Inventar novas relações entre arte, educação e docência

Mujeres Creando: a arte como forma de tecer solidariedades

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Estar juntas é uma provocação política e estética (GALINDO, 2005, p. 216).

Urgência e simplicidade habitam as poesias grafitadas do coletivo boliviano Mujeres Creando. E, justamente, na conjunção entre as urgências cotidianas das mulheres e o despojamento da escrita, convidam ao diálogo um público que vai além dos círculos acadêmicos e artísticos. Essa urgência poética gravada no corpo da cidade por meio dos grafites, pode ser entendida como uma forma de “elaborar uma situação que envia ao outro um desejo de laço, sem antecipar a forma de construir esse laço” (MIGLIORIN, LIMA, 2017, p. 221)

No entanto, engana-se quem pensa que a urgência e a simplicidade significam a banalização das complexas temáticas abordadas nos grafites, tais como o neoliberalismo, o racismo, o colonialismo ou as diferentes formas de violência contra as mulheres. Trata-se, ao invés disso, de uma estratégia ética e estética que busca mergulhar a arte na vida, e, ao mesmo tempo, criar um corte no cotidiano de passantes que se deparam com os grafites, provocando a pensar sobre o que é naturalizado e sedimentado nesse mesmo cotidiano. As ações artísticas do coletivo nascem, portanto, de um comprometimento com a transformação da “vida de cada dia”:

[…] a arte que não se compromete com a vida, não embeleza a vida, só a maquia, a remenda ou a decora. E o que nós buscamos com a nossa arte é embelezar a vida, a vida de cada dia. Dar ânimo e solidariedade às mulheres que lutam contra o machismo, questionar os homens em sua cumplicidade com o sistema patriarcal, fazer as mulheres refletirem sobre os temas que nos dão medo, como as ditaduras e a história, apoiar os homens que lutam contra o fascismo e as ditaduras; e que cada louco e louca que creem no amor, na justiça e na liberdade não se sinta só, que leia e sinta que somos suas irmãs (PAREDES, 1999, p. 12-13 [tradução livre]).

O coletivo foi fundado em 1992, na Bolívia, por Julieta Paredes, Maria Galindo e Mónica Mendoza. Posteriormente, em 2002, o Mujeres Creando dividiu-se em dois grupos: o Mujeres Creando, que traz como integrante remanescente Maria Galindo e o Mujeres Creando Comunidad, centrado na discussão em torno do feminismo comunitário a partir das produções de Julieta Paredes. Além das três fundadoras, o grupo foi sendo mobilizado, no curso de sua existência, pelo compromisso em tecer solidariedades entre as multiplicidades de experiências femininas:

É o tecido de solidariedades que nos permite assumir como movimento a responsabilidade pela segurança, pelo afeto, pela vida das mulheres que formam parte de um projeto coletivo. O tecido de solidariedade é a sólida união que faz com que não nos façamos cúmplices da humilhação, da exclusão da outra para sermos titulares aceitáveis. Um movimento indigesto para o patriarcado (GALINDO, 2019, p. 251).

As ações heterogêneas do Mujeres Creando (que incluem, além dos grafites, greve de fome, performances, criação de periódicos e canal de televisão, assistência jurídica às mulheres, entre outras) congregam o desejo de “recuperar o espaço público que o sistema patriarcal vetou para as mulheres” (ALVAREZ, OJEDA, 2005, p. 37 [tradução livre]). Neste sentido, de acordo com Paredes (1999, p. 17), o grafite constitui-se como “um método, uma forma ou uma estratégia de luta” que visa instaurar a possibilidade de uma outra relação da mulher com o espaço público.

As ações do coletivo anunciam, portanto, a intenção de transformar a rua em um espaço de soberania da mulher em relação ao seu próprio corpo, um território em que ela já não estaria mais subordinada ao marido, à família, à Igreja, ao capitalismo. Talvez, precisamente, o desafio que o corpo feminino no espaço público coloque à ordem patriarcal, colonial, religiosa e política explique o confinamento histórico de uma parcela das mulheres no lar e a reincidência de práticas de intimidação e de violência que elas sofrem nas ruas até os dias atuais. Não à toa, o confinamento e o sedentarismo são tradicionalmente vistos como virtudes femininas, “um dever das mulheres ligadas à terra, à família, ao lar” (PERROT, 2007, p. 135).  A presença delas em público é uma mácula para a sua reputação e serve, inclusive, para justificar a violência de que sofrem: “Em julgamentos de estupro, mulheres que frequentam as ruas são tidas como quem ‘estava pedindo por isso’” (POLLOCK, 2019, p. 146).

Ao colocar os corpos das mulheres no espaço do comum e do encontro com outrem, rompem com o individualismo promovido desde o capitalismo e acentuado pelo neoliberalismo. Como lembra Silvia Federici (2017), o avanço do capitalismo promoveu, entre outras coisas, o ataque ao modo de vida das mulheres acusadas de bruxaria, modo de vida que tinha no viver comunitário uma de suas características mais importantes. Já em nosso presente histórico, o neoliberalismo produz formas de vida que tomam como modelo a gestão empresarial, provocando um enfraquecimento dos laços coletivos. A forma-empresa que orienta o discurso neoliberal em diversas esferas, inclusive na educação, é a própria “descrição das formas hegemônicas de violência no interior da vida social”, segundo Vladmir Safatle (2021), uma vez que essa forma “precisa se consolidar em uma vida social na qual toda figura da solidariedade genérica seja destruída, na qual o medo do outro como invasor potencial seja elevado a afeto central, na qual a exploração colonial seja a regra.” (SAFATLE, 2021, p. 32).

A escolha do comunitário como modo de vida do Mujeres Creando elabora, consequentemente, uma rota “indigesta” (GALINDO, 2005) para o neoliberalismo e para o patriarcado, uma vez que “a comunidade é uma alternativa ao individualismo, ao egoísmo e à indiferença” (PAREDES, GUZMÁN, 2014, p. 93).

O feminismo comunitário, ao qual o Mujeres Creando se vincula, recupera os saberes dos povos originários – sobretudo, do povo aymara ao qual pertencem muitas das integrantes do grupo – tendo como um de seus eixos a descolonização da natureza que fora instrumentalizada pela pelo capitalismo e pelo neoliberalismo. A comunidade é um plano de relações em se que busca erradicar as hierarquias que nos dividem, bem com as hierarquias que nos apartam da natureza.

Neste sentido, a criatividade e as ações artísticas do coletivo podem ser compreendidas como estratégias para o fortalecimento do viver bem da comunidade, na medida em que confrontam toda uma sorte de injustiças sociais. Tratam-se de estratégias e metodologias que desobedecem às normas institucionais, artísticas, acadêmicas e políticas, na tentativa de tecer alianças, diálogos e interpelações que possam ecoar tanto na subjetividade individual quanto nas formas de viver em coletividade.

Nós somos profundamente não violentas, acreditamos na criatividade como um aspecto muito importante da nossa luta e consideramos a mudança social como um fato criativo. Não é possível pensar na mudança social sem que nela tenha lugar uma recriação do mundo, um desordenar das relações sociais e a construção de outras relações. A maneira de provocar esse descalabro, essa desordem é através da criatividade (GALINDO, 2005, p. 231).

Elaborar formas de estar junto, em uma comunidade povoada de dissensos e impulsionada pela força ética e estética da arte, como o fazem Mujeres Creando, é uma das potências que o coletivo traz para pensar a docência e a educação.

Como a arte na escola pode ser propulsora de solidariedades e criação de espaços comuns? Que espaços criarmos para dar vazão às palavras e imagens que falam das urgências e insurgências dos corpos escolares e dos corpo docentes? Como a arte e a escola podem ser formas de criar comunidades comprometidas com o cuidado do outro e com o cuidado do mundo?

Referências

ALVAREZ, Helen; OJEDA, Julieta. “Utopía: cabalgadura que nos hace gigantas en miniatura”. In: La virgen de los deseos. Buenos Aires: Tinta Limón, 2005.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

GALINDO, MARÍA. Sejamos indigestas para o patriarcado. In: PEDROSA, Adriano; CARNEIRO, Amanda; MESQUITA, André (orgs). História das mulheres, histórias feministas. São Paulo: MASP, 2019.

MIGLIORIN, César; LIMA, Érico Araújo. Estética e comunidade: ocupar o inacabado. O que nos faz pensar. In: Cadernos do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. V. 26, n. 40, 2017.

PAREDES, Julieta; GUZMÁN, Adriana. El Tejido de la Rebeldía. Que es el feminismo comunitário? La Paz: Comunidad Mujeres Creando Comunidad, 2014.

____________________. Grafiteadas. Ediciones Mujeres Creando, Bolívia, 1999.

POLLOCK, Griselda. A modernidade e os espaços da feminilidade. In: PEDROSA, Adriano; CARNEIRO, Amanda; MESQUITA, André (orgs). História das mulheres, histórias feministas. São Paulo: MASP, 2019.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2007.

SAFATLE, Vladmir. A economia é a continuação da economia por outros meios: sofrimento psíquico e o neoliberalismo como economia moral. In: SAFATLE, Vladmir; JUNIOR, Nelson da Silva; DUNKER, Christian. Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.

Links importantes:

Mujeres Creando – http://mujerescreando.org/

Texto e pesquisa: Taís Ritter Dias, Doutoranda em Educação – PPGEDU – UFRGS

Revisão e edição: Luciana Gruppelli Loponte

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