Sou professora de artes visuais, concursada na Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre desde 2014, e atuo com a Educação Infantil, Ensino Fundamental Anos Iniciais e Finais. Nessa Rede fomos orientadas/os, no ano de 2020, a utilizar uma plataforma educacional de difícil manejo para as crianças, estudantes e suas famílias, sem possibilidade de interação, sendo enviado somente um PDF ou vídeo com a aula. Para conseguir estar mais perto das crianças, estudantes, adolescentes e pessoas adultas, criamos um aplicativo próprio da escola para organização das atividades, além disso fizemos grupos de Whatsapp com as famílias e estudantes, tendo em vista o baixo consumo de dados e a praticidade que esta rede oferecia a todas e todos nós. No entanto, não deixamos de lutar para que a mantenedora e a prefeitura ofertassem para os públicos da rede municipal um pacote de dados que permitisse acesso à internet. Nossa reinvindicação buscava assegurar a continuidade dos processos de aprendizagem mesmo à distância e evitar a exclusão no/do mundo digital, a negação do direito ao ensino de qualidade como o ensino híbrido ofertado nas redes particulares.
A interação via WhatsApp foi uma das melhores decisões que tivemos, pois nos aproximou das crianças, estudantes, jovens, pessoas adultas e suas famílias. Aos poucos notamos que a escola passou a ter maior importância para nossa comunidade, assim como as professoras/es e também a disciplina de artes. Criar uma aula sem o meu diálogo com as turmas, sem ouvir seus questionamentos era um desafio enorme, para quem estava acostumada ao chão da escola há mais de 12 anos. Escolhi fazer minhas aulas no Canva, um aplicativo que consumia menos dados e também porque eu já tinha certa intimidade. Aos poucos percebi que somente minhas palavras escritas e referências artísticas em um documento não davam conta do que minhas alunas, meus alunos e suas famílias precisavam para entender e sentir vontade de realizar as experiências e atividades propostas: era necessária minha voz, meu rosto, minha presença.
Com isso, comecei a desbravar o mundo da filmagem e dos aplicativos de edição de vídeo, entender os tempos de gravação, mecanismos e o que a tecnologia me permitia ou não, e na maioria das vezes os aplicativos gratuitos não permitem muitas invenções e criações. Para cada vídeo desenvolvia um intenso trabalho de pesquisa e curadoria de imagens (que demorava em torno de 1 dia inteiro), organizava minha fala, o cenário, colocava uma roupa bonita, colorida e me maquiava, pois as crianças, estudantes e suas famílias mereciam o meu melhor, mesmo eu estando num momento de medo e ansiedade devido a tudo que temos vivido, elas/eles eram um motivo para me levantar, criar e inventar aulas.
A cada vídeo, aprendia algo novo sobre como posicionar a câmera, a luz, os melhores horários de gravação, os tempos de fala e de silêncio, para depois editar. Falando em silêncio, foi bem difícil gravar em casa. Depois de muitas tentativas, quando tudo ficava maravilhoso, o cachorro latia, o gato pulava na câmera, o vizinho gritava, o telefone tocava, alguém abria a porta e todos os sons da rua ecoavam juntos. Briguei e discuti, muito, com os aplicativos de edição por não descobrir como fazer algo que queria. Fiz muita gambiarra pedagógica para gravar, editar e vincular os vídeos. Depois de algum tempo minha supervisora me deu de presente a chave de acesso para um aplicativo pago de edição de vídeos. Confesso que minha vida ficou mais fácil depois disso pois, os aplicativos gratuitos são limitados e dificultam algumas ações. Criei também uma conta no Youtube para facilitar o acesso as aulas, pois nesse aplicativo alguns pacotes de dados não cobram o acesso, além disso os vídeos não precisavam ser baixados (a pouca memória dos dispositivos móveis, foi outro dificultador do trabalho durante estes meses). Os vídeos eram pensados para cada ano/ciclo em sua especificidade, considerando sempre a participação e interlocução das famílias que assistiam junto. Não podiam ser vídeos longos para evitar o consumo dos dados móveis, precisavam ser dinâmicos para manter a atenção (pois, os materiais eram para crianças), precisava ampliar o repertório imagético, cultural, poético, estético e artístico das crianças e estudantes, além disso as propostas de atividades, experiências e práticas tinham de ser acessíveis para todas as pessoas da casa, tanto em relação aos materiais, tempo e espaços disponíveis.
Pensar, experimentar e criar com essas novas tecnologias foi bastante trabalhoso e exigiu muito de mim, mas também trouxe um retorno fantástico por parte das crianças, estudantes, jovens, pessoas adultas e suas familias. Escutar um áudio de uma criança de 5 anos de idade dizendo que gostou muito das obras apresentadas ou que foi muito divertido realizar a atividade ou ouvir de uma menina de 6 anos que gosta muito de cores e animais (assim como eu) e que ao voltarmos para as atividades presenciais usaria rosa ou estaria sempre fantasiada nas minhas aulas (o que tem acontecido desde nosso reencontro), ou ainda escutar de um menino de 6 anos que ganhou um quadro de gatos de presente mas, que gostaria de dá-lo a mim, pois sabe que gosto de arte e animais (presente que me foi dado em nosso reencontro acompanhado de uma carta), famílias retornando as mensagens e falando sobre que tinham gostado de realizar as atividades junto as filhas e filhos, mensagens de áudios e fotos contando fatos, sonhos e memórias de suas vidas a partir das nossas aulas, sem falar da mensagem de uma menina de 12 anos, com deficiências, semialfabetizada que mostrou-me uma visão e pensamento poético como há tempo não via… e tantas outras histórias de valorização que fazem todo o esforço valer a pena.
Nesse período que ficamos somente no ensino remoto consegui apresentar para as famílias que a arte não é somente um fazer, mas ela está relacionada a nossa vida, ela é uma forma de pensamento, um modo de ver, estar, sentir e se relacionar conosco, com os outros e com o mundo. Pude criar fissuras em alguns estereótipos sobre o desenho infantil e julgamentos formais, tais como feio, bonito, certo e errado. Tudo o que vivia e aprendia durante as conversas digitais entravam nos meus planejamentos.
Em maio de 2021 retornamos ao presencial mantendo as atividades remotas. Pude perceber que a partir dessa comunicação via WhatsApp e vídeos no Youtube com as crianças, estudantes e suas famílias o vínculo entre nós tinha se estabelecido. Tinha sido possível acionar experiências de sentir, viver, ser, pensar e se expressar com/pela arte durante o período de distanciamento social. Ao retornar para as escolas, não erámos estranhos a nós mesmos, não estávamos distantes, éramos amigas/os próximos que já haviam trocado sentimentos, sonhos, arte e poesias.
Tathiana Jaeger de Morais é Professora de Artes Visuais da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre. Mestre em Educação, Bacharel e Licenciada em Artes Visuais pela UFRGS.


