Inventar novas relações entre arte, educação e docência

Carolina Caycedo: os rios da sua cidade estão vivos?

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Rios Vivos, 2014
Geochoreography.
Magdalena River.
Colombia.
fonte: https://atlasiv.com/2016-caycedo-rios-vivos-c/

A cidade que você mora tem um rio? Como este rio se relaciona com a cidade? Os rios da sua cidade estão vivos? As águas são limpas, há peixes, vegetação, aves circulando? Ainda que tenhamos uma relação direta com os rios de nossas cidades, pois é deles que vem a água, não paramos para pensar em outras relações que poderíamos ter. Esse distanciamento que temos em relação à natureza faz com que seja normal conviver com rios poluídos em grande parte das cidades brasileiras, especialmente nos grandes centros. Mesmo vendo e vivenciando tragédias ambientais como o caso das enchentes no Rio Grande do Sul, a crise de água em Joinville após um vazamento de ácido no rio Seco e o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana , em geral, continuamos a normalizar a poluição dos rios, arroios, lagoas, e essa distância da natureza e da água.

Carolina Caycedo, artista inglesa com ascendência colobiana, aborda a relação cultural e ambiental com a natureza evidenciando, por exemplo, a relação entre os povos ribeirinhos e os rios que estão sendo usados por empresas que privatizam o uso das águas. A artista percebe que o rio é um espaço público como uma “agência política social” é como “um fio que liga, sustenta e protege todos os seres vivos circundantes” e reconhece que a água é um direito é uma entidade espiritual. Seu projeto “Be Dammed” ou “A gente rio”, presente na 32ª Bienal de Artes de São Paulo, realizada em 2016, traz no nome essa relação direta com o rio e mostra as consequências do desastre em Mariana através de um vídeo feito pela artista, com imagens de satélite mostrando o antes e depois dos lugares afetados pelo rompimento da barragem e desenhos que narram os casos de exploração da natureza e as histórias das personalidades por trás dos rios: Watu, Yaqui, Yuma, Elwha e Iguaçu.

Obra da artista Carolina Caycedo na 32ª Bienal de São Paulo
Foto por: Leo Eloy/Estúdio Garagem/ Fundação Bienal de São Paulo
fonte: http://carolinacaycedo.com/river-books-libros-rio

O rio Doce é representado por Watu nas ilustrações de Caycedo, assim como é conhecido pelo povo indígena Krenak. A história ilustrada do rio Watu conta os acontecimentos e as consequências deixadas pela lama de uma maneira poética, dando personalidade ao rio.

“A vida camponesa transcorria com tranquilidade e alegria, até as 4h da tarde do dia 5 de novembro de 2015, quando se rompeu a barragem de Fundão. A barragem continha bilhões de litros de dejetos da mina de ferro Germano, de propriedade da empresa Samarco. Não soou nenhuma sirene de aviso, não havia plano de emergência. O rompimento de Fundão produziu uma avalanche de lama que desceu com força pelo rio Gualaxo do Norte, chegando até o rio Doce, e continuou descendo levando corpos humanos e de animais, peixes e plantas mortas e minerais tóxicos que envenenaram tudo por onde passaram. No dia 9 de novembro a lama chegou à cidade de Governador Valadares, causando uma profunda ferida espiritual no povo indigena Krenak, para quem o rio Doce é WATU, o Avô. Os Krenak sempre estiveram na bacia do Watu, antes da invasão portuguesa e antes da invasão das mineradoras. Krenak é o único povo indigena as margens do watu, e sempre teve ligação forte com o rio. Eles falam ‘O rio é como se fosse o nosso sangue, corre nas nossas veias’. Nem a Samarco, nem o governo Brasileiro fizeram nada para conter a onda de lama; ao contrário, insistem que é inofensiva. A lama contaminou o corpo inteiro de watu, viajando por mais de 600 quilômetros durante duas semanas até que, no dia 23 de novembro de 2015, chegou ao oceano Atlântico, cuspindo seus dejetos tóxicos sobre a vida marinha. Mais de 2 milhões afetadas pela lama nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. É o maior crime ambiental da história do Brasil. Os cientistas garantem que o Rio Doce está morto, mas os Krenak sentem e pensam diferente. Sabem que Watu é mais inteligente que a lama da Samarco. Por isso, quando viu a lama vir, Watu se enfiou debaixo do leito do Rio. E ali permanece adormecido, sonhando, sob a terra. Enquanto isso, a mãe água e o pai tempo, com seu fluxo, limpam pacientemente o corpo do avô Watu. A Gente Rio sonhamos com o dia que Watu desperte, descontaminado e livre.”

Ailton Krenak, líder indigena, ambientalista e filósofo, em seu livro “Ideias para adiar o fim do mundo” atenta para como os crimes ambientais, mascarados de acidentes, alteram a realidade em que vivemos:

“O Watu, esse rio que sustentou a nossa vida às margens do rio Doce, entre Minas Gerais e o Espírito Santo, numa extensão de seiscentos quilômetros, está todo coberto por um material tóxico que desceu de uma barragem de contenção de resíduos, o que nos deixou órfãos e acompanhando o rio em coma. Faz um ano e meio que esse crime — que não pode ser chamado de acidente — atingiu as nossas vidas de maneira radical, nos colocando na real condição de um mundo que acabou.”

(KRENAK, 2019, p. 21)

A série de trabalhos “Cosmotarrayas” é formada por uma estrutura composta de redes e materiais de pesca feitos pelas comunidades que Caycedo conviveu e representa a resistência dessas comunidades afetadas por crimes ambientais. Essa série de trabalhos reforça o direito do coletivo de pescadores que tem como economia familiar a pesca e sobrevivem da relação com os rios, ressaltando a exploração dos rios feita pelas empresas que o privatizam construindo barragens e poluindo a água e os arredores.

COSMOTARRAYA YAQUI, 2016
HAND DYED ARTISANAL FISHING NETS, LED WEIGHTS, WOOD STICK, COTTON PONCHO, LEATHER MARACAS, DRY CHILE PEPPER.
90 X 55 X 10 CM
Incerteza Viva, Instalação. 32ª Bienal de São Paulo, 2016. © Ilana Bar / Estúdio Garagem / Fundação Bienal de São Paulo. (https://www.icaboston.org/publications/river-common-good-carolina-caycedos-cosmotarrayas/ )

Carolina Caycedo constrói as instalações do projeto “Cosmotarrayas” com objetos coletados, incluindo as próprias redes de pesca, em pesquisas de campo realizadas com as comunidades ribeirinhas afetadas pelas privatizações das hidrovias. As Cosmotarrayas foram feitas especificamente para a 32ª Bienal, e a pesquisa de campo ocorreu nos arredores dos rios Rios Doce, Xingu, Paraná e Ribeira e no Mercado Ver-o-peso em Belém. A relação de despersonificação dos rios – isto é, uma relação de partilha que foi perdida ao longo do tempo, tirando o sentido da relação da natureza com o ser humano – é destacada por Ailton Krenak enquanto um fator responsável pela atividade extrativista industrial:

“Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas a todos.”

(KRENAK, 2019, p. 24)

Sendo as geocoreografias propostas por Carolina Caycedo “um ato político que recorre ao uso do corpo como ferramenta política, sob a noção de que a geografia e o território fazem parte do próprio corpo e não apenas algo fora do corpo” (texto do site da artista), nos trazem principalmente a questão de que não estamos alheios ao lugar em que vivemos, ou pelo menos não deveríamos estar ou sentir-nos dessa forma. Uma questão primordial para olharmos de forma menos extrativista para a nossa relação com a natureza, é entendermos o contexto antropocêntrico dominante no qual estamos inseridos. Entender a espécie humana como superior às outras e outros elementos do nosso planeta cria uma categorização que separa humanidade e natureza. Em relação aos “Direitos da Mãe Terra”, Pablo Solón nos ajuda a pensar nessas questões:

“O capitalismo, o produtivismo e o extrativismo estão profundamente enraizados nesse conceito dominante do nosso tempo. Para essas visões, tudo pode ser transformado, mercantilizado, controlado e reparado pelo avanço da tecnologia. Já os direitos da mãe terra desafiam essa ideia ao propor a superação do antropocentrismo.”

(Pablo Solón, 2019, p. 145)

Reforçamos o apelo de Krenak: não são apenas os indígenas que habitam as margens do Rio Doce (ou outros rios) que são afetados, TODOS NÓS somos afetados. Aprendemos com Carolina Caycedo que é necessária uma “mudança na nossa concepção do ambiente que nos rodeia – uma mudança que reconheça o conhecimento indígena e centre a ligação dos seres humanos com a terra e com outras espécies.” (Entrevista com a artista)

O trabalho de Carolina Caycedo nos convida a olhar para o modo como nos relacionamos com a natureza, desconfiando de maneiras já pré-estabelecidas e já normalizadas.

Como desaprender a relação extrativista com a natureza? Como reeducar, junto da arte, a forma como nos relacionamos com outros seres e elementos com os quais dividimos a terra?


Referências:

Textos:

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SOLÓN, Pablo. Alternativas sistêmicas: Bem Viver, decrescimento, comuns, ecofeminismo, direitos da Mãe Terra e desglobalização / organização de Pablo Solón, Tradução de João Peres. São Paulo: Elefante, 2019.

Sites:

http://www.32bienal.org.br/pt/participants/o/2539 

http://carolinacaycedo.com/a-gente-rio-we-river-2016 

https://camposdeinvisibilidade.org/Carolina-Caycedo

https://www.moma.org/artists/132158

https://bombmagazine.org/articles/2020/06/12/water-portraits-carolina-caycedo-interviewed/

http://carolinacaycedo.com/geochoreographies-2015

https://www.icaboston.org/publications/river-common-good-carolina-caycedos-cosmotarrayas/

https://select.art.br/carolina-caycedo-por-uma-memoria-ambiental/ 

Projeto “Na minha cidade tem um rio” – https://naminhacidadetemumrio.blogspot.com/ @naminhacidadetemumrio


Texto e pesquisa: Clarissa Nunes de Medeiros, Lobna Essabaa e Luciana Gruppelli Loponte.

Revisão e edição: Clarissa Nunes de Medeiros e Luciana Gruppelli Loponte

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