobrando-se na sua culpabilização. Fato é que, a violência doméstica e conjugal, foi, seja por aspectos religiosos, políticos ou culturais, pouco combatida ou tratada como um problema de toda a sociedade.
Em dias de quarentena, em que vimos muitos projetos de releituras de obras de arte canônicas em casa, cabe revisitar também as fotografias que a artista turca Derya Kilic realizou em 2012, encenando retratos conhecidos da história da pintura, acrescentando-lhes hematomas e machucados. Com isso, a artista sinaliza que a violência contra a mulher tem uma longa história, ainda que só recentemente tenha sido tratada como um problema social.

Diversas campanhas e trabalhos artísticos já utilizaram-se de imagens da agressão, em sua forma física, para denunciar, tornar visível de maneira impactante, trazer para perto o que muitas vezes fica velado. No trabalho da artista estadunidense Cindy Sherman a imagem de mulheres é ficcionalizada no corpo da própria artista através de uma encenação fotográfica de personagens de filmes que estereotipam as mulheres através de papéis. Entre essas imagens temos rostos agredidos.

Já no trabalho da brasileira Dora Longo Bahia, isso é feito através de pinturas a partir de notícias de páginas policiais. A artista pinta a si mesma na situação de mulheres agredidas, acompanhando legendas de fotos no periódico Notícias Populares. No caso de Dora, chama atenção os relatos dos “motivos” para a agressão, onde detalhes de uma relação íntima são expostos nas páginas policiais e beiram a irrealidade. Além de ambas as artistas realizarem autorretratos, seus trabalhos trazem à tona o tratamento dispensado pelos meios de comunicação de massa à violência sofrida pelas mulheres: em Sherman a referência se faz aos filmes hollywoodianos dos anos 50 e 60, em Bahia, ao jornalismo policial espetacularizado.

O fato de que apenas recentemente o Estado tenha reconhecido a dimensão de gênero dessas formas de violência e previsto punições para elas, denota uma longa história de silêncio e naturalização desse estado de coisas. Data apenas de 2006 a implementação da Lei Maria da Penha, que reconhece como crime a violência doméstica, e apenas de 2015 a tipificação do crime de “feminicídio” no Código Penal, que caracteriza o assassinato de mulheres em função do seu gênero.
Ainda no contexto brasileiro, a historiadora Lilia Schwarcz articula a tendência brasileira ao autoritarismo à “formação patriarcal de nossa sociedade” (SCHWARCZ, 2019, p. 186) como fatores que produzem uma brutal e persistente violência contra mulheres e contra as populações LBTQI+. Não à toa toda essa estrutura autoritária e patriarcal presente e naturalizada entre nós, está essencialmente ancorada em estereótipos de gênero, em que se reitera a figura do homem como chefe de família e provedor que se expressa através de um tipo de heterossexualidade agressiva.
Somam-se a esses traços históricos do Brasil, uma crescente militarização da esfera pública e a atual política armamentista por parte do Estado, que apenas intensificam esse quadro se levarmos em conta que grande parte dos assassinatos no Brasil são cometidos por armas de fogo, ainda segundo o Atlas da Violência de 2019.
A artista Beth Moysés ilustra esse Brasil através da obra 5664 Mulheres (2014) onde a bandeira do país é desenhada com cápsulas de munição, em referência ao número de mulheres assassinadas por seus companheiros em 2013.

A professora e autora estadunidense bell hooks (2019) também enfatiza a amplitude e difusão dessa violência, referindo-se a ela como uma “violência patriarcal” que está conectada ao “pensamento sexista”, tendo mais vítimas e outros desdobramentos além da violência doméstica:
Inicialmente, o foco do feminismo em violência doméstica destacou a violência de homens contra mulheres, mas com o progresso do movimento, surgiram evidências de que a violência doméstica também estava presente em relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, que mulheres em relacionamentos com mulheres eram e são muitas vezes vítimas de abuso, que crianças também eram vítimas da violência patriarcal de adultos, mulheres e homens. […] O termo ‘violência patriarcal’ é útil porque, diferentemente da expressão ‘violência doméstica’, mais comum, ele constantemente lembra o ouvinte que violência no lar está ligada ao sexismo e ao pensamento sexista, à dominação masculina. (hooks, 2019, p. 95-96).
A 12ª Bienal do Mercosul que atualmente acontece online e traz como tema Feminino(s), visualidades, ações e afetos, também tem abordado o tema da violência contra as mulheres através de obras de artistas com as argentinas Ana Gallardo e Fátima Pecci e as mexicanas Elina Chauvet e Mónica Mayer.

Fátima Pecci Carou pinta retratos de mulheres que sofreram violência na Argentina e intitula de “Algum dia sairei daqui” essa lista de rostos. Ana Gallardo traz memórias de mulheres e meninas guatemaltecas, em especial as camponesas e as indígenas submetidas à torturas, trazendo fragmentos de suas falas.

A violência como ato discursivo
Se o ato violento é entendido como mensagem e os crimes se percebem orquestrados em claro estilo responsorial, encontramos-nos com uma cena onde os atos de violência comportam-se como uma língua capaz de funcionar eficazmente para os entendidos, os avisados, os que a falam, ainda quando não participem diretamente na ação enunciativa. É por isso que, quando um sistema de comunicação com um alfabeto violento instala-se, é muito difícil desinstalá-lo, eliminá-lo. A violência constituída e cristalizada em forma de sistema de comunicação transforma-se em uma linguagem estável e passa a se comportar com o quase-automatismo de qualquer idioma. (SEGATO, 2013, p. 31-32)
A dimensão da fala parece ser um ponto chave quando pensamos a violência como uma linguagem, como forma de comunicar um poder, com intuito de fazer entender uma mensagem, aquilo que Rita Segato chama de “pedagogia da crueldade”. O que podemos relacionar, por exemplo, com os significados discursivos do assassinato da socióloga e política negra Marielle Franco, ocorrido no Rio de Janeiro em 2018, cujo nome se desenha sobre o corpo de todas as mulheres que, como ela, desafiaram estruturas de poder. Um crime ainda impune, uma violência, mais do que instrumental, também expressiva, contra uma mulher negra bissexual que ousou ocupar um cargo público.

A linguagem da violência que historicamente tem sido associada ao patriarcado, foi alimentada, desde tempos longínquos, pela ideia de uma inferioridade da mulher, isto é, a ideia de que ela seria menos humana que o homem. No entanto, autoras como Silvia Federici e Rita Segato, que têm pesquisado diferentes dimensões dessa violência, estabelecem correlações entre o ataque às mulheres e aspectos políticos mais amplos como as dinâmicas dos sistemas capitalista e neoliberal. Tais sistemas, dizem elas, estão calcados em modos de relação que fragilizam a empatia, os laços comunitários, a solidariedade e a prática do cuidado, valores fortemente associados ao feminino. Além disso, tais sistemas se pautam em uma lógica da propriedade e da predação dos territórios e da natureza, lógica que acaba se estendendo às relações com as mulheres. Assim, o ataque às mulheres seria a própria condição de manutenção desses sistemas.
Mas de que maneiras a arte poderia desafiar esses sistemas? Uma das vias possíveis a esta pergunta parece ser as práticas que são dão no âmbito das micropolíticas, em que olha-se e utiliza-se de elementos do próprio cotidiano onde essas violências acontecem, como podemos ver no trabalho da artista americana Peggy Giggs, Domestic Violence Milk Carton Project.

Em 1992, por sugestão de uma mulher que havia sido presa por matar seu marido em legítima defesa, Peggy desenvolveu mensagens para caixas tetra pak de leite e negociou com empresas de laticínios a circulação dessas mensagens pelos supermercados através do design das embalagens, visando atingir as mulheres através de um alimento comum nas casas. Nessas mensagens haviam contatos para denúncias, pensando-se que no supermercado, um dos poucos lugares onde algumas mulheres iriam sozinhas, fornecer essas informações poderia encorajá-las.
Continue lendo a PARTE 2 (em breve).
Referências
hooks, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia da Letras, 2019.
SEGATO, Rita. La escritura en el cuerpo de las mujeres asesinadas en Ciudad Juárez. Buenos Aires: Tinta Limón, 2013.
Links
https://theintercept.com/2019/11/27/audre-lorde-ensaio-irma-outsider/
https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2005000200003&script=sci_arttext
https://www.youtube.com/watch?v=ebLxmUYHA6c
*Os links das fontes das imagens foram incluídos nas legendas
Este texto foi produzido a muitas mãos, durante junho e julho de 2020.
Texto e pesquisa: Diane Sbardelotto, Taís Ritter Dias e Luciana Gruppelli Loponte
Edição e revisão: Diane Sbardelotto, Carine Betker e Luciana Gruppelli Loponte