Inventar novas relações entre arte, educação e docência
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Arte e diferenças: resistências e insurgências anticapacistas

Os percursos temáticos em torno das publicações do site são um convite voltado para a formação de professores e professoras que atuam no contexto da educação básica, ensino superior e em outros contextos educativos a partir de perspectivas distintas de práticas artísticas contemporâneas e da forma como elas podem reverberar nos cotidianos, nas relações com os outros e consigo mesmo. Para saber mais sobre essa proposta, acesse aqui.

Capacitismo 

É o preconceito e a descriminação contra pessoas com deficiência. O termo vem da ideia de classificar uma pessoa que não segue um padrão corponormativo como incapaz ou inferior. 

 

Inclusão 

Sánchez (1996, p. 27) afirma que inclusão é “uma atitude, um sistema de valores, de crenças, não uma ação nem um conjunto de ações”. Centra-se, pois, em como apoiar as qualidades e as necessidades de cada aluno e de todos os alunos na comunidade escolar, para que se sintam bem-vindos, seguros e alcancem êxitos”: O termo inclusão é comumente associado aos uso de recursos de acessibilidade por pessoas com deficiência. Porém,  a garantia e manutenção de direitos só ocorre quando compreendemos a inclusão enquanto uma mudança de paradigma, e não meras adaptações. 

 

Acessibilidade

De acordo com o Conselho Nacional do Ministério Público , a acessibilidade pode ser definida como “a possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento para a utilização, em igualdade de oportunidades, com segurança e autonomia, do meio físico, do transporte, da informação e da comunicação”. Para as pessoas com deficiência, a acessibilidade  representa a manutenção da autonomia em todos os aspectos da vida. 

 

Pessoa com deficiência

A maneira de se referir às pessoas com deficiência sofreu transformações ao longo da história. Foi em setembro de 2000 que aconteceu o maior evento de organizações de pessoas com deficiência na época, onde foi definido que a terminologia a ser utilizada seria “pessoa com deficiência”. Esse termo faz parte do texto da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, adotado pela ONU em 13/12/06. 




Aleijado


Aleijado no latim laesio ou laesionem (derivado de laedere), significa “lesão”, “ferida”ou “dano”. O termo é utilizado de forma pejorativa para referir-se a pessoas com deficiências físicas. Um artista clássico da história da arte, Antônio Francisco Lisboa, nascido em 1730, ficou amplamente conhecido por seu apelido “Aleijadinho” em função de sua doença degenerativa. Por outro lado, a arte pode ampliar e problematizar nossa percepção acerca de palavras pejorativas. Uma das artistas apresentadas no percurso abaixo, a Céu Vasconcellos, ressignifica o termo aleijado, incorporando como poética no seu trabalho artístico.

Série Ponto de Vista, Mariane Rottet

Você já parou para pensar sobre a maneira como você percebe o mundo?  Tudo ao nosso redor pressupõe um modo de ser. Como olhamos o mundo e como o mundo nos olha, escuta, percebe, sente de volta? O mundo ao nosso redor pressupõe um modo de ser. Mas como pensar nos outros modos de existência que habitam e, por vezes, são invisibilizados na nossa sociedade e na nossa cultura?

Os debates acerca de práticas pedagógicas inclusivas ainda são insuficientes, dada tamanha importância e necessidade da discussão, principalmente por estarmos, cada vez mais, tendo matrículas de crianças, adolescentes e adultos com deficiências em escolas regulares. Geralmente, quando juntas,  as palavras  arte e inclusão são associadas a terapias, laudos e tratamentos. Contudo, nesse percurso, convidamos vocês a percorrerem um caminho não linear acerca das potencialidades das diferenças, onde as práticas artísticas contemporâneas são pistas para um olhar não patológico ou capacitista, mas sim um modo de perceber mais crítico, estético e político. 

Esse percurso, portanto, não se pretende aprofundar nas importantes discussões acerca das políticas de inclusão. Temos como plano de fundo que são múltiplas as formas em que a acessibilidade pode ser instituída e que o termo inclusão por si só é alvo de muitas conversas. O que queremos aqui pensar é: como as práticas artísticas contemporâneas podem trazer um modo mais atento, crítico e de cuidado para as diversas deficiências? Como  a arte pode mostrar as nossas diferenças, as lógicas excludentes e romper com as barreiras e o capacitismo na nossa sociedade?

Neste percurso, diferentemente de outros nos quais trabalhamos apenas com artistas já presentes no site, fez-se necessário escapar das nossas conhecidas referências para apresentarmos as artistas Mariane Rotter, Céu Vasconcelos, Berenice Olmedo, Christine Sun Kim e Judith Scott. Esse tema surgiu a partir de conversas com um grupo focal de professores realizados em 2025, no âmbito da pesquisa em andamento “Percursos temáticos em arte contemporânea: processos formativos para a educação básica” financiada a partir do Edital Universal CNPq.

Mariane Rotter

 É muito comum entrarmos em um banheiro em um local público e, para aqueles que conseguem ver, conferirmos a nossa imagem no espelho. Espelhos, pias e azulejos revelam contextos distintos, modos de estar no mundo completamente diferentes. Mas que imagem é percebida nesses banheiros por uma pessoa que mede 1,30m? É este o “ponto de vista” registrado pela artista Mariane Rotter em suas fotografias.

As fotografias de Mariane evidenciam a presença de perspectivas padronizadas para a criação de espaços comuns, como se todas pessoas tivessem a mesma altura, vissem ou ouvissem da mesma forma, como se pensassem da mesma maneira. As medidas padrão violentam, excluem, minimizam o potencial de outras formas de existir no mundo.

“Mariane é uma pessoa que mede 1,30m. Esses lugares, em sua maioria, não foram feitos para ela. A ausência de sua figura nos revela, assim, de forma sutil, o mundo excludente em que vivemos. A montagem, que quebra com o padrão de altura dos manuais de exposição, obriga a maioria dos visitantes a abaixar a cabeça e os olhos, reforçando o exercício de perceber que há muitos pontos de vista e que quase sempre nos limitamos ao nosso como se fosse o único” (Luisa Kiefer, 2022) 

Qual lugar cada um de nós ocupa no mundo? Do que cada um é capaz?  O que faz alguém ser considerado “incapaz” de fazer alguma coisa ou de ser considerado “inadequado” para alguns espaços? As práticas artísticas podem nos convidar à distorcer alguns espaços, a fim de fazer encaixar outras formas. 

Céu Vasconcelos

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Na  exposição “Monumento Aleijado”, realizada em Brasília em 2025, a artista Céu Vasconcelos cria próteses-esculturas, relacionando e problematizando as relações entre arte e deficiência. Essa percepção normativa de que um corpo com deficiência é aleijado ou incapaz é justamente o que a artista busca romper. Segundo ela, é preciso deformar a normatividade e perceber que o corpo com deficiência é “Um corpo que insiste, que ocupa, que se recusa a ser corrigido ou apagado”.

Em entrevista para o Jornal de Brasília, Céu afirma que “por muitos anos, eu não era dona do meu próprio corpo. A violência capacitista e cotidiana nos ensina a odiar quem somos. Quando conheci a palavra ‘capacitismo’ e entendi suas dinâmicas, tudo mudou. Percebi que o erro nunca esteve em mim, no meu corpo, mas no mundo”.

Pensando nisso, a artista evoca o símbolo do monumento, evidenciando um contraste através do seu corpo com deficiência. Ao lado das imagens preservadas nos monumentos, como estátuas que se encontram em praças e espaços públicos, Céu sugere uma outra narrativa para o que é entendido enquanto símbolo de uma identidade coletiva. 

Berenice Olmedo

 O trabalho de Berenice Olmedo parece reforçar algo que que por vezes esquecemos: qual o significado da palavra tecnologia? Atualmente, ficamos presos em relação às tecnologias digitais, esquecendo que tecnologia é a aplicação de um conhecimento – científico – para fins práticos. A partir dessa perspectiva, instrumentos simples do dia-a-dia são tecnologia. Vivemos rodeados de tecnologias nos nossos corpos, das mais simples às mais sofisticadas e cada vez menos conseguimos viver sem elas: roupas, relógios, brincos, aparelhos dentários, óculos, lentes de contato e por aí vai. De que é feito nosso corpo? A artista Berenice Olmedo chama a atenção e nos convida a “nos desfazermos da ideia de que os corpos são formados apenas de carne e osso, reforçando o quanto o uso de instrumentos é parte da vida humana, potencializando novas maneiras de ser e estar no mundo” (site da 14ª Bienal do Mercosul). Em seu trabalho artístico, Berenice apresenta esculturas que exploram a materialidade de próteses e órteses. Em entrevista para o Flash Art, Olmedo afirma “Pode parecer fácil e pouco arriscado questionar a deficiência a partir do conforto de um corpo sem limitações motoras, amputações ou anomalias congênitas, mas a deficiência não se limita aos fenômenos que ocorrem no corpo; a deficiência é política”. 

Christine Sun Kim

 

Quem teve a oportunidade de visitar a 14ª Bienal do Mercosul em Porto Alegre, deve ter visto o mural localizado na Casa de Cultura Mario Quintana. A frase “minha língua não é a língua do amor, mas sim a língua da sobrevivência” gerou diversas interpretações. O impacto do público era grande ao se deparar com a informação de que a artista responsável pela obra, Christine Sun Kim, é surda.  Nascida na Califórnia em 1980, a artista tem o som e suas complexidades como ponto central do seu trabalho, evocando a diversidade na forma de nos comunicarmos. A artista também trabalha a partir da palavra,  do desenho e do vídeo, apresentando obras que “exploram dimensões não auditivas e políticas do som”. 

No site do Remai Modern Currents, destaca-se como a artista problematiza “a noção de que o som é uma experiência puramente auditiva, destacando-o como algo que percebemos por meio de múltiplas dimensões, incluindo as esferas visual, física e política”. Nesse sentido, o trabalho de Kim Sun, através de notação musical, infográficos simples, linguagem gestual estadunidense (ASL), humor e expressão corporal destaca a potencialidade de outros modos de compreendermos os sentidos, ampliando percepções de mundo. 

Christine Sun Kim, “O som da temperatura subindo” (tradução nossa), 2019.

Judith Scott

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Fotografia de Erin Brookey, 2002

Judith Scott foi uma artista estadunidense nascida em 1943 em Ohio, EUA, com sua irmã gêmea Joyce. Sua produção artística iniciou no espaço Creative Growth Art Center, na Califórnia. Em 1987 começou a frequentar este atelier experimentando diversas linguagens artísticas. Após um curso de arte têxtil, em 1988, começou a criar sua própria linguagem. Seu processo artístico iniciava com a coleta de coisas, suas primeiras esculturas foram com gravetos e depois passou a usar coisas cotidianas como calçados, cabides, cadeiras, rodas de bicicleta, carrinho de supermercado ou guarda-chuvas, para além de materiais reaproveitados como papelões, carretéis, canos de pvc ou redes. Esta primeira fase era dinâmica e rápida, ela trazia tudo para sua mesa de trabalho e depois da seleção, com linhas e fios, começava a tecer demoradamente. Estes objetos eram cobertos com as linhas coloridas, transpassando-as em costuras. Ela tecia casulos sobre os objetos, que depois de finalizados poderiam ser cobertos em outro casulo. “É absolutamente primordial que algum item seja escondido dentro das peças para fazer emergir de seu interior um sentido orgânico e pulsante: algo vive no interior das formas.” (Oliveira, 2022, p. 33). 

Com gestos repetitivos ela criava os casulos, como uma aranha tecelã. As coisas que caiam em sua rede perdiam suas funções, formas e sentidos. Eram ressignificadas entre linhas e fios coloridos em esculturas artísticas, algumas de grandes proporções. Quando nos deparamos com as artes de Judith, como podemos vivenciar na 35ª Bienal de São Paulo, vemos o casulo colorido. Não sabemos o que tem dentro. Podemos supor por alguma ponta que ficou à mostra ou pelas formas, mas apenas supor. Ela nos provoca a olhar demoradamente, repetitivamente, a imaginar o que pode existir entre tantas camadas de linhas. Assim, ela foi ressignificando sua existência e mostrando ao mundo sua resistência.

Judith não tinha a articulação da comunicação oral, Tom di Maria, em sua fala na live Virtual Insights: Judith Scott, fala da invenção de uma linguagem tanto artística quanto de comunicação. Ela usava gestos para demonstrar que estava finalizada uma peça, por exemplo. Judith nasceu com síndrome de Down e, tardiamente, foi diagnosticada com surdez. Por passar dos sete aos 42 anos internada em instituições sem uma educação e na maior parte do tempo isolada, além de outras violências, ela não aprendeu a língua de sinais. Em 1985, sua irmã Joyce conseguiu sua guarda e começou a procurar espaços para ela frequentar que valorizassem sua vida.

O Creative Growth Art Center não é um espaço de terapia e tratamento. É um atelier coletivo voltado para pessoas com deficiências ou questões de saúde mental, mas não está preocupado em recuperar uma “normalidade” em seus corpos. O centro busca fornecer espaço, material e orientação de outros artistas para a produção artística. Contam com uma galeria onde são expostos os trabalhos dos artistas que utilizam o espaço, até hoje é muito movimentada. Foi o primeiro local de exposição das artes de Judith e onde ela se reconheceu como artista. Depois houveram outras exposições ainda em vida, e suas artes seguem rodando o mundo mesmo após sua morte em 2005.

Foto: Leon Borensztein

Que outras estéticas, além das mais comuns ou normativas, a escola pode acolher? Como exercitar nossa percepção para outras estéticas – não auditivas, não visíveis,  atípicas?

Quais são os modos de pensar e perceber que a escola mais considera em suas ações pedagógicas?

Como as práticas artísticas contemporâneas podem trazer um modo mais atento, crítico e de cuidado para as diversas deficiências e suas estéticas? 

 

Texto e pesquisa: Clarissa Nunes, Elisandro Rodrigues, Giovanna Fiorentini, Lobna Essabaa e Luciana Gruppelli Loponte.

Revisão e Edição: Clarissa Nunes, Lobna Essabaa e Luciana Gruppelli Loponte. 

Este percurso está disponível para download em PDF aqui. Na última página deste arquivo você encontrará uma zine para impressão e compartilhamento.

Referências das artistas 

Mariane Rotter

Kiefer, Luísa. Um olhar singular, 2022. Disponível em: https://ocregaleria.com.br/artista_convidado-2/ 

Silva, Marcelo de Souza. O reflexo ausente nas fotografias da série “Meu ponto de vista”, de Mariane Rotter. Disponível em: https://www.ufrgs.br/jornal/o-reflexo-ausente-nas-fotografias-da-serie-meu-ponto-de-vista-de-mariane-rotter/ 

Museu de Arte Contemporânea: https://acervo.macrs.rs.gov.br/artistas-macrs/mariane-rotter/  

Céu Vasconcelos

Exposição de Céu Vasconcelos abre a 2ª edição do Festival Trilha da Inclusão: https://jornaldebrasilia.com.br/viva/exposicoes/exposicao-de-ceu-vasconcelos-abre-a-2a-edicao-do-festival-trilha-da-inclusao/

Christine Sun Kim

Museu Whitney de Arte Americana

https://whitney.org/exhibitions/christine-sun-kim-all-day-all-night 

Material educativo do Museu Whitney de Arte Americana 

Remain Modern Currents

https://remaimoderncurrents.ca/get-to-know-artist-christine-sun-kim/

Smithsonian American Art Museum

https://americanart.si.edu/artist/christine-sun-kim-32120 

14ª Bienal do Mercosul 

https://www.bienalmercosul.art.br/bienal-14-artistas/christine-sun-kim

Site da artista 

https://christinesunkim.com/ 

Berenice Olmedo

14ª Bienal do Mercosul (Porto Alegre, 2025)   (https://www.bienalmercosul.art.br/bienal-14-artistas/berenice-olmedo)  

Judith Scott

AMERICAN FOLK ART MUSEUM. Virtual Insights: Judith Scott. YouTube, 18 de set. de 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8szSesCET88&t=2128s&ab_channel=AmericanFolkArtMuseum. 

Creative Growth Art Center. Disponível em: https://www.creativegrowth.org/. Acesso em: 17/01/2026

OLIVEIRA, Solange de. Arte por um fio 2: Judith Ann Scott. São Paulo: Estação Liberdade, 2022.

SCOTT, Joyce Wallace. Entwined: Sisters and Secrets in the Silent World of Artist Judith Scott. Boston: Beacon Press, 2016.

Sites:

35ª Bienal de São Paulo (2023)

https://35.bienal.org.br/participante/judith-scott/ 

Art21

https://art21.org/artist/judith-scott/ 

New York Times

https://www.nytimes.com/2014/12/05/arts/design/judith-scotts-enigmatic-sculptures-at-the-brooklyn-museum.html

Brooklyn Museum:

https://www.brooklynmuseum.org/pt-BR/touring-exhibitions/judith_scott

Outras referências:

BEDIN, Everton.; Silva, Camila Simone. O que é inclusão/incluir? Conceitos e preceitos da educação básica e da educação superior, 2018. 

História da terminologia e luta das pessoas com deficiência:

https://www.geledes.org.br/como-se-chamar-as-pessoas-com-deficiencia/

INCLUIR – Núcleo de Inclusão e Acessibilidade – UFRGS – https://www.ufrgs.br/incluir/ 

Fórum pela inclusão escolar – https://www.ufrgs.br/forumpelainclusao/ 

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